CRISE DA SARDINHA

CRISE DA SARDINHA

Se a sardinha sumiu, não tem problema. Ela está em algum lugar e o importante é saber como encontrá-la. Não é nenhuma brincadeira de esconde-esconde. Isso exige técnica. Exige tecnologia. “Alterações cíclicas na abundância de sardinha são conhecidas mundialmente e estão associadas a fortes alterações no ambiente em que estes peixes vivem. Estas alterações estão conectadas a mudanças climáticas de larga escala espacial e, justamente por serem de larga escala, não acontecem de um dia para outro, mas de forma gradativa e são acompanhadas em diversos níveis pelos principais órgãos oceanográficos mundiais. É possível acompanhar os ambientes nos diferentes oceanos e também aqui na nossa costa, desde que, obviamente, se saiba que informações procurar”, declara o Prof. Lauro Madureira, um dos maiores especialistas brasileiros em atividade. Temos que aprender a pescar sardinha com redes e satélites.

“Alterações cíclicas na abundância de sardinha são conhecidas mundialmente e estão associadas a fortes alterações no ambiente em que estes peixes vivem”, afirma o Prof. Lauro Madureira / Foto: Seafood Brasil

 

Após a lavagem, as sardinhas são colocadas nas latas, são adicionados os temperos e, em seguida, o fechamento da embalagem é feito por máquinas. Eles são hermeticamente fechados e passam por um processo de pré-cozimento, que cria uma espécie de conservante natural – não são adicionados conservantes ao produto / Crédito: Lucas Amorelli/UOL

 

A pesca da sardinha começa, normalmente, no fim de tarde e dura a noite toda. O trabalho só termina quando o porão do barco estiver cheio. Trabalham em média 18 pescadores em um barco. A tripulação faz pequenas paradas para comer. Na foto, pescadores jogam a rede ao avistarem um cardume / Crédito: Lucas Amorelli/UOL

 

Mais de 1,5 mil funcionários da Gomes da Costa em Itajaí retornaram ao trabalho na manhã de 6 de novembro após a maior parte da fábrica ter suspendido a produção em 27 de outubro por falta de peixe e problemas na importação. A empresa, que é a maior enlatadora de pescado da América Latina, produz diariamente dois milhões de latas de sardinha e 500 mil latas de atum. Essa foi a primeira vez que a Gomes da Costa paralisou as atividades em pelo menos 10 anos.

O anúncio da volta dos funcionários da fábrica foi feito por nota. A empresa também esclareceu que a produção de embalagens fica em outro prédio e que elas foram feitas em número suficiente para que esse material não falte até a volta dos empregados das férias coletivas.

As fábricas de alimentos e de embalagens ficam em Itajaí. Na cidade catarinense, a Gomes da Costa é a empresa que mais gera empregos, com dois mil empregados diretos.

A Gomes da Costa disse que a sardinha teve uma baixa safra este ano. Geralmente, a taxa de importação do peixe era de 30%, mas neste ano passou para 95%, aumento que prejudicou a reposição de estoque.

O atum também teve problemas na importação. O governo passou a exigir documentos que não eram solicitados. Algumas cargas tiveram que voltar para o país de origem. Por isso, a empresa não estava com peixe o suficiente para operar.

Outra justificativa da Gomes da Costa foi a interdição na metade de outubro, por parte da Fundação do Meio Ambiente (Fatma), de uma unidade que faz o bioprocessamento dos resíduos de peixe. O motivo foi o mau cheiro.

A empresa disse que a medida também prejudicou os trabalhos porque não há o que fazer com os resíduos de peixe. Na nota enviada nesta segunda, a Gomes da Costa afirmou que “sobre o resíduo do peixe, ainda não temos o destino que gostaríamos, já que a fábrica de bioprocessamento continua parada”.

 

Palavra técnica – Para o Prof. Lauro Saint Pastous Madureira, PhD, a quebra na captura da sardinha, a maior desde que se tem registro, poderia ter sido prevista.  “Digo isto com razoável capacidade de defesa. Não poderia ser evitada obviamente, mas talvez, na melhor das hipóteses, atenuada. Alterações cíclicas na abundância de sardinha são conhecidas mundialmente e estão associadas a fortes alterações no ambiente em que estes peixes vivem. Estas alterações estão conectadas a mudanças climáticas de larga escala espacial e, justamente por serem de larga escala, não acontecem de um dia para outro, mas de forma gradativa e são acompanhadas em diversos níveis pelos principais órgãos oceanográficos mundiais como, por exemplo, a NOAA [National Oceanic and Atmospheric Administration, em inglês; em português Administração Oceânica e Atmosférica Nacional]. Consequentemente é possível acompanhar os ambientes nos diferentes oceanos e também aqui na nossa costa, desde que, obviamente, se saiba que informações procurar.”

