TRAVESSIA MARÍTIMA – SAPERJ
quinta-feira , outubro 1 2020

TRAVESSIA MARÍTIMA

“Estamos aqui, a ponto de repetir a viagem de Colombo além do Ocidente. Por dias e dias vagaremos (em primeira classe) no vazio cósmico, entre dois continentes”.  E vamos descobrir que toda aventura literária ou filosófica é uma montanha mágica, uma odisseia quixotesca, uma aventura manneira. Sim, uma travessia marítima, sem enjoo e sem náusea, mas com uma pitada de loucura a bordo.

Dom Quixote é uma travessia espiritualíssima: você lê, é lido, o real é sonho, e o mundo é pelo avesso. E naufragar é beleza nesse oceano infinito / Imagem: Visões de Dom Quixote, de Octavio Ocampo /  Crédito: Gallery4collectors

 

A travessia de Katia e Thomas Mann foi nesse navio holandês, o Volendam. “Há pouco, visitamos rapidamente os deques de passeio, os corredores laqueados, as escadarias atapetadas; seus oficiais e tripulantes intrépidos não fizeram outra coisa na vida senão aprender a dominar os elementos” / Crédito: Cruising the Past

 

Família Mann. Da esq. para a dir.: Monika, Golo, Michael, Katia, Klaus, Elisabeth, Erika. Thomas está escrevendo/ Crédito: DW

 

Dois mágicos: Albert Einstein e Thomas Mann, em Princeton no ano de 1943. / Foto: Lotte Jacobi

 

O faustiano Thomas Mann e sua indômita escudeira, Kátia Mann / Crédito: Pinterest

 

Heinrich Mann (de pé) e Thomas Mann em 1900, em Munique. Irmãos de grande talento e destinos opostos: Heinrich vive seus últimos anos na pobreza, no exílio e na solidão, e segue para outro mar em 1950, na Califórnia, aos 78 anos. Thomas, aclamado por público e crítica, próspero, se despede de Kátia, sempre a seu lado, e abandona o barco em 1955 num hospital em Zurique, aos 80 anos / Foto: ETH-Bibliothek Zürich

 

O Schatzalp está situado no meio de um belo jardim botânico, com 3500 espécies de plantas alpinas, e é conhecido pelo romance A Montanha Mágica, escrito por Thomas Mann / Crédito: Booking.com

 

A próxima travessia: gêiseres e colunas de vapor jorram da superfície da oceânica lua Europa, tendo no horizonte o tempestuoso Júpiter. A imagem é pura ficção. Ainda / Crédito: NASA/ESA/K. Retherford/SWR

 

Cruzar o Atlântico já foi uma grande aventura no tempo das caravelas. Thomas Mann, Prêmio Nobel de Literatura de 1929, narra como foi sua primeira viagem da Europa até  Nova York em maio de 1934 a bordo de um navio vapor holandês.  Ele conta e dá detalhes em Travessia marítima com Dom Quixote – Ensaios sobre homens e artistas, apresentação de Elcio Cornelsen, tradução de Kristina Michahelles e Samuel Titan, publicado pela Zahar, 2014.

A mãe do escritor, Júlia da Silva Bruhns, nasceu no Brasil, mais precisamente em Paraty, em 14 de agosto de 1851, e já tinha deixado este mundo em 11 de março de 1923. Quem quiser saber mais sobre ela basta ler Ana em Veneza, o quinto romance de  João Silvério Trevisan, também autor de Devassos no Paraíso edição revista, atualizada e ampliada, um clássico imperdível.

A bordo. Thomas e sua esposa, Katia Mann, decidem tomar um vermute no bar do navio, o Volendam,  enquanto esperam a partida. O  nobel escriba de A montanha Mágica (1929) tira da mala de mão um caderno e quatro pequenos volumes de capa  dura e cor laranja. É o que ele vai ler durante os nove ou dez dias da travessia.  Dom Quixote. Em alemão.

Vamos deixar Mann falar à vontade.

