PALAVRA DO PRESIDENTE: TODOS NO MESMO BARCO

É normal se dizer que estamos todos no mesmo barco. Numa reunião de trabalho, num encontro de família, numa situação difícil, vem sempre a frase: “estamos todos no mesmo barco”. É um sinal de esperança. Vamos enfrentar os desafios. As coisas vão melhorar porque pior que está não pode ficar. Juntos, unidos, vamos resolver o problema, vamos vencer e dar a volta por cima. Leia a palavra do presidente do Saperj, Alexandre Guerra Espogeiro.

 

Para nós, que estamos há várias gerações a bordo do barco Pesca, o que não falta é problema para resolver, desafio para enfrentar. Por exemplo: não existe dor maior do que perder um barco. O barco fica a deriva, bate nas pedras ou encalha na areia. Já vivemos isso de um barco encalhado na areia. Busca-se socorro, manda-se ofício para a Marinha, entra-se em contato com uma firma especializada nesse tipo de sinistro. Retira-se o óleo do motor porque, além do prejuízo pela perda da embarcação, pode acontecer uma multa milionária por poluição de uma praia. A maré sobe, a maré desce, o mar fica violento e as ondas vão martelando o barco, desmantelando tudo até não sobrar nada, só destroços. Não é um espetáculo bonito de se ver.

Por falar em multa, pode acontecer de um barco, seguindo a lei do seu porto de origem, pescar, inadvertidamente, numa área proibida pela lei de um outro estado. Sua produção é apreendida e ainda recebe um auto de infração de alguns milhares de reais. É claro que se pode entrar na Justiça para contestar a decisão, para esclarecer os fatos, explicar o possível equívoco, mas os peixes apreendidos já foram doados para instituições de caridade e, como diz o ditado, não adianta chorar o leite derramado. A saída é fazer um curso intensivo sobre leis do mar ou incluir um advogado na tripulação.

Mas pode acontecer coisa pior. Como o naufrágio recente da embarcação Kairos, do Espírito Santo.   O mestre pediu socorro via rádio, informando que o barco de pesca estava com um vazamento, entrando água, correndo o risco de afundar a 150 milhas da costa, equivalente a 241 km de distância. A Marinha foi acionada, um helicóptero e até oito embarcações de pesca foram para a região. Três pescadores com vida foram encontrados em meio aos destroços da embarcação e disseram que os outros três pescadores não resistiram, afundaram e morreram. Entre nós, ninguém entende bem aquela velha canção que diz que “é doce morrer no mar”. A vida nunca foi fácil a bordo do barco Pesca.

É claro que sempre pode aparecer alguém com uma visão mais ampla da realidade e afirmar que estamos só olhando para o nosso umbigo, e perguntar: “E o Brasil? E o barco Brasil? A situação do barco Brasil é pior do que a sua. Está tudo um desgoverno! Não se sabe se o mestre-presidente continua a bordo ou não. Se o destino do barco Brasil é navegar tranquilo ou ir ao fundo”.

Só podemos dizer também estamos dentro desse barco Brasil, numa Secretaria de Aquicultura e Pesca acoplada ao Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC) e que publicou no dia 27 de julho a Portaria 1.275 que permite o exercício da pesca profissional em todo o País. A norma torna válidos os registros suspensos ou ainda não analisados existentes no Sistema de Registro Geral da Atividade Pesqueira (SISRGP).

Para isso, a portaria reconhece como documentos válidos para o exercício da atividade de pesca os protocolos de solicitação de registro ou comprovantes de entrega de relatório para a manutenção de cadastro devidamente atestados pelos órgãos competentes. A medida vale até o início do processo de recadastramento dos pescadores que será realizado pela secretaria até o final do ano. Quer dizer: ainda estamos na fase de cadastro. Um dia saberemos quem somos, quantos somos e tudo vai ficar bem.

Mas tem gente com visão mais ampla ainda, e pronta para falar que a situação do barco Terra é periclitante.  Os estudiosos estão cansados de avisar que o aquecimento global traz consequências e impactos para o clima e para os ecossistemas. Garantem que o derretimento das calotas polares continentais e a resultante elevação do nível médio do mar, eventualmente, ocasionarão alagamentos e perdas de habitats marinhos e terrestres. Maiores temperaturas alteram a circulação da atmosfera e dos oceanos, aumentando o número, energia e distribuição geográfica de eventos extremos, como furacões. E por aí vai.

