BAUDELAIRE, O HOMEM E O MAR

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Charles Baudelaire, autor de “As flores do mal”, foi, senão o maior, ao menos o “mais importante” poeta francês, segundo a formulação de Paul Valéry. O autor teria dado à poesia francesa uma dimensão europeia, que a fez traduzida e influente em outras lín­guas e nações. E, de fato, poucos poetas produziram um impacto tão grande e tão variado na literatura ocidental quanto Bau­de­­lai­re, hoje considerado o iniciador artístico e intelectual da “mo­dernidade”, sem a qual pouco se pode entender da poesia escrita nos últimos 150 anos. Ele também cantou o mar.

O HOMEM E O MAR

Homem livre, tu sempre adorarás o mar!

O mar é o teu espelho; a tua alma contemplas

Na sua ondulação, no infinito vaivém,

E o teu espírito é fosso não menos amargo.

 

Gostas de mergulhar na tua própria imagem;

Chegas mesmo a beija-la, e o teu coração

Distrai-se algumas vezes do seu próprio som

Com o rumor dessa queixa indomável, selvagem.

 

Sois ambos, afinal, discretos, tenebrosos:

Homem, ninguém sondou os teus fundos abismos,

Ó mar, ninguém conhece os teus tesouros íntimos,

Tanto que sois dos vossos segredos ciosos!

 

E porém, desde sempre, há séculos inumeráveis,

Que os dois vos combateis sem piedade ou remorso,

De tal modo gostais da carnagem da morte,

Ó lutadores eternos, irmãos implacáveis.

 

Tradução de Delfim Guimarães

 

 

Outra versão de “O Homem e o Mar”:
Homem livre, hás de sempre estremecer o mar!
O mar é teu espelho, e assim tu’alma sondas
Nesse desenrolar das infinitas ondas,
Pois também és um golfo amargo e singular.

Apraz-te mergulhar ao fundo de tua imagem!
Nos braços e no olhar a tens; teu coração
Às vezes se distrai da interna agitação
Ouvindo a sua queixa indômita e selvagem.

Sempre fostes os dois reservados e tredos:
Homem – ninguém sondou as tuas profundezas;
Mar – ninguém te conhece as íntimas riquezas;
Tão zelosos que sois de guardar tais segredos.

Já séculos se vão, contudo, inumeráveis
Em que lutais sem dó um combate de fortes;
E como vós amais os massacres e as mortes,
Ó eternos rivais, ó irmãos implacáveis!

Tradução de Ivo Barroso

 

O original: “L’Homme et la Mer”

Homme libre, toujours tu chériras la mer!
La mer est ton miroir; tu contemples ton âme
Dans le déroulement infini de sa lame,
Et ton esprit n’est pas un gouffre moins amer.

Tu te plais à plonger au sein de ton image;
Tu l’embrasses des yeux et des bras, et ton coeur
Se distrait quelquefois de sa propre rumeur
Au bruit de cette plainte indomptable et sauvage.
Vous êtes tous les deux ténébreux et discrets:

Homme, nul n’a sondé le fond de tes abîmes,
O mer, nul ne connaît tes richesses intimes,
Tant vous êtes jaloux de garder vos secrets!

Et cependant voilà des siècles innombrables
Que vous vous combattez sans pitié ni remords,
Tellement vous aimez le carnage et la mort,
O lutteurs éternels, ô frères implacables!

 

 

 

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