Ele está meio agitado. É a primeira viagem pelo Atlântico, o primeiro encontro e convívio com o oceano, rumo a  Nova Amsterdam, mais atualizadamente Nova York. “É tranquilizador pensar que iremos ao encontro dessas vastidões ermas na companhia e ao abrigo da civilização, neste belo navio: há pouco, visitamos rapidamente os deques de passeio, os corredores laqueados, as escadarias atapetadas; seus oficiais e tripulantes intrépidos não fizeram outra coisa na vida senão aprender a dominar os elementos. Ele nos conduzirá ao outro lado como aquele trem de luxo rumo a Cartum, de vagões brancos e janelas azuis, que leva seus passageiros por paragens terríveis, entre as colinas tórridas e mortíferas dos desertos da Líbia e da Arábia… ‘Fazer-se ao mar’ – basta recordar a expressão para sentir quanto vale o acolhimento no seio da civilização humana. Não tenho grande estima por quem, à visão da natureza elementar, entrega-se por inteiro à admiração lírica diante do ‘grandioso’ e não faz caso de sua hostilidade terrível e indiferente”, escreve em seu caderno. Mãe Gaia pode ser má, Medeia, como já vimos por aqui, no site, e estamos provando na pandemia.

A primavera já vai alta e o mar está tranquilo: nada de ondas gigantes, estrépito pavoroso, marulho infernal, revolta dos elementos, disparates marinhos, atendentes cambaleantes no barco bêbado, equilibrando bandejas e servindo sopas no decote das damas. Mar em paz.

Mas por que o Dom Quixote, em capa dura e cor laranja, numa viagem dessas?  “Leitura de viagem – um gênero cheio de conotações de pouco valor. A opinião geral pretende que o que se lê em viagem deve ser o mais fácil e raso possível, alguma besteira para se ‘passar o tempo’. Nunca entendi por quê. Pois, deixando de lado que a dita literatura de entretenimento é sem dúvida a coisa mais aborrecida que há na Terra, não consigo aceitar que, justamente numa ocasião séria e solene como uma viagem, devamos abdicar de nossos hábitos espirituais e nos entregar à tolice. O ambiente relaxado e descontraído da viagem criaria  talvez uma disposição dos nervos e do espírito em que a tolice causasse menos  repulsa que de costume? Falava ainda há pouco sobre respeito. Como tenho estima por nossa empreitada, parece-me certo e apropriado que também tenha estima pela leitura que há de acompanhá-la. O Dom Quixote é um livro mundial – o livro justo para uma viagem pelo mundo” – escreve o grande autor de Morte em Veneza.

Ler Dom Quixote exige espírito aventureiro. “Escrevê-lo foi uma aventura ousada, e a aventura receptiva que se cumpre ao lê-lo está à altura das circunstâncias. É estranho, mas jamais levei sua leitura sistematicamente até o fim. Quero fazê-lo a bordo e chegar à outra margem deste mar de histórias, assim como, dentro de dez dias, chegaremos à outra margem do oceano Atlântico. O cabrestante rangeu enquanto eu registrava este propósito por escrito. Vamos agora subir ao deque e ver o que fica para trás e o que vem pela frente.”

Entre dois mundos?

A bordo do vapor Volandem, Thomas e Katia participam de um rápido treinamento em caso de emergência: “o  bote desce pelas cordas do convés superior, um bote a motor, muito simpático, talvez um tanto pequeno quando o mar vai alto, ele para aqui, bem na frente da balaustrada, nós embarcamos, ele desce até o mar”. E levo vocês para casa, promete o instrutor com óculos e galões dourados. Mann não acredita que alguém consiga levar ele e Katia para casa, para as casas, a de Zurique, a de Munique, a de Lübeck, que é a da infância, num bote de resgate.

Mas o que significa mesmo “para casa”?, Mann se pergunta. Hitler e seus nazistas responderão em breve: exílio, exílio é seu endereço, como José no Egito.

Há cinema a bordo, enorme, mas são poucos os espectadores. Joga-se, come-se, bebe-se.  Um sujeito que viaja na primeira classe, exige uma mesa exclusiva, lê enquanto come, esnoba seus iguais, prefere a companhia dos emigrantes judeus da    “classe econômica” . Parece que Mann intui nele um escritor e se permite uma certa inveja de sua esnobe e antipática desenvoltura.

