UM CHEIRO DE DECADÊNCIA – SAPERJ
quinta-feira , outubro 1 2020

UM CHEIRO DE DECADÊNCIA

Na beira do cais não se fala em outra coisas: a pesca do  Rio de Janeiro precisa se recuperar do baque da expulsão. Depois que fomos expulsos do entreposto da Praça XV nunca mais fomos os mesmos. Era o cheiro. Mandaram a gente embora por causa do cheiro de peixe podre. Mas será que foi só o cheiro? Será que ainda tem cais?

O cheiro de peixe vinha da fábrica de enlatamento da Coqueiro, pairava sobre a multidão na Praça XV. Era forte, o cheiro. E naquele tempo ninguém usava máscara, não era normal / Crédito: Dreamstime

 

Com máscara ou sem máscara, a pesca do Rio precisa recuperar o fôlego, respirar novos ares depois da pandemia ou depois do fim do mundo, o que vier primeiro / Imagem: Alibaba

 

Então era assim. Lá elo fim de 1970, meados de 1980. Século passado. Você pegava seu carro. Não. Fica melhor de ônibus. Você pegava o ônibus, ia enlatado dentro do ônibus. Lá pelo meio da Avenida Contorno você enfrentava aquele cheiro forte de sardinha. Ele vinha da fábrica da Coqueiro que ficava do lado, quase embaixo do vão da avenida, ma margem do canal São Lourenço. Você ia cheirando a peixe até o centro de Niterói.

Você saltava do ônibus e caminhava até o terminal das barcas, na Praça Arariboia. Pegava a barca Martim Afonso  ou Ipanema ou Itaipu, pegava uma delas e, ainda enlatado, atravessava a Baía de Guanabara. Olhando a Ponte Rio-Niterói engarrafada, você se dava parabéns por ir enlatado. Você olhava a Ilha Fiscal e já se preparava para desembarcar.

A barca atracava  e você era mais um naquele cardume de trabalhadores.  Então  você e o cardume pisavam nas pedras da Praça XV e eram violentamente atacados pelo cheiro de peixe podre que vinha do entreposto de pesca da Praça de XV. Na verdade o cheiro não vinha do entreposto. É que o entreposto já estava obsoleto e transbordou para debaixo do viaduto (ainda tinha viaduto) e arredores, uma  movimentada e dinâmica feira de peixe a céu aberto. Peixes, escamas, vísceras eram o rescaldo da festa noturna. Na manhã, o sol batia forte nas cabeças dos bagres, nas sardinhas pisadas. O fedor subia. Você se sentia um peixe podre.

Esse cheiro foi o argumento usado pelas autoridades, às vésperas da Rio-92,  da Eco-92, para fechar o entreposto. Esta é a data do começo do fim da pesca no Rio de Janeiro.  A decadência. Esse cheiro foi a decadência.  Foi esse cheiro que levou ao fechamento das principais indústrias enlatadoras no Rio de Janeiro, o parque industrial acabou centralizado em Santa Catarina,.

Não foi nada bonito ouvir, no webinar sobre bonito listrado, o Maurício Conceição, da Camil Alimentos, dizer: “Não vejo a curto e médio prazo a reativação da pesca no Rio de Janeiro. A indústria de captura foi sucateada ao longo dos anos. Foram os pioneiros no atum, mas eles não modernizaram sua frota. O  Sul tem a cultura de modernizar. Tanto a captura quanto a  manufatura do Rio não voltam tão cedo.”

A verdade dói.  “Se a gente não levantar a poeira não vamos conseguir dar a volta por cima”, diz a Raquel Rennó Martins, coordenadora de Pesca Marítima da FIPERJ.  “Tem que buscar alternativas, fazer planos. Ter que ter resiliência. Não pode desistir”.

A pesca  do Rio tem que resolver essa parada rapidinho, depois da pandemia ou depois do fim do mundo, o que vier primeiro.

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