O AVANÇO DO MAR

Anda se falando muito em avanço do mar. Será  que o mar está avançando ou tomando de volta o que era dele?

Pesquisando aqui e ali, a gente conclui que a história da orla da cidade do Rio de Janeiro é uma história de corte e aterros, desmonte de morros e a colocação da terra sobre o mar, expandido as áreas edificáveis da cidade e construindo em cima da natureza.

No Rio de Janeiro, a área onde hoje existe o bairro da Cidade Nova, ao longo da Av. Presidente Vargas até a Praça 11 de Junho (antigo Rossio Pequeno) já foi muito conhecida como Mangue, porque o local era uma área pantanosa e alagadiça, em torno de uma pequena nesga de mar que vinha do “Saco de São Cristóvão”, área também aterrada onde havia mar. Esta área da Cidade Nova ou do Canal do Mangue, também foi chamada por muito tempo de Aterrado, principalmente no Século 19. Se fosse hoje, as autoridades não permitiriam esse aterro e ninguém pegaria ônibus ou trem na Central do Brasil.

Isso sem falar no Aterro do Flamengo. As primeiras obras de aterramento da região remontam ao início do século XX, quando foram construídas a Avenida Beira-Mar, a Praça Paris e a Avenida da Praia do Flamengo. O desmonte gradual do Morro do Castelo forneceu material para novos aterros na região central, como o do Aeroporto Santos-Dumont. Na década de 1950, com as rochas do desmonte do Morro de Santo Antônio, foi iniciada a construção de um enrocamento que começava na Ponta do Calabouço, continuava na região da Glória e seguia numa faixa estreita mar adentro até curva do Morro da Viúva, formando uma laguna que, finalmente, foi aterrada. O aterro (assim chamado) foi usado nos eventos do Congresso Eucarístico Internacional de 1955. Mais tarde, a área foi ocupada pelo Museu de Arte Moderna (1958) e pelo Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial (1960).

Anos depois, foi executada a parte principal do aterro. O entulho retirado do morro foi sendo despejado no mar, formando, desde o pontal do Calabouço até o Morro da Viúva, uma comprida restinga de pedras dispostas de modo formar uma laguna e a faixa de areia da praia do Flamengo que, a seguir, foi aterrada. O plano original previa a construção de pistas expressas entre o Centro e a Zona Sul da cidade. Porém a ideia de se criar um grande parque na área, junto às pistas de rolamento, é atribuída à paisagista Carlota de Macedo Soares, amiga do então governador do estado da Guanabara Carlos Lacerda. Com projeto paisagístico de Roberto Burle Marx, o novo parque foi destinado a atividades esportivas, recebendo quadras de futebol, tênis, vôlei, basquete e pistas de aeromodelismo e de modelismo naval; destacam-se os campos de futebol no trecho inicial da Praia do Flamengo, criados por iniciativa de Raphael de Almeida Magalhães, outro colaborador de Lacerda. Se fosse hoje, não teria nenhum Aterro do Flamengo.

Mas quem está na boca do povo, hoje, é a Praia da Macumba. A prefeitura do Rio prevê começar as obras emergenciais de contenção do calçadão da Praia da Macumba, no Recreio dos Bandeirantes, na zona oeste da capital fluminense, que continua afundando. O desmoronamento provocado pela força das ondas começou há algum tempo e já atingiu 600 metros da orla. A erosão e destruição das estruturas costeiras têm se repetido em diferentes regiões do País. Segundo especialistas, isso evidencia problemas estruturais e a falta de preparo do poder público para lidar com a ação natural.

Avanço do mar e destruição na praia de Macumba – Rio / Fonte: Estadão

Segundo a Defesa Civil do Rio, não há risco imediato a prédios e casas da região, mas parte da ciclovia, quiosques e coqueiros já se perderam.

O problema é antigo e conhecido. Em 2000, um relatório do Coordenação de Programas de Pós-graduação e Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Coppe, já alertava

para os riscos e sugeria alterações.

Nada foi feito. Em 2005, uma obra de ampliação do calçadão e de construção da ciclovia também não levou em conta os alertas. Agora, a prefeitura tentará reverter o desmoronamento.

Quer dizer: não existe avanço do mar. O mar simplesmente está querendo de volta o que tiraram dele.


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