Quanto a Cervantes, Mann acredita que há nele “muito mais espelhismo romântico, há muito mais magia irônica em jogo.”  E argumenta: “Na segunda parte, dom Quixote e seu escudeiro saem da esfera de realidade a que pertenciam, do livro romanesco em que viviam, para vagar em carne e osso como realidades potenciadas, alegremente saudados pelos leitores de sua história, por um mundo que, também ele, representa um grau mais alto de realidade em relação ao mundo impresso – mas que por sua vez também é um mundo criado pela narrativa, uma evocação ilusionista de um passado  fictício, de modo que Sancho pode se permitir um gracejo e dizer à duquesa: ‘… e seu escudeiro, que

também anda pela história e que vai pelo nome de Sancho Pança, sou eu mesmo, se é que não me trocaram no berço, quer dizer, se é que não me trocaram no prelo’.”.

É realmente fantástico esse jogo de espelhos: personagens fictícios se comportando como seres reais. Personagens inventados se acreditando donos de si mesmos, se aventurando nas profundezas dos “abismos espelhados da arte e da ilusão”.

Jorge Luis Borges, no posfácio da edição do Quixote da Penguin/Companhia, que abordaremos mais adiante, argumenta: “Na realidade, cada romance reside num plano ideal; Cervantes se compraz em confundir o objetivo e o subjetivo, o mundo do leitor e o mundo do livro.” Dom Quixote é leitor do Quixote. Hamlet é ator e espectador de Hamlet. Quixote é até leitor de Cervantes. Quem lê e quem escreve? Quem é lido e quem é escrito? Quem está ao vivo nesse palco, nessa página, nessa tela?

Borges: “Por que nos inquieta que dom Quixote seja leitor do Quixote e Hamlet espectador de Hamlet?” Não tem isso de ser ou não ser:  Quixote e Hamlet são e são o tempo todo, carne e espírito, mundo e sonho, duplamente existentes, siameses, sósias, corpo e corpo, alma e alma. Ainda Borges: “tais inversões sugerem  que, se os personagens de uma ficção podem ser leitores ou espectadores, nós, seus leitores ou espectadores, podemos ser fictícios.”

Somos lidos por Quixote, por Hamlet, por Hans Castorp, o personagem catalisador de  A Montanha Mágica. Não existe entremeio, brecha, fenda, fronteira, intervalo. Somos o mundo e o submundo em que eles nos habitam.

Artistas da renúncia.

          “Estamos aqui, muito implausivelmente, a ponto de repetir a viagem de Colombo além do Ocidente; por dias e dias vagaremos (em primeira classe) no vazio cósmico, entre dois continentes – mas não creio que a maioria de nossos companheiros de viagem esteja pensando alguma coisa do gênero a respeito”, escreve Mann.

         Os companheiros viajantes não têm fantasia. “Ninguém se torna um homem do mundo por obra dela, pois a fantasia nos ‘preserva’ – se é que cabe o termo elogioso – de toda superioridade até a velhice. Ter fantasia não significa ser capaz de inventar uma coisa, e sim de levar as coisas a sério – e isso não é próprio do homem do mundo”, define o autor do Doutor Fausto.

         Mais adiante, Mann faz um ataque frontal ao termo “cósmico”. Primeiro ele se pergunta: “Mas não haverá, de fato, alguma coisa de pueril no modo cosmológico de contemplação do universo, em comparação com o psicológico?”

         E responde chamando Einstein para bordo de sua viagem. “Lembro dos olhos de criança, brilhantes e redondos, que tem Albert Einstein. Não tenho como deixar de pensar que o conhecimento humano, a imersão na vida humana é de caráter mais maduro, mais adulto que toda especulação sobre a Via Láctea, por mais profundo que seja o respeito que lhe voto. Goethe dizia: ‘Que cada qual tenha a liberdade de se ocupar com o que bem quiser, com o que lhe faça feliz e lhe pareça mais útil; mas o verdadeiro estudo da humanidade é o homem’.”

          Em 1936, o regime nazista cassou a cidadania alemã de Mann, que  se mudou definitivamente para os Estados  Unidos em fevereiro de 1938. Lá, conseguiu um emprego na Universidade de Princeton, a uma hora de trem de Nova York, e a companhia de    Albert Einstein, também professor na instituição.

         Em seu livro Minhas Memórias Inescritas (São Paulo, Ars Poetica, 1992 – entrevistas realizadas por Elisabeth Plessen e Michael Mann, tradução  de Claudia Baumgart), Katia Mann acompanha o marido: “Albert Einstein também estava em Princeton. Nós éramos quase vizinhos e o encontrávamos com frequência. Ele mostrava-se muito simpático, mas não muito ativo. Einstein era um ser infantil, os grandes olhos arregalados; tinha algo de ingênuo, era uma pessoa amável. E ele era um gênio unilateral, não é mesmo? Realmente, uma aptidão especial enorme e, na vida comum, não era uma pessoa notável. Também não tinha o menor conhecimento político”.