Diante de tudo isso, só nos resta repetir que estamos todos no mesmo barco. Mareados e enjoados, esperançosos e desesperados, vencidos e derrotados, trabalhadores e desempregados, mas todos no mesmo barco. No barco Pesca.  No barco Brasil. No barco Terra. Precisamos fugir da deriva, encontrar um rumo e procurar sobreviver da maneira mais digna possível.

 

 

Alexandre Guerra Espogeiro

Presidente do Saperj

 

ENTREPOSTO DE PESCA EM NITERÓI

Em 1992, quando fomos despejados da Praça XV, o então prefeito de Niterói, Jorge Roberto Silveira, declarou que a cidade não era lixeira do Rio e fomos ocupar um cais provisório na Ilha da Conceição, na ex-Sardinhas 88. Continuamos lá há mais de 20 anos. Em 2013, o primeiro Terminal Pesqueiro Público do estado, no Barreto, foi inaugurado mais uma vez e até hoje não tem condições de receber os barcos de pescadores: os únicos peixes que passaram pelas novíssimas esteiras compradas para o local foram os usados na encenação feita para a cerimônia de inauguração. Em 2015, a imprensa registrava o fiasco de uma Cidade da Pesca, que aproveitaria píer da Petrobras em Itaoca, mas que deu em nada em virtude da crise geral que assola e humilha a todos nós. Em 2017, a inclusão da construção de um entreposto de pesca na carteira de projetos da Prefeitura de Niterói, prevista para o período de 2017 a 2020, visa estimular o fortalecimento da produção e consumo de pescado, bem como inserir o turismo na atividade pesqueira.  A mudança de visão da Prefeitura de Niterói é a melhor notícia dos últimos 25 anos. Niterói pode voltar a ser a verdadeira Cidade da Pesca.

 

Da esq. para a dir.: Luis Penteado, Eduardo Miranda, Dr. Rodolfo Tavares, Comte Bittencourt, Luiz Paulino e Comandante Leme: esperanças renovadas para a pesca / Foto: Edineia Costa SantosNo dia 8 de agosto foi realizada na sede do SAPERJ, mais precisamente no Auditório Ignácio Balthazar do Couto, uma reunião com o objetivo de discutir à necessidade de implementar na carteira de projetos da Prefeitura de Niterói, prevista para o período de 2017 a 2020, a construção de em Entreposto de Pesca para estimular o fortalecimento da produção e consumo de pescado, bem como inserir o turismo na atividade pesqueira.

Foi uma aposta no futuro e um resgate da importância da pesca. Estavam presentes na reunião o vice-prefeito de Niterói, deputado estadual Comte Bittencourt; o Secretário de Desenvolvimento, Luiz Paulino; a Subsecretária de Pesca, Cristina Contreras; a Subsecretária do Núcleo de Gestão Estratégica, Gláucia Alves Macedo; o presidente da FAERJ, Dr. Rodolfo Tavares; o vice-presidente da Federação Nacional dos Trabalhadores Aquaviários, Luis Penteado; o presidente do Sindicato dos Pescadores do Rio de Janeiro, Antônio Moreira; o diretor da Associação dos Comerciantes e Amigos do Mercado São Pedro, Atílio Guglielmo; o vice-presidente do SAPERJ, Eduardo Miranda, e diversos armadores de pesca.

O assessor técnico do SAPERJ, Comte. Flávio Leme, apresentou na reunião um sumário do contexto da pesca industrial do nosso Estado, abordando os seguintes pontos: conceitos da pesca comercial, dados da produção de pescado, características da frota filiada ao SAPERJ (104 barcos e 10 mil pescadores embarcados) e entrepostos de pesca existentes em outros países. Lembrou que a pesca é a segunda maior atividade geradora de renda do agronegócio (400 milhões no PIB estadual), atrás apenas da bovinocultura de corte e leite, de acordo com dados do Relatório do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada sobre o PIB do agronegócio do Rio de Janeiro.

A Subsecretária do Núcleo de Gestão Estratégica Gláucia Alves Macedo: garantia de uma gestão dinâmica, inovadora e sustentável / Foto: Edineia Costa Santos

Leme alertou que a ausência do poder público no setor pesqueiro do Rio de Janeiro ocorre há décadas e medidas efetivas devem ser tomadas de modo a reverter o panorama negativo para a pesca como uma atividade econômica sustentável. Um pregão eletrônico, por exemplo, agregaria valor ao pescado e diminuiria radicalmente a cadeia de intermediários que chega a aumentar em até 400% o preço real do peixe.

