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PARA ONDE VAI A PESCA?

PARA ONDE VAI A PESCA?

O FIM DO MAR

 

Não existe a menor dúvida: o mar já não é o mesmo mar de 50 anos atrás. De 30 anos atrás. Para ter certeza disso, basta ler os jornais, acessar as mídias eletrônicas. Ou passear pela Ilha da Conceição, aqui no Rio. Navegar pela Baía da Guanabara. Ou conferir as estatísticas do Instituto de Geografia e Estatística (IBGE) e confirmar que os pescadores perderam seu espaço para as empresas dos setores de óleo e gás e naval. Enquanto isso, para as novas gerações, o mar está fora de moda.  Não é mais o espaço da aventura, do espírito marinheiro, da descoberta de um novo mundo. O jovem prefere ser surfista e não quer ser pescador. Prefere aplaudir o pôr do sol numa praia a entrar de gaiato num navio. Mas navegar é preciso, e não é nada espantoso que as novas gerações prefiram navegar na internet.

 

Pescadores na Baía de Guanabara / Crédito: Museu do Amanhã

 

Não existe a menor dúvida: o mar já não é o mesmo mar de 50 anos atrás. De 30 anos atrás. Para ter certeza disso, basta ler os jornais, acessar as mídias eletrônicas. Ou passear pela Ilha da Conceição, aqui no Rio. Navegar pela Baía da Guanabara. Ou conferir as estatísticas do Instituto de Geografia e Estatística (IBGE) e confirmar que os pescadores perderam seu espaço para as empresas dos setores de óleo e gás e naval.

Segundo o IBGE, o número de pescadores localizados na região metropolitana do Rio de Janeiro em 1991 era de 4.774 trabalhadores, enquanto em 2010 contavam-se apenas 1.771, ou seja, uma redução de cerca de 62%. O pescador artesanal já perdeu cerca de 50% da Baia de Guanabara para área de exclusão. Hoje restam por volta de nove mil famílias que ainda dependem desta atividade para sobrevivência.

Vista aérea da Ilha da Conceição / Crédito: O Globo

A Ilha da Conceição está com sua área costeira totalmente ocupada por empresas que prestam serviços para a indústria do petróleo. São empresas de logística e transporte marítimo, manutenção de navios, estaleiros e outras atividades relacionadas à cadeia do petróleo e gás que estão ocupando áreas onde tradicionalmente os pescadores artesanais exercem suas atividades. A partir da perda do território de pesca, esses trabalhadores têm relatado dificuldades ao atracar suas embarcações. Devido esse aumento de custos, muitos acabam migrando para outras ocupações.

Além desse impacto no território, outras atividades contribuem para o agravamento do caso. O próprio percurso das barcas do trajeto Rio-Niterói é um empecilho à pesca. Em algumas áreas próximas a dutos, não é proibido pescar, mas, como eles interferem na temperatura da água, os peixes se afastam da região. Além do assoreamento em áreas da Baía, os lixos, as carcaças de navios abandonadas. Tudo isso vai minando a atividade e reduzindo o espaço dos pescadores.

Petróleo x Peixe – O que fazer?  Todos sabem que, no Brasil, a pesca vem de tradição familiar, passa de pai para filho. Infelizmente, deixou de ser atraente, perdeu lucratividade e a mão de obra se evade para setores mais fortes. Para o petróleo. A saída seria a devolver a lucratividade da pesca. Recuperar o mar perdido.

Mas os pescadores precisam sobreviver e trocam o peixe pelo petróleo. A migração para plataformas de petróleo, navios de apoio e rebocadores em mar aberto (offshore) é o principal fator da falta de mão de obra na pesca profissional no Brasil. Em Itajaí, maior porto pesqueiro nacional, a transferência de mão de obra afeta a grandes e médios armadores, desfalcados também por aposentadorias e envelhecimento da tripulação. Mais do que salariais, as causas estão diretamente ligadas a melhores condições de trabalho, busca de qualidade de vida e mais tempo para convivência com a família.

Na sua nova tarefa, os pescadores são recrutados devido às suas características próprias, e são treinados depois de acordo com a aptidão e capacidade de cada um. Bons navegadores, os pescadores se adaptam com facilidade às condições adversas do mar e do clima e a longos períodos longe da família.  A adequação física e psicológica facilita a lida com tecnologias embarcadas, mesmo as mais modernas.

E tem a questão de uma rotina mais confortável. No setor petroleiro, o profissional permanece confinado em embarcações confortáveis por 30 dias, mas depois tem o mesmo período para ficar em casa. Sem contar férias, 13° salário e outras vantagens na aposentadoria. Quem não quer ganhar bem, ficar com a família nos fins de semana, ter um tempo para se encontrar com os amigos, trabalhar para empresas que são gigantes poderosos? É muito mais confortável trocar o peixe pelo petróleo.