         Fantástico. “Ter fantasia não significa ser capaz de inventar uma coisa, e sim de levar as coisas a sério”, escreveu Mann agora há pouco. “Ao invés da ficção livre, Thomas Mann preferia se basear na realidade”, escreveu Katia no Memórias, logo a seguir ao comentário sobre Einstein.

         Mann vai contramão dos dicionários, que definem fantasia como “imaginação criadora; ficção; coisa que não tem existência real, mas apenas ideal”. O extremo de contenção do transbordamento que a fantasia pressupõe é o próprio Mann: homossexual, ele manteve um casamento, teve seis filhos, cumpriu os deveres exigidos pela norma social. (Segundo o professor Hermann Kurzke, biógrafo e especialista na obra do autor, Thomas Mann se sentia perseguido por uma tendência erótica que não queria, nem podia realizar – isso está numa reportagem da Deustsche Welle (“1955: Morria o escritor Thomas Mann”, 12.08.2019). Seria uma ironia, mas ao mesmo tempo uma concessão, a aceitação da necessidade de cumprir seus deveres burgueses.)

         Fato: O autor de Doutor Fausto mesclou instinto sexual e fantasia em suas obras. Sérias e perenes, suas obras e suas fantasias.

         Mergulhando mais fundo: “A moral do artista é a força da concentração egoísta, a determinação rumo à forma, à configuração, à delimitação, à corporalidade, rumo à renuncia à

liberdade, ao infinito, ao dormitar e tecer no espaço ilimitado da percepção – resumindo em uma palavra, é a vontade para a obra. Mas quão pouco nobre e ética, exangue e asquerosa é a obra  nascida da uniformidade fria, sábia e virtuosa de um artista! A moral do artista é devoção, engano e autorrenúncia, é luta e necessidade, vivência, conhecimento e paixão”, esclareceu Thomas, em “Doce sono!”, o segundo ensaio do Travessia.

         Katia Mann (nascida Katharina Pringsheim, em 1883) viveu até os 96 anos, 50 deles ao lado de Thomas. Deu-lhe seis filhos (o escritor Klaus, a atriz Erika, o historiador Golo, a ensaísta Monika, o violinista e literato Michael e a cientista Elisabeth). No exílio americano, levava o marido de carro até a praia e, enquanto ele caminhava pensando pelo calçadão, ela dava um mergulho. “Ele era nervoso, sensível e era dado a depressões, mas assim são todos os artistas”, ela revela nas memórias que ditou aos filhos Elisabeth e Michael, “memórias inescritas”. Katia: “Nesta família deve existir alguém que não escreva”.

         Ela também era uma artista da renúncia.

 O diabo da autoria,

          Katia Mann até podia reivindicar a coautoria de A Montanha Mágica. Em 1912 ela teve uma infecção pulmonar e foi internada em Davos. Mann foi visitá-la e ficou tão impressionado que decidiu escrever um romance com um final diferente de Morte em Veneza. Ela mostrou a ele os diversos “seres perecíveis” que lá havia e nas cartas, que foram perdidas, contava propositalmente ao marido os detalhes, os jogos, os gestos, sabia que ele estava trabalhando no livro. E revela que os dois rivais intelectuais do livro, Settembrini e Nahphta, não existiam no sanatório, foram invenções de seu cara metade.

         Katia defendia o trabalho do marido com unhas e dentes. Conta que Adorno foi o consultor musical de Mann para o Doutor Fausto. E que Adorno extrapolou, tipo pedir que Mann escrevesse um artigo sobre Horkheimer, e que se Mann não atendesse seu pedido Horkheimer “se sentirá terrivelmente ferido”.

         O livro era Dialética do Iluminismo, também Dialética do Esclarecimento (Dialektik der Aufklärung), escrito por Horkheimer… e Adorno. Golo visita a família e Mann (“sabe, disso eu não entendo nada”) pede ao filho para fazer uma resenha. Golo escreve um comentário que foi publicado no New York Times sob o nome do pai.

