DOIS POEMAS: PEIXES

Dois poemas de duas grandes poetas norte-americanas do século XX  e de todos os tempos: Elisabeth Bishop e Marianne Moore.

 

O Peixe

Elizabeth Bishopp

 

Eu fisguei um peixe enorme
e o mantive ao lado do barco
metade fora d’água, com meu anzol
que lhe cravara o canto da boca.
Ele não lutou.
Ele não lutara mesmo nada.
Ele era um peso pendente
derrotado e venerável
e simples. De vez em quando
seu corpo marrom aparecia em listras
como antigo papel de parede,
e seus desenhos de marrom mais escuro
eram como o papel de parede:
formas de rosa desabrochadas a pleno,
manchadas e gastas pelo tempo.
Ele estava salpicado de óleo de navios,
de finas rosetas visgosas
e infestado
por pequenos piolhos marinhos
e por baixo dele pendiam
dois ou três farrapos de algas verdes.
Enquanto duas guelras estavam respirando o
terrível oxigênio
— as assustadoras guelras
frescas e eriçadas, com sangue,
e que podem cortar tão cruelmente —
pensei em sua rude carne branca
enfeixada como plumas,
os grandes e pequenos ossos
os dramáticos vermelhos e negros
de suas entranhas luzidias
e a bexiga avermelhada
como uma grande peônia.
Olhei dentro dos seus olhos
que eram bem maiores que os meus
porém mais rasos e amarelados,
a íris retraída e envolvida
em folha de estanho embaçada,
vista através de lentes
de um velho, arranhado esturjão.
Seu olhar se desviou um pouco porém não o bastante
para devolver o meu.
— Era mais como se recobrisse
um objeto contra a luz.
Admirei-lhe a face sombria,
o mecanismo de sua mandíbula
e então vi
que de seu lábio inferior
— se é possível falar de lábio —
severo, úmido, agressivo,
pendiam cinco antigas linhas de pescar
ou quatro, talvez, e um guia de metal
ainda com a argola
e com todos os cinco grandes anzóis
cravados firmes em sua boca.
E uma linha verde, desgastada na extremidade
em que ele a havia partido, e duas outras mais fortes
além de um fio preto e fino
ainda encrespado pelo esforço e pelo golpe
do momento em que ele escapou.
Eram como condecorações, como suas faixas
esfrangalhadas e oscilantes,
uma barba de sabedoria com cinco filamentos
que ele arrastava em sua mandíbula dolorida.
Eu olhei e olhei
e a vitória encheu
o pequeno barco alugado
surgida da água que havia entrado
e onde o óleo difundia um arco-íris
junto ao motor enferrujado
e o rosa enferrujado da água baldeada
e o meu banco, que estava ao sol,
e os remos, nos seus encaixes,
e o interior do barco — e tudo, enfim,
era o arco-íris agora, era o arco-íris agora!
E eu deixei o peixe ir embora.

tradução: Jorge Wanderley

 

 

pp

 

Os Peixes

Marianne Moore

vade-
ando negro jade.
               Das conchas azul-corvo, um marisco
               só ajeita os montes de cisco;
                                 no que vai se abrindo e fechando

é que
nem ferido leque.
               Os crustáceos que incrustam o flanco
               da onda ali não encontram canto,
                                 porque as setas submersas do

sol,
vidro em fibras sol-
               vidas, passam por dentro das gretas
               com farolete ligeireza –
                                 iluminando de vez em

vez
o oceano turquês
               de corpos. A correnteza crava
               na quina férrea da fraga
                                 uma cunha de ferro; e estrelas,

grãos
de arroz róseos, mães-
               d’água tintas, siris que nem lírios
               verdes e fungos submarinos
                                 vão deslizando uns sobre os outros.

As
marcas externas
               de mau-trato estão todas presentes
               neste edifício resistente –
                                 todo resquício material

de a-
-cidente – ausência
               de cornija, machadadas, queima e
               sulcos de dinamite – teima em
                                 ressaltar; já não é o que era

cova.
Repetida prova
               demonstrou que ele pode viver
               do que não pode reviver
                                 seu viço. O mar nele envelhece.

tradução: José Antonio Arantes

e
Elizabeth Bishop: The fish

sMarianne Moore: The fish

 

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