RELATO DE UM ACIDENTE

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O “Marques Torres I” saiu, no dia 17 de junho, do cais da “88” na Ilha da Conceição – Niterói por volta das 16h para sua viagem de pescaria.  No dia 29 de junho de 2016, ele estava na região das Ilhas Rasa e Redonda, fora da barra do Rio de Janeiro.  Por volta das 4h30 da manhã do dia seguinte, a embarcação foi abalroada por um rebocador grande moderno, com casco de cor laranja. O pesqueiro sofreu diversas avarias, ficando sem condições de navegar, em face da água aberta, causando água no porão de popa, casa de máquinas e convés. O rebocador fugiu. Leia a matéria.

 

            Leonardo Marques Torres começou a trabalhar na pesca com 17 anos de idade. Tornou-se mestre, armador e ocupou a presidência do Saperj. Nesses mais de 50 anos dedicados à pesca ele sabe o que é o mar e sabe também o que é um barco.  “O barco é um membro da família. Para nós, os barcos são como seres vivos. Quem navegou num barco sabe a dor que nos dá quando alguma coisa acontece com ele”, afirma Leonardo.

         Para quem não é da pesca, o sentimento mais próximo para explicar esse amor por um barco é aquele amor que se dedica a um animal de estimação. Um cachorro, por exemplo, “o melhor amigo do homem”. Nesse sentido, o barco é o melhor amigo do pescador. Aparentemente ele não passa de uma ferramenta de trabalho. Mas para quem trabalha na pesca ele tem a importância de uma casa, uma casa sobre as ondas, um lugar onde se viveu mais tempo, às vezes, que a casa em terra, onde se mora e se convive com a família.

         Para o pescador, o barco faz parte da família. Não é apenas a sua fonte de sobrevivência, mas uma extensão de seu próprio corpo. No mar, o barco e o pescador se comportam como se fossem um corpo só, como uma só pessoa. Os dois, barco e pescador, vivem em sintonia. Se acontece alguma coisa com o barco, esse acontecimento se reflete na vida do pescador. Se o barco afunda, é como se uma parte do pescador tivesse morrido, ou como a perda um animal de estimação.  A perda de um braço. De um amigo de todas as horas. De um parente. De um irmão.

“As pessoas deveriam viajar a bordo de um barco de pesca para conhecer a nossa realidade”, afirma o pescador e armador Leonardo, que deu seu sobrenome ao próprio barco, o “Marques Torres I”.

sem-titulo3O acidente – No dia 17 de junho de 2016, o patrão de pesca de alto mar Almir Augusto de Souza saiu com a embarcação “MARQUES TORRES I”, do cais da “88” na Ilha da Conceição, Niterói, por volta das 16h, para viagem de pescaria. No dia 29 de junho, dia de São Pedro, padroeiro dos pescadores, ele estava na região das Ilhas Rasa e Redonda, fora da barra do Rio de Janeiro.

         A pescaria de arrasto é a modalidade da embarcação “MARQUES TORRES I” e, no dia 29, foi iniciada por volta das 18 h à leste da Ilha Rasa na área entre a Ilha Redonda. Depois de realizados dois arrastos de quatro horas, com intervalos entre eles, começou o terceiro arrasto da posição Latitude 23º 06’ Longitude 043º 10’, quando por volta das 4h30 da manhã do dia 30 de junho de 2016, a embarcação “MARQUES TORRES I” foi abalroada por um rebocador grande moderno, com casco de cor laranja, na posição latitude 23º 06’ e longitude 043º 06’.

            Vale frisar que no momento existia cerração, porém a embarcação “MARQUES TORRES I”, além de estar com todas suas luzes de navegação e de arrasto acesas, possuía ainda “refletor radar” em sua casaria.

            O rebocador foi avistado pelo motorista da embarcação, Uziel, que deu o alarme, de imediato. Mesmo com restrição de manobra, foi dado todo o leme para boreste, pois o rebocador estava vindo em direção ao “MARQUES TORRES I” por bombordo na meia nau.             Mesmo com a manobra feita, a abalroação não pode ser evitada.

            Com a colisão, o pesqueiro sofreu diversas avarias, ficando sem condições de navegar, em face da água aberta, causando água no porão de popa, casa de máquinas e convés.

            Todos os procedimentos necessários para salvaguardar a tripulação foram tomados, sendo arriado o bote salva-vida e a balsa inflável de sobrevivência e, obviamente, todos estavam usando os coletes salva-vidas. Foi feito o pedido de socorro via rádio pelas estações PUE 42 e, ECO 58, que acionaram todos os órgãos competentes e as demais embarcações que estivessem na área.

