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LAUTRÉAMONT: EU TE SAÚDO, VELHO OCEANO!

Sem títuloIsidore Lucien Ducasse, mais conhecido pelo pseudônimo literário de Conde de Lautréamont (Montevidéu, 4 de abril de 1846 — Paris, 24 de novembro de 1870) foi um poeta uruguaio que viveu na França. Ele é o autor dos Cantos de Maldoror. Sua poesia também era apreciada por André Breton, que o considerava, de certa forma, como um dos precursores do surrealismo.

Para Leonardo Fróes, “desde a consagração surrealista, pesquisadores de várias línguas têm enfrentado os dois enigmas, a obra e a vida, com uma paciência exemplar. Graças a esses trabalhos, sabe-se hoje, por exemplo, que a longa cena de amor entre Maldoror e a tubaroa é a transcrição quase fiel de uma descrição, por Michelet, dos hábitos sexuais dos tubarões. Do mesmo modo, grande parte do bestiário que vem à tona nos “Cantos” foi extraída de descrições científicas que a pena alucinante do artista modificou como quis.”

            Eis a famosa cena de amor de Maldoror com a fêmea do tubarão: “Duas coxas nervosas se colaram estreitamente à pele viscosa do monstro, como duas sanguessugas; e, os braços e as nadadeiras entrelaçados ao redor do corpo do objeto amado, rodeando-o com amor, enquanto suas gargantas e seus peitos logo formavam coisa alguma, a não ser uma massa glauca, com exalações de sargaços; no meio da tempestade que continua a provocar estragos; à luz dos relâmpagos; tendo por leito de himeneu a vaga espumosa, transportados por uma corrente submarina como em um berço, rolando sobre si mesmos, rumo às profundezas desconhecidas do abismo, juntaram-se em uma cópula longa, casta e horrorosa!… Finalmente, acabava de encontrar alguém semelhante a mim!… De agora em diante, não estava mais só na vida!… Ela tinha as mesmas ideias que eu!… Estava diante do meu primeiro amor!”

Está lá também o seu hino ao oceano:

 “Velho oceano, à tua primeira aparição, um sopro prolongado de tristeza, que acreditaríamos ser o murmúrio da tua brisa suave, passa, deixando traços indeléveis sobre a alma profundamente abalada, e tu recordas à memória dos teus amantes, sem que disso sempre nos demos conta, os rudes começos do homem, em que travava conhecimento com a dor, que jamais o deixa. Eu te saúdo, velho oceano!

            Velho oceano, tua forma harmoniosamente esférica, que alegra o rosto sisudo da geometria, lembra-me Sem título3somente muito os pequenos olhos do homem, parecidos aos do javali pela pequenez, e aos dos pássaros noturnos pela perfeição circular do contorno. Porém, o homem julgou-se belo em todos os séculos. Eu suponho antes que o homem não acreditou na sua beleza senão por amor próprio; mas, que não é realmente belo e que duvida, pois porque olha ele a figura do seu semelhante com tanto desprezo? Eu te saúdo, velho oceano!

Velho oceano, tu és o símbolo da identidade: sempre igual a ti mesmo. Tu não te alteras de modo essencial, e se as tuas vagas estão nalguma parte em fúria, mais longe, nalguma outra zona, elas estão na calma mais completa. Tu não és como o homem, que para na rua para ver dois buldogues a agarrarem-se pelo pescoço, mas que não para quando um enterro passa; que está esta manhã acessível e noutra de mau humor; que hoje ri e amanhã chora. Eu te saúdo, velho oceano!

Velho oceano, não haveria nada de impossível naquilo que tu guardas no teu seio de futuras utilidades para o homem. Tu já lhe deste a baleia. Tu não deixas facilmente adivinhar aos olhos ávidos de ciências naturais os mil segredos da tua organização íntima: tu és modesto. O homem vangloria-se continuamente, e por ninharias. Eu te saúdo, velho oceano!”

 

Sem título4Veja mais:

Eu te saúdo, velho oceano (texto completo)

Em francês

Vídeo: Je te salue, viel océan!

Lautréamont: a sombra de um maldito

Lautréamont e os prazeres do comparatismo literário

 

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