“A inversão da tendência do declínio pode ser realizada com uma série de medidas factíveis de serem implementadas. Infraestrutura, formação de pessoal, estatísticas, pesquisas e modernização da frota são condições indispensáveis para uma volta por cima. A construção de um Entreposto de Pesca em Niterói pode ser o primeiro passo para a retomada da importância e até da autoestima da atividade pesqueira”, declarou o Comte. Flávio Leme.

Vozes da pesca – Na abertura da reunião, Luis Penteado, vice-presidente da Federação Nacional dos Trabalhadores Aquaviários, enfatizou o apoio do setor para a elaboração do projeto do Entreposto considerando a importância da atividade pesqueira para o munícipio e que, até então, as poucas iniciativas ocorridas não atenderam às necessidades da pesca comercial industrial. “Não vamos desistir de véspera. O entreposto é um renascimento da pesca”, afirmou.

O Dr. Rodolfo Tavares, presidente da Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca do Estado do Rio de Janeiro (Faerj), que vem acompanhando há pelo menos três décadas as marés altas e baixas (mais baixas do que altas), de nossa atividade, lembrou: “Várias inaugurações de pedra fundamental de Entreposto de Pesca já foram feitas, entretanto nada saiu do papel, e isso nos faz lembrar da canção que diz ‘deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa’. Mas nada disso deve nos impedir de continuar lutando para que um dia a construção do Entreposto se torne uma realidade.”

E o presidente da Faerj prosseguiu: “Temos um valioso patrimônio e pessoas vocacionadas para a pesca em Niterói. A economia do Rio de Janeiro não poder estar dependente exclusivamente do petróleo, sendo a atividade pesqueira uma outra importante opção para o desenvolvimento econômico do Estado, além da sua relevância estratégica, uma vez que a área marítima que abrange todo litoral do Rio de Janeiro é duas vezes maior que a área continental do Estado. Nesse sentido, o setor e as esferas do governo devem unir esforços para o desenvolvimento da atividade pesqueira, principalmente na construção de um Entreposto, uma vez tratar-se de uma atividade geradora de renda e milhares de emprego e que contribuiu para a segurança alimentar da população fluminense”, concluiu o Dr. Rodolfo Tavares.

Mercado São Pedro / Imagem: br.worldmapz.com

O armador Eduardo Miranda, vice-presidente do Saperj, explicou em poucas palavras como chegamos à atual situação de vazio: “O amplo complexo industrial pesqueiro que existia em Niterói e municípios vizinhos migrou para outros Estados. A inexistência de um Entreposto de Pesca, entre outros motivos, contribuiu para o esvaziamento e enfraquecimento da pesca no estado do Rio de Janeiro”.

O armador Eduardo Faustino, delegado representante do Saperj, foi incisivo: “Nós somos o berço da pesca do Brasil. Fomos destruídos pelo que foi feito contra nós e pelo o que não fizemos. Só não estamos vivos por causa da garra, da gana, da briga, da valentia de meia dúzia de pessoas. Se tivermos um entreposto, podemos mudar esse jogo”.

 

Para Atílio Guglielmo, diretor da Associação dos Comerciantes e Amigos do Mercado São Pedro, já se chegou ao fundo do poço: “Estamos no fundo do poço há 10, 15 anos. Temos uma mídia espontânea e 90% dos clientes vêm do Rio no final de semana. Antes eu tinha orgulho de ser apresentado como diretor, mas hoje só tem reclamação, gente que reclama da compra errado, por exemplo. Começa errado na pesca e chega no mercado, esse é o retrato da pesca. O entreposto pode ser um novo alento”.

Novos parceiros – O deputado estadual Comte Bittencourt, vice-prefeito de Niterói, manifestou a sua satisfação de estar passando uma manhã no SAPERJ para tomar conhecimento desta importante atividade e que ficou impressionado com os números significativos de pessoas, produção e valores que envolvem a pesca envolve. “Quero reafirmar o compromisso da Prefeitura de Niterói em refazer o arranjo produtivo do setor pesqueiro. As dificuldades existentes na pesca são preocupantes, pois se trata de uma atividade que representa um papel importante na cadeia alimentar. Eu me comprometo, com a participação do setor, de buscar um caminho para viabilizar o projeto de construção do Entreposto de Pesca.”

