O MAR DE MALLARMÉ

O MAR DE MALLARMÉ

Retrato de Mallarmé por Édouard Manet, 1876 / Crédito: Tombolo

Nascido em Paris em 1842, o poeta simbolista Stéphane Mallarmé (nome literário de Étienne Mallarmé), foi professor de inglês durante cerca de 30 anos. Seus primeiros poemas apareceram na década de 1860. O livro Hérodiade (Herodíades) é de 1869. Em seguida, vem L’Après-Midi d’un Faune (A Tarde de um Fauno), de 1876, obra que inspirou o prelúdio homônimo do compositor Claude Debussy (1894) e foi ilustrada pelo pintor Édouard Manet.

Mallarmé, como boa parte dos poetas de sua época, começou a escrever sob a inescapável influência de Charles Baudelaire. Consta que ele compôs seu poema “Brisa Marinha” (“A carne é triste, sim, e eu li todos os livros”) depois de ler os versos devastadores de “As Flores do Mal”.

Durante os anos 1880, Mallarmé foi a figura central de um grupo de escritores, entre os quais o poeta Paul Valéry e os romancistas André Gide e Marcel Proust, com quem discutia sobre poesia e arte. O poeta escreveu vários outros livros e morreu em 1898.

Críticos apontam sua influência no trabalho de vários poetas importantes do século XX. Ela está, por exemplo, na poesia de Wallace Stevens (1879-1955), nos “Quatro Quartetos” de T.S. Eliot (1888-1965) e na prosa do “Finnegans Wake”, de James Joyce (1882-1941).

No Brasil, os mais destacados discípulos do experimentalismo mallarmeano são os poetas concretos, que utilizaram muito das concepções do autor francês na elaboração de seus poemas e teorias literárias.

William Turner, « Le Dernier Voyage du Téméraire » (1839). Huile sur toile, Londres, National Gallery.

Alquimista das palavras, Mallarmé defendia teorias poéticas que iam na contramão do que era consagrado em sua época. Não se faz um poema com ideias, mas com palavras, dizia ele. Com isso, queria assinalar que o poema deve ser visto como um objeto em si mesmo. Ele também dizia que “um poema é um mistério cuja chave deve ser procurada pelo leitor”.

Leia dois poemas de Mallarmé traduzidos por Augusto de Campos.

 

BRISA MARINHA

 

A carne é triste, sim, e eu li todos os livros.

Fugir! Fugir! Sinto que os pássaros são livres,

Ébrios de se entregar à espuma e aos céus  imensos.

Nada, nem os jardins dentro do olhar suspensos,

Impede o coração  de submergir no mar

Ó noites! nem a luz deserta a iluminar

Este papel vazio com seu branco anseio,

Nem a jovem mulher que preme o filho ao seio.

Eu partirei! Vapor a balouçar nas vagas,

Ergue a âncora em prol das mais estranhas  plagas!

Um Tédio, desolado por cruéis silêncios,

Ainda crê no derradeiro adeus dos lenços!

E é possível que os mastros, entre ondas más,

 

Rompam-se ao vento sobre os náufragos, sem  mas-

Tros, sem mastros, nem ilhas férteis a vogar…

Mas, ó meu peito, ouve a canção que vem do mar!

 

BRINDE

 Nada, esta espuma, virgem verso

A não designar mais que a copa;

Ao longe se afoga uma tropa

De sereias vária ao inverso.

Navegamos, ó meus fraternos

Amigos, eu já sobre a popa

 

Vós a proa em pompa que topa

A onda de raios e de invernos;

Uma embriaguez me faz arauto,

Sem medo ao jogo do mar alto,

Para erguer, de pé, este brinde

Solitude, recife, estrela

A não importa o que há no fim de

um branco afã de nossa vela.

 

 

Saiba bem mais:

Mallarmé 1:

Alguma Poesia;

Mallarmé 2:

Blog do Antonio Cicero

Mallarmé 3:

Blog do Castor

Debussy: Trois poèmes de Stéphane Mallarmé

https://www.youtube.com/watch?v=NsRT-xTAJFA

Debussy – Prélude à l’après midi d’un faune (1894)

https://www.youtube.com/watch?v=X7rtImnDkEc

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