HISTÓRIA DE UM NAUFRÁGIO

Pescador narra como viu o naufrágio da embarcação de irmão em alto-mar. “Quem nasce na pesca, morre na pesca.”

RESUMO Os barcos pesqueiros Dom Manoel 15 e Dom Manoel 16 saíram juntos para alto-mar, em 31 de julho. Na madrugada da última sexta (11 de agosto), depois de 11 dias, apenas um deles voltou para a costa da cidade de Rio Grande (RS). A embarcação Manoel 16, com sete tripulantes, desapareceu em meio à tempestade. O mau tempo dificultou os trabalhos de resgate. Até agora, dois corpos foram encontrados. Um deles foi identificado como o do comandante da embarcação, Alcioni Manoel dos Santos, 53. A Marinha segue nas buscas. O barco que conseguiu chegar à costa, o Manuel 15, era chefiado pelo irmão mais velho de Alcioni, Jaci Manoel dos Santos, 62.

 

DEPOIMENTO DE JACI MANOEL DOS SANTOS, IRMÃO DO COMANDANTE DE EMBARCAÇÃO QUE NAUFRAGOU EM RIO GRANDE (RS), A.

 

Jaci Manoel dos Santos é irmão do comandante de embarcação que naufragou em Rio Grande (RS)

“Nunca tinha presenciado na minha vida, em 39 anos de trabalho em mar aberto, nada daquele jeito: uma fúria tão grande do mar, uma tempestade como aquela. A previsão era de que o tempo virasse. A gente achava que fugiria, que chegaria a tempo à costa. Mas o mar é uma coisa imprevista. O tempo se antecipou e a onda chegou antes.

O nosso barco estava na frente, e meu irmão vinha me acompanhando [em outro barco]. Estávamos a uma distância de 200 metros um do outro. A minha visibilidade para ele era boa, apesar das condições ruins do tempo.

Nosso radar detectava o barco dele, a gente se comunicava por rádio. Só que não deu tempo nem de ele me chamar para pedir socorro. Foi uma coisa muito brusca. Levantou uma onda de seis, sete metros de altura.

A gente saía para alto-mar e não tinha dia para voltar. Costumávamos ficar em torno de 15, 20 dias fora. Ficávamos três, quatro dias em terra para resolver o que tinha que resolver, e retornávamos.

Na quinta-feira (10), já estávamos havia 11 dias em alto-mar, com previsão de mais uma semana para trabalhar, quando a previsão do tempo avisou que o mar ia se agitar, que ia dar vento forte, e resolvemos procurar abrigo.

Eu e meu irmão sempre agimos com cautela. Ele comandava o Dom Manoel 16, eu, o Dom Manoel 15, cada um com seis pescadores, e andávamos juntos. Fui eu quem trouxe ele para a pesca, há dois anos.

Às 14h30 da quinta-feira começamos a voltar. Ele mesmo deu a ideia, porque não adiantava ficar parado, sem trabalhar. Íamos ficar 48 horas com o barco ancorado, sem pescar, sem fazer nada.

A estimativa era que a gente chegaria à costa às 6h da manhã de sexta-feira. Estávamos a 190 milhas da barra, cerca de 200 km. Faltando 13 milhas para chegar, ou cerca de duas horas a mais de navegação, foi quando aconteceu o acidente.

Tenho 62 anos e comecei na pesca com 13. Ele tinha 53 anos e começou com 14. Somos oito irmãos, todos pescadores. A pesca veio passando de geração para geração.

Só tenho lembranças boas do meu irmão. Quando a gente voltava para o mar era sempre uma novidade, nunca tinha uma rotina.

Na tempestade, eu não podia abandonar o meu irmão, mas também não podia colocar em risco a tripulação. Voltar, sabendo que a gente tinha deixado para trás, não só uma embarcação, mas sete vidas, foi doloroso. Não tem nem como definir.

Nessa mesma região, meses atrás, afundou outra embarcação, só que a tripulação foi resgatada. Houve um procedimento rápido, outra embarcação auxiliou, o tempo era bom. A nossa costa, nesse trecho sul e sudeste, é muito perigosa.

Quando a gente sai para alto-mar, vamos para uma aventura, já sabendo que pode não voltar. Penso há muito tempo em sair, mas não é viável. Não tem jeito. Como não tenho um estudo, não posso ter um trabalho com rendimento mais ou menos, e aí é difícil. Quem nasce na pesca, morre na pesca.”

 

O depoimento foi prestado a FERNANDA CANOFRE e publicado na Folha de S. Paulo.

 

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