Comte Bittencourt colocou o seu mandato à disposição da pesca. “Vamos levar as reivindicações da pesca através do meu mandato. Pela importância do setor, está na hora de começar o debate. Precisamos construir uma nova agenda de trabalho”, prometeu.

O Secretário de Desenvolvimento Luiz Paulino garantiu que está empenhado na construção de um entreposto de pesca.  “Este é um sonho que vem sendo acalentado há anos e que, embora Niterói tenha vocação para a pesca, a boa infraestrutura do passado se perdeu com o tempo. Portanto, faz-se necessário dar o primeiro passo para reverter esta situação já que a Prefeitura tem uma área disponível para a construção do Entreposto e espera a participação do setor privado para viabilizar o empreendimento que poderá trazer muitos recursos para Niterói, inclusive incrementando o turismo”.

A Subsecretária do Núcleo de Gestão Estratégica, Gláucia Alves Macedo, apresentou o Planejamento Estratégico de Niterói 2017/2020 onde está previsto a elaboração de projetos estruturantes para o munícipio. “Para manter nossa gestão dinâmica, inovadora e sustentável, vamos consolidar as ações estratégicas aumentando a transparência e o diálogo com diferentes segmentos da sociedade civil niteroiense”, disse Gláucia, citando a Carteira de Projetos 2017-2020.

Além do entreposto, entre os projetos relacionados com a pesca está o Mercado Municipal Feliciano Sodré e a dragagem do canal de São Lourenço.

Estamos embarcando em mais um sonho. Agora é trabalhar e batalhar para que ele se torne realidade.

Imagem da área para construção do entreposto. A intenção da Prefeitura de Niterói é uma parceria público privado (PPP) para a construção do empreendimento / Crédito: PMN

 

A HORA E A VEZ DO PROJETO LAMBARI

Ao longo dos últimos anos, o setor atuneiro vem buscando alternativas de isca-viva para reduzir sua dependência das iscas capturadas no litoral de Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro, onde restrições impostas por Unidades de Conservação, bem como conflitos com pescadores artesanais e disponibilidade irregular de isca têm limitado o desenvolvimento da atividade. Experimentos com isca-alternativa de cultivo com o lambari para a pesca de bonito com vara e isca-viva prometem revolucionar esta pescaria. Leia o inspirador relato do oceanógrafo Marco Aurélio Bailon, Coordenador Técnico do SINDIPI.

 

Em passado recente o setor atuneiro apresentou proposta de desenvolvimento de pesquisa visando a utilização de tilápias como alternativa de isca-viva. Embora tenha havido grandes esforços para a viabilização desse projeto, se impuseram barreiras ambientais em virtude de se tratar de espécie exótica e apresentar risco de proliferação no meio natural. Na oportunidade foi sugerido por especialistas do IBAMA que se procurasse identificar uma espécie nativa que possuísse características que permitissem sua sobrevivência nas tinas dos barcos atuneiros e boa capacidade de atração dos atuns.

Estudos preliminares realizados pela coordenadoria técnica do SINDIPI (Sindicato dos Armadores e das Indústrias da Pesca de Itajaí e Região) indicaram o Lambari (Astyanax bimaculatus/Astyanax altiparanae) como uma espécie de grande potencialidade de cultivo direcionado ao uso como isca-viva.

O Lambari apresenta alta capacidade de reprodução e crescimento rápido. Ele também possui atributos interessantes para o emprego na pesca de vara e isca-viva, como rusticidade, coloração e formato do corpo e boa resistência ao confinamento em alta densidade.

A análise também indicou atributos favoráveis à conservação da biodiversidade. O lambari tem ampla distribuição geográfica, sendo encontrado em todo território sul-americano, desde baixas até altas altitudes, em rios, riachos, lagos, e represas. Espécie nativa das bacias hidrográficas das regiões Sul e Sudeste do Brasil, de água doce, o lambari não sobrevive na água do mar, o que descarta a possibilidade de proliferação no ambiente marinho e representa uma alternativa à captura de sardinhas e manjubas, reduzindo a pressão pesqueira sobre essas espécies que estão na base da cadeia alimentar.