            Lamentavelmente, contrariando o forte princípio de que os “homens do mar” são solidários, o rebocador continuou seu rumo, sem dar qualquer assistência e nem ao menos fazer algum contato via rádio.

            Aproximadamente às 7h da manhã, quase três horas depois da colisão, o pesqueiro “GARCIA LORCA” chegou para dar socorro ao “MARQUES TORRES I” e iniciou o reboque para o porto de Niterói.

            Enquanto aguardava o socorro, os membros da tripulação, de forma heroica e competente, ficaram esgotando a embarcação enquanto o motor principal e o auxiliar estavam funcionando.

            Depois de contato com os proprietários da embarcação por telefone, foi informado que uma lancha iria até o barco levando bombas extras para auxiliar no esgotamento e evitar o naufrágio.

            Desta forma, às 08h30, quatro horas depois da colisão, chegou a lancha com duas bombas de esgoto e, felizmente, quando já estavam na entrada na barra do Rio de Janeiro, a água já tinha descido uns 30cm e o risco de naufrágio estava praticamente extinto.

            Entrando na barra do Rio, a embarcação foi escoltada por duas lanchas da Capitania dos Portos que como de costume, prestavam o apoio necessário. Este triste e, lamentável acidente terminou com a embarcação salva e atracada no cais da Companhia de Desenvolvimento da Pesca-CODEPE, na Ilha do Caju, em Niterói, com toda competente e corajosa tripulação sem qualquer sequela física.

            Além das grandes avarias sofridas, o “MARQUES TORRES I” perdeu sua pescaria, mas, por sorte, os tanques de óleo não foram afetados, evitando um acidente ambiental, conforme foi constatado pela equipe de salvamento da Capitania que acompanhou a chegada da embarcação ao porto e fez as primeiras análises das consequências do acidente.

Depois do acidente – Foi pedida à Capitania dos Portos do Rio de Janeiro a instauração de um inquérito para apurar o que é devido, de modo que o rebocador e seu comando, únicos e exclusivos culpados pela colisão e pela omissão de   socorro, fossem devidamente responsabilizados como medida de inteira JUSTIÇA, como é de DIREITO.

            Leonardo   revive o acidente como se estivesse a bordo do “MARQUES TORRES I”. “Abalroou e fugiu. Não é possível abandonar o local sem ajudar as seis pessoas, os seis tripulantes. Quatro deles estavam dormindo e, se o barco afunda, morriam. A água chegou à casa de máquina.”

            Ele lembra que o “MARQUES TORRES I” teve assistência do Salvamar, de uma corveta da Marinha, uma lancha de apoio. “Mergulhadores subiram a bordo, conseguiram estabilizar a embarcação e leva-la até o cais da CODEPE. Foi o mergulhador Gilmar lá limpar o barco.

Foi feita uma vistoria pela Marinha em que constou que estava tudo em dia, tudo em ordem. No dia seguinte, a embarcação subiu a carreira. Às 4h da tarde, veio a equipe da Marinha para fazer o inquérito. O “MARQUES TORRES I” ficou 15 dias na carreira”, declara.

         “O acidente aconteceu no final de junho. Estamos no final do ano, e é como se nada tivesse acontecido”, lamenta Leonardo. “Fomos falar com o Capitão dos Portos, eu e o Comandante Leme, assessor do Saperj.  A Marinha disse que só ia atuar depois das Olimpíadas. As Olimpíadas acabaram e vieram as Paraolimpíadas, que também acabaram. E nada”.

         Leonardo desabafa: “Desde os 17 anos sou pescador e andei sempre em dia com minhas coisas. Minha embarcação é rastreada. A Marinha devia ter os dados da embarcação que fugiu. O rebocador não sai a toda hora.  Eu quero que me paguem a minha avaria. E punir o que foi feito, porque o que ele fez é crime. Os rebocadores deviam ser rastreados.  Abalroou e fugiu sem prestar socorro. O respeito pelo ser humano, pelo outro, acabou, não existe mais.”

         E Leonardo conclui: “Esperei que a Marinha fosse parceira, uma mãe que acolhesse seus filhos. A Marinha é uma madrasta. Eu disse isso ao Capitão dos Portos, disse a ele o que sentia: a Marinha é madrasta. Acho que ele entendeu. Com certeza. Ele também deve amar os barcos dele”.

 

 

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