 

Pescador joga a rede a poucos metros de um terminal de gás na Baía de Guanabara / Crédito: O Globo

 Fugindo do mar – Para David Soares, sociólogo e doutor Psico-Sociologia e Ecologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), “seria impossível escrever a história da pesca no Brasil sem um capítulo especial sobre a Baía de Guanabara. No período colonial, pescadores portugueses vieram ao país e se fixaram na área do Caju, desenvolvendo a primeira colônia de pesca brasileira. A Baía de Guanabara tornara-se, desde cedo, palco de relevantes inovações técnicas da pesca, nas quais a contribuição de portugueses e espanhóis foi significativa. Eles introduziram técnicas como a rede de cerco e o arrasto de portas na região da Baía, influenciando a cultura pesqueira em outras regiões do país.”

Vazamento de plataforma deixou longo rastro na baía de Guanabara em novembro de 2013 / Foto: Genílson Araújo / Agência O Globo)

“Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal!”, escreveu o poeta Fernando Pessoa. Isso é passado. De acordo com matéria publicada pela TSF Rádio Notícias, em abril deste ano, até lá na santa terrinha os jovens recusam 20 mil euros para entrar na pesca. O programa para atrair jovens pescadores ficou quase deserto. Num ano, o Ministério do Mar recebeu apenas duas candidaturas. “Bem procurámos, um pouco por todo o país, sinais de jovens pescadores dispostos a usar as ajudas do governo para comprar o primeiro barco”, informa Jerónimo Rato, da CAPA, a Cooperativa e Armadores da Pesca Artesanal. A oferta de 20 mil euros vem, na maior parte, de fundos comunitários para pescadores com menos de 40 anos. “Arrisca-se a ser dinheiro deitado ao mar. Não há quem queira tornar-se armador. Não há tripulantes para novas embarcações, só um maluco é que se metia nisso!”, explica Jerónimo.

Nos últimos anos, a solução tem sido embarcar pescadores reformados (aposentados). O setor permite a reforma a quem tenha 55 anos de idade e 30 anos de atividade, porque a pesca é considerada uma profissão de desgaste rápido. Por lei, os pescadores aposentados não podem ir ao mar. Mas alguns vão enquanto podem, para pagar as contas ou para ajudar familiares com barcos. O problema é que muitos já não podem, já não têm condições físicas. A saída é contratar pescadores estrangeiros em situação irregular, e isso não é de hoje. “Começou há anos, fomos pondo trabalhadores reformados e depois filipinos, marroquinos, indonésios, homens de leste…”, conta Jerónimo Rato. E prossegue: “A multa para quem traga um ‘observador’ – um pescador sem documentos para pescar -, ronda os 300 euros para o mestre da embarcação e outro tanto para o pescador. As autoridades tendem a fechar os olhos, exceto quando há fiscalizações no mar ‘aí, é a doer, não perdoam”.

Jerónimo Rato diz que, por este andar, não resta outra saída ‘senão encostar os barcos à muralha’. Outra alternativa seria a reestruturação da frota de pesca nacional: com menos barcos, pelo menos por uns tempos, os portugueses poderiam chegar.  Jerónimo garante que, da autoridade portuária à ministra do Mar, todos sabem o que se passa nos barcos de pesca. O armador diz que o setor está saturado de esperar por respostas.

Já no tempo do anterior governo, foi decidido avançar com o Regulamento de Inscrição Marítima, um diploma que permitiria reconhecer os documentos de pescadores dos países que têm acordos com Portugal. “Nem o anterior governo, nem este que já lá está há quinze meses, resolvem o problema”. Nesse ponto, as autoridades pesqueiras portuguesas não são diferentes das brasileiras.

Navegar é preciso – Fica a pergunta: quando os pescadores vão ter o mar de volta? E outra pergunta: quando os jovens vão voltar a descobrir a pesca e o mar?

Quanto aos jovens, talvez sempre tenha sido assim. Viver no mar e do mar é só para aqueles que nasceram com a vocação marítima. E mesmo esses não querem que seus filhos sigam esse caminho porque sabem como é dura a vida no mar. E hoje é bem mais dura do que há algum tempo atrás. De qualquer forma, navegar é preciso. Sendo assim, não causa espanto que as novas gerações prefiram navegar na internet.

 

 

OLHO 1

Todos sabem que, no Brasil, a pesca vem de tradição familiar, passa de pai para filho. Infelizmente, deixou de ser atraente, perdeu lucratividade e a mão de obra se evade para setores mais fortes. Para o petróleo. A saída seria devolver a lucratividade da pesca. Recuperar o mar perdido.

 

OLHO 2

Viver no mar e do mar é só para aqueles que nasceram com a vocação marítima. E mesmo esses não querem que seus filhos sigam esse caminho porque sabem como é dura a vida no mar. De qualquer forma, navegar é preciso. Sendo assim, não causa espanto que as novas gerações escolham navegar na internet.

 

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