CONVERSA SOBRE BARCOS

sem-tituloCarlos Heitor Cony é um jornalista e escritor brasileiro. É editorialista da Folha de S. Paulo e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2000. Ele já publicou contos, crônicas e romances. Seu romance mais famoso é de 1995, “Quase Memória”, que vendeu mais de 400 mil exemplares. Leia aqui seu texto sobre barcos.

“Gosto de barcos, mesmo quando estou fora deles. Todos os dias, mal desperto de minhas noites vazias, vou espiar a Lagoa iluminada pela manhã. Há sempre a moça que veste a malha preta e caminha atleticamente, balançando os cabelos louros.

Olho para ela com admiração, mas sem emoção. Para os barcos, sim. Admiro-os e me emociono. Contudo, venho notando uma degradação no visual. Tradicionalmente, eles têm a mesma cor dos violinos. E têm também um cheiro bom de madeira nobre e envernizada.

Lembro o deslumbramento da infância, quando o pai foi buscar, num pequeno estaleiro de Icaraí, a baleeira em que me ensinou a remar e a pescar. O cheiro era tão bom que tonteei de prazer.

Um amigo dele, chamado Fontenelle não sei de quê, mandara fazer um barco daqueles que aparecem no filme “”Rose Marie”, pintados de branco, usados por peles-vermelhas e pelo Nelson Eddy com o dólmã também vermelho da Real Polícia Montada. Eu preferia a baleeira cheirando a madeira fresca, recém-cortada e nua.

Atualmente, a maioria dos barcos que rasgam a pele da Lagoa é pintada de branco, há até mesmo um que é verde, um verde desbotado e cafona, que agride a paisagem.

Faz tempo, quando cheguei à varanda e vi o primeiro barco branco, fiz uma crônica sobre ele. Era um remador solitário e matinal que nem esperava o sol nascer e vinha, ritmado e silencioso, anunciar que o dia chegava e ele estava ali e eu também, olhando-o e pensando.

Agora, os barcos brancos predominam, um ou outro ainda tem a cor dos violinos. Os grandes navios de cruzeiro são invariavelmente brancos, ficam bem de branco. Evidente, eles nunca aparecem na Lagoa -o que é bom para eles e para a própria Lagoa.

Mas prefiro os barcos na cor da madeira, na cor dos violinos. Eles cortam a água no ritmo do silêncio, combinam com a manhã e comigo.”

Confira

Se eu tivesse um barco

Uma canção: Movimento dos barcos

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