O projeto – O Projeto Lambari teve a participação de várias empresas em um trabalho realizado no âmbito da Câmara da Vara e Isca-viva do SINDIPI, coordenado pela Coordenadoria Técnica do sindicato. Contou com o financiamento e apoio da empresa Gomes da Costa, da empresa Kowalsky, cedendo a embarcação Vô David, adaptação da mesma e tripulação, da JS Pescados no fornecimento de água mineral para as tinas e da APESC (Aquicultura e Pesca Santa Catarina Ltda.), empresa que detém a tecnologia de cultivo em grande escala do lambari para o desenvolvimento dos experimentos junto a frota atuneira de Santa Catarina sediada em Itajaí e Navegantes. A produção em escala comercial de isca cultivada foi realizada a menos de 100 km do porto pesqueiro de Itajaí.

 

Para a realização do projeto foi necessário a obtenção de uma Autorização do IBAMA.

O custo aproximado do Projeto Lambari foi de R$ 250.000,00, todo financiado pela iniciativa privada, não sendo incluídos os custos operacionais da embarcação.

Objetivos específicos – Foram os seguintes os objetivos específicos do Projeto Lambari: 1) Comprovar a eficiência da isca “lambari” com uma embarcação abastecida com lambari em pelo menos 50% de sua capacidade; 2) Estabelecer uma relação entre produção de atum e consumo de lambari; 3) Estabelecer uma estimativa dos custos de produção em maior escala; 4) Aprimorar a adaptação dos barcos e tripulações; e 5) Avaliar as condições de estocagem do lambari a bordo, considerando a densidade de peixes, a qualidade da água e a sobrevivência durante a viagem de pesca.

Metodologia utilizada – Os lambaris foram produzidos em laboratório em fazenda de cultivo e o processo de desenvolvimento de crescimento larval e engorda realizado em lagoas localizadas em Jaraguá do Sul/SC. Os alevinos foram transportados em caminhão transfish até o cais da Empresa Kowalsky, localizado em Itajaí (SC).

 

Caminhões com os transfish de transporte dos lambaris

 

As iscas foram acondicionadas em tanques (tinas) adaptadas para a conservação dos peixes com água doce e aeração constante, uma vez que o processo original com iscas naturais de água salgada (sardinhas e boqueirão) utiliza estas tinas com renovação de água constante. Inicialmente se utilizou pequenos compressores para uma ou duas tinas; nos experimentos iniciais e no último teste foram adaptadas todas as tinas da embarcação, em número de sete, com um compressor central.

 

 

Tinas sendo abastecidas com lambari

 

Uma vez localizado o cardume de bonito as iscas foram oferecidas aos atuns para observação do comportamento das mesmas e aceitabilidade por parte do bonito listrado. Também foram realizadas observações sobre a densidade das iscas nos tanques, alimentação, sobrevivência e qualidade da água durante sua manutenção a bordo.

Todo o processo foi acompanhado por um observador de bordo devidamente treinado e com especialização em cultivo de lambari para as devidas anotações, tanto das condições de estocagem, alimentação quanto do comportamento das iscas ao serem lançadas ao mar.

 

 

Embarcação Vô David, atuneiro de 38 metros e 27 tripulantes

 Fases do projeto – Durante a primeira fase do Projeto Lambari, em 2014, foram realizados quatro experimentos a bordo do Vô David, um atuneiro de 38 metros e 17 tripulantes, aumentando-se o número de alevinos a cada teste. Na 1ª viagem foram utilizadas 43 mil iscas; na 2ª, 50 mil; na 3ª, 600 mil; e na 4ª, 1 milhão e 200 mil iscas.

Em função de problemas relacionados ao desempenho da embarcação utilizada na primeira fase, além de outros imprevistos naturais, o projeto foi interrompido durante três anos e novos parceiros foram contatados para dar continuidade ao projeto.

Em junho de 2017, foi iniciada a segunda fase, sendo realizados novos experimentos a bordo da embarcação Katsuhiro Maru nº5 da empresa Indústrias Alimentícias Leal Santos Ltda.

A realização de mais dois testes com 200 mil iscas em cada viagem obteve resultados positivos e fez com que a empresa tomasse a decisão de investir em novos abastecimentos já para a safra de 2018.