O Prof. Lauro Madureira lembra que propôs ao SINDIPI [Sindicato dos Armadores e das Indústrias da Pesca de Itajaí e Região] um projeto intitulado “Monitoramento do Habitat da Sardinha Verdadeira via satélite e frota pesqueira com PREPs” com três objetivos, e chama a devida atenção para o segundo: Monitorar as condicionantes ambientais da área de ocorrência da sardinha-verdadeira a partir de informações satelitais tais como TSM (Temperatura da Superfície do Mar), temperatura de sub-superfície, cor do oceano e deslocamento das massas de água via Catsat, bem como as anomalias temporais observadas nestes parâmetros. 

“Neste momento eu acredito que são anomalias temporais que estão pondo o estoque de sardinha em baixíssimos níveis”, declara o Prof. Lauro Madureira. “O estudo proposto por nossa equipe não se restringe ao uso do Catsat para indicar, dentro de uma semana ou quinzena, onde estão as áreas de maior potencial para pesca da sardinha.  Isto é possível, logicamente.”

E continua: “Nossa experiência com o monitoramento satelital diário com Catsat permitiu identificar alterações ambientais importantes na área de captura do bonito, fazemos isto com a Leal Santos há cinco anos. No caso da sardinha poderemos acompanhar a recuperação do estoque ao longo do tempo e monitorar variáveis ambientais que futuramente serão utilizadas para avaliar a qualidade do ambiente oceanográfico frente a tendências boas ou ruins, relativamente às capturas do momento e futuras. Isto poderá ser feito pela primeira vez ao longo da história desta pescaria.  O momento é este.”

A equipe do Prof. Lauro Madureira está processando dados de ventos e temperatura de uma série histórica de longo prazo, 40 anos de dados. “Estes dados estão sendo preparados para avaliar e fazer previsões, tendo por base ciclos passados, nos quais as capturas de sardinha, bonito… flutuaram.  Se flutuaram várias vezes nós queremos aprender como se recuperaram e voltaram a cair e assim fazer previsões”, explica. “Com o estudo devidamente desenvolvido nós poderemos, futuramente, prever com 1 a 2 anos de antecedência um colapso na captura de sardinha na costa SE do Brasil, tal como o atual.  Esta previsão permitiria que uma série de iniciativas fosse tomada para minimizar prejuízos.”

E conclui: “Estudos biológicos complementares, que também são necessários, poderão dar o embasamento à recuperação ou não do estoque, do ponto de vista reprodutivo. Estes estudos não estão previstos na nossa proposta, mas acredito que possamos agregar pesquisadores da UNIVALI [Universidade do Vale de Itajaí] para esta função. Entendemos que a coleta e armazenamento de dados para o estudo ambiental deve começar o mais breve possível.”

Apoio – O oceanógrafo Marco Aurélio Bailon, coordenador técnico do Sindipi, acredita que essa proposta de trabalho poderá ser determinante para o conhecimento da dinâmica do recurso sardinha com relação ao seu habitat. “Conhecer as  características/alterações oceanográficas a que este recurso está sujeito, melhorando a previsibilidade das pescarias,  estabelecer cenários que possam definir o planejamento das pescarias e poder estabelecer uma política de gestão do recurso sardinha de uma forma que se possa desenvolver políticas públicas que garantam a sustentabilidade econômica e ambiental da atividade são produtos extremamente bem vindos neste momento. Espero que o setor possa viabilizar a implantação desse projeto brevemente, que será, sem dúvidas, um marco no desenvolvimento da pesquisa aplicada no país a exemplo do que já vem ocorrendo com os estudos direcionados ao bonito listrado desenvolvidos pela tua equipe”, afirma Bailon.

Para o Comandante Flávio Leme, assessor do Saperj, este o caminho a seguir. “Corroboro integralmente com as palavras do Prof. Bailon na esperança de que o setor possa viabilizar este importante projeto porque sem pesquisa e conhecimento ficaremos sempre à mercê das medidas precatórias, tomadas sem nenhum embasamento científico.”

Leia mais na Revista Pesca & Mar 172

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