Vantagens – As vantagens da isca de lambari seriam comprovadamente as seguintes: 1) Peixe 100% cultivado e sustentável (não causa danos ao ecossistema); 2) Disponível o ano todo; 3) Barco sai do cais iscado, direto para o pesqueiro, sem renovação de água; 4) Menor período no mar, economizando tempo, combustível, alimentação, manutenção; 5) Peixe com alta adaptabilidade na tina, resistente e de fácil manejo; 6) Dispensa o uso de luz e de 8 bombas que atuam na renovação de água salgada nas tinas; 7) Baixíssima Mortalidade; 8) Alta capacidade de suporte ou densidade nas tinas; 9) Possibilidade de efetuar duas ou mais pescarias por mês.

Conclusão – Os experimentos realizados permitiram vislumbrar a grande possibilidade de utilização do lambari como isca-viva para a pesca do bonito listrado.

A forma como o projeto se desenvolveu com a participação interativa de todos os participantes – empresas, produtores, pescadores e sindicato – demonstrou a capacidade de execução de projetos, este em especial, por demandar uma logística complexa envolvendo cultivo de peixes, transporte, adaptação de embarcação, pesca e relacionamento pessoal principalmente com a tripulação.

Pode-se afirmar, com base nos testes realizados, que o lambari poderá substituir as espécies nativas com eficiência, aumentando a produtividade da frota, pois questões como aceitação da isca lambari pelo bonito e sobrevivência nas tinas foram considerados conclusivas.

Pelos resultados alcançados, considera-se que a pesca de vara e isca-viva pode voltar ser rentável, garantindo a sustentabilidade e aumentando sua produtividade.

O atual estágio do Projeto Lambari permite afirmar que a fase de testes está concluída com a implantação de um programa de abastecimento regular em andamento pela empresa Leal Santos.

 

 

Marco Aurélio Bailon – Oceanógrafo – Coordenador Técnico do SINDIPI

 

 

 

 

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HISTÓRIA DE UM NAUFRÁGIO

Pescador narra como viu o naufrágio da embarcação de irmão em alto-mar. “Quem nasce na pesca, morre na pesca.”

RESUMO Os barcos pesqueiros Dom Manoel 15 e Dom Manoel 16 saíram juntos para alto-mar, em 31 de julho. Na madrugada da última sexta (11 de agosto), depois de 11 dias, apenas um deles voltou para a costa da cidade de Rio Grande (RS). A embarcação Manoel 16, com sete tripulantes, desapareceu em meio à tempestade. O mau tempo dificultou os trabalhos de resgate. Até agora, dois corpos foram encontrados. Um deles foi identificado como o do comandante da embarcação, Alcioni Manoel dos Santos, 53. A Marinha segue nas buscas. O barco que conseguiu chegar à costa, o Manuel 15, era chefiado pelo irmão mais velho de Alcioni, Jaci Manoel dos Santos, 62.

 

DEPOIMENTO DE JACI MANOEL DOS SANTOS, IRMÃO DO COMANDANTE DE EMBARCAÇÃO QUE NAUFRAGOU EM RIO GRANDE (RS), A.

 

Jaci Manoel dos Santos é irmão do comandante de embarcação que naufragou em Rio Grande (RS)

“Nunca tinha presenciado na minha vida, em 39 anos de trabalho em mar aberto, nada daquele jeito: uma fúria tão grande do mar, uma tempestade como aquela. A previsão era de que o tempo virasse. A gente achava que fugiria, que chegaria a tempo à costa. Mas o mar é uma coisa imprevista. O tempo se antecipou e a onda chegou antes.

O nosso barco estava na frente, e meu irmão vinha me acompanhando [em outro barco]. Estávamos a uma distância de 200 metros um do outro. A minha visibilidade para ele era boa, apesar das condições ruins do tempo.

Nosso radar detectava o barco dele, a gente se comunicava por rádio. Só que não deu tempo nem de ele me chamar para pedir socorro. Foi uma coisa muito brusca. Levantou uma onda de seis, sete metros de altura.

A gente saía para alto-mar e não tinha dia para voltar. Costumávamos ficar em torno de 15, 20 dias fora. Ficávamos três, quatro dias em terra para resolver o que tinha que resolver, e retornávamos.

Na quinta-feira (10), já estávamos havia 11 dias em alto-mar, com previsão de mais uma semana para trabalhar, quando a previsão do tempo avisou que o mar ia se agitar, que ia dar vento forte, e resolvemos procurar abrigo.

Eu e meu irmão sempre agimos com cautela. Ele comandava o Dom Manoel 16, eu, o Dom Manoel 15, cada um com seis pescadores, e andávamos juntos. Fui eu quem trouxe ele para a pesca, há dois anos.

Às 14h30 da quinta-feira começamos a voltar. Ele mesmo deu a ideia, porque não adiantava ficar parado, sem trabalhar. Íamos ficar 48 horas com o barco ancorado, sem pescar, sem fazer nada.

A estimativa era que a gente chegaria à costa às 6h da manhã de sexta-feira. Estávamos a 190 milhas da barra, cerca de 200 km. Faltando 13 milhas para chegar, ou cerca de duas horas a mais de navegação, foi quando aconteceu o acidente.

Tenho 62 anos e comecei na pesca com 13. Ele tinha 53 anos e começou com 14. Somos oito irmãos, todos pescadores. A pesca veio passando de geração para geração.

Só tenho lembranças boas do meu irmão. Quando a gente voltava para o mar era sempre uma novidade, nunca tinha uma rotina.

Na tempestade, eu não podia abandonar o meu irmão, mas também não podia colocar em risco a tripulação. Voltar, sabendo que a gente tinha deixado para trás, não só uma embarcação, mas sete vidas, foi doloroso. Não tem nem como definir.

Nessa mesma região, meses atrás, afundou outra embarcação, só que a tripulação foi resgatada. Houve um procedimento rápido, outra embarcação auxiliou, o tempo era bom. A nossa costa, nesse trecho sul e sudeste, é muito perigosa.

Quando a gente sai para alto-mar, vamos para uma aventura, já sabendo que pode não voltar. Penso há muito tempo em sair, mas não é viável. Não tem jeito. Como não tenho um estudo, não posso ter um trabalho com rendimento mais ou menos, e aí é difícil. Quem nasce na pesca, morre na pesca.”

 

O depoimento foi prestado a FERNANDA CANOFRE e publicado na Folha de S. Paulo.

 

BARCO COVARDIA

Navio contra imigrantes é fretado pela extrema-direita e cria polêmica na Europa. Embarcação é mantida pelo grupo francês Geração Identitária e navega pelas águas europeias com mensagens como “vocês não farão da Europa sua casa”. É o Barco Covardia.

 

 

Em um cenário de crise migratória na Europa – a maior já vivida no continente desde o fim da Segunda Guerra Mundial –, um navio contra imigrantes financiado por grupos de extrema-direita está causando polêmica no Mar Mediterrâneo.

            Isso porque, assim como já havia ocorrido no Chipre e na Sicília, na Itália, em que a embarcação C-Star buscou impedir a passagem de imigrantes pelas rotas marítimas da Europa, o navio anti-imigrantes foi bloqueado na Tunísia. .

Para impedir que a embarcação seguisse viagem, um grupo de pescadores da costa tunisiana se organizaram em diversos barcos, próximos ao porto de Zarzis, bloqueando a passagem do navio para que ele não entrasse no porto.

“Não queremos o barco fascista na Tunísia . Há 10 ou 15 anos, nós salvamos migrantes que naufragam e não queremos que um barco que deseja que eles se afoguem e que use lemas fascistas entrem em nossos portos”, disse o líder da associação dos pescadores, Shamseddin Bourasin, ao jornal espanhol El País .

            Ao jornal britânico  The Independent, um representante oficial do porto tunisiano de Zarzis afirmou que apoia a decisão dos pescadores e que “nunca” deixará “racistas entrarem” ali.

Como trabalha o barco anti-imigrantes – O polêmico barco notifica embarcações ilegais que saem da Líbia em direção às ilhas italianas e ordena que os passageiros dos barcos voltem para o porto de onde vieram.

Oficialmente, quem mantém o barco é o grupo francês Geração Identitária, mas eles contam com financiamentos de simpatizantes de várias nações europeias.

Com mensagens em seu casco de “parem com o tráfico de pessoas” e “vocês não farão da Europa a sua casa”, os militantes dizem querer alertar a União Europeia sobre o “excesso de imigrantes”.

            Entidades internacionais afirmam que a atuação do Geração Identitária em águas de outros países é ilegal.

 

 

Veja ainda:

 Barco covardia

 

“C’est inhumain de repousser les migrants vers des camps de la mort libyens”

 

Mais de 100 mil imigrantes chegaram à Europa pelo Mediterrâneo em 2017

 

Crise dos refugiados: mortes no Mediterrâneo em 2017 superam 2016