         Em 1952 ou 1953, alguns estudantes do Instituto Sociológico de Frankfurt foram enviados à Suíça para entrevistar Mann. Fizeram perguntas a respeito de Adorno, e Mann: “Sim, sim, Adorno me ajudou muito em questões musicais”. Ao que Katia acrescenta: “Decerto, mas isso não é motivo para ele crer ou achar poder crer, que ele próprio tenha escrito o livro”.

         Katia: “Os estudantes comunicaram o fato a Adorno e eu, naturalmente, não era mais muito benquista por ele. Mas, pelo menos creio eu, os fatos precisam ser colocados adiante da vaidade, não é mesmo?”

         Hannah Arendt também não gostava do “grupo de Wiesengrund-Adorno em Frankfurt”. Achava Adorno “uma das pessoas mais repulsivas que conheço”. “Ele e Horkheimer  passaram anos a fio acusando de antissemitismo qualquer pessoa na Alemanha que fosse contra eles, ou ameaçaram fazê-lo. Realmente um grupo nojento” [Rüdiger Safranski, Heidegger: Um mestre da Alemanha entre o bem e o mal, tradução de Lya Luft, apresentação de Ernildo Stein. São Paulo, Geração Editorial, 2013, pp. 484-485.]

         O diabo não é tão feio como se pinta? Mann e Adorno trocaram cartas de 1943 a 1955, ano da morte do romancista. “De fato, o senhor deu a mim, cuja formação mal chegou a ir além do romantismo tardio, o conceito da música mais moderna, do qual carecia para um livro que tem por objeto, entre outros, e junto com vários outros, a situação da arte. (…) Queira o senhor refletir comigo sobre como a obra – eu me refiro à obra de Leverkühn – mais ou menos teria de pôr-se em obra; o que o senhor faria se estivesse num pacto com o Diabo; dar-me-ia uma ou outra característica musical para fomentar a ilusão?”, escreve ao “Caro Dr. Adorno”  um “Seu devotado  Mann”  numa carta de 30 de dezembro de 194.

         Na resenha do livro das cartas entre os dois, o crítico George Steiner (1929-2020)  escreve: ” Em ‘A Montanha Mágica’, Georg Lukács inspira os personagens Naphta e Settembrini, uma contradição que envolve não apenas sua própria sensibilidade complicada, mas também seu compromisso com uma interpretação dialética da vida. O diabo em ‘Doutor Fausto’ foi reconhecido imediatamente como encarnação de Theodor Adorno. Tanto o romancista quanto o personagem tinham prazer nessa identificação”.  [A fonte dessas diabruras é o suplemento +Mais, da Folha de S. Paulo, 10. 09.2002.]

         Mudando de assunto, mas ainda com Katia Mann.

            Ela conta que, no exílio americano, tinha “um couple [casal] de negros, John e Lucie”. “Ela cozinhava, e muito bem, e ele era mordomo, servindo também de motorista sempre que eu mesma não podia dirigir, pois eu vivia muito ocupada. Esses empregados eram, às vezes, esquisitos. Lucie tinha ainda um irmão, Horatio, que eles ‘contrabandearam’ para dentro de nossa casa”.

         John e Horatio, ambos de terno branco, serviam as refeições. A escritora pacifista Annette Kolb (1870-1967) ficou espantada com o “exagero de criadagem” da amiga Katja, que retrucou: “Bem, sabe, nós somos mesmo muitos finos. É assim mesmo.”  [Sua sogra brasileira, Julia, daria uma risada cúmplice. Não deixem de ler Ana em Veneza, do João Silvério Trevisan.]

Quixote e Zaratustra –      No capítulo I da segunda parte do Quixote  (Dom Quixote de la Mancha, edição de bolso da Penguin/Companhia das Letras, tradução e notas de Ernani Ssó, introdução de John Rutherford, posfácios de Jorge Luis Borges e Ricardo Piglia, 2012), pois no tal  capítulo o padre e o barbeiro apontam o dedo para a doença do Dom Quixote e o Cavaleiro da Triste Figura se  defende com tempestuosa bravura: “Eu, senhor barbeiro, não sou Netuno, o deus das águas, nem procuro que ninguém me considere sensato não o sendo: apenas me empenho para que o mundo compreenda o erro em que está em não reviver o felicíssimo tempo onde campeava a ordem da cavalaria andante”.

         E Quixote lamenta a falta de cavalarias e andanças em sua época preguiçosa, arrogante e viciada:  “Já não há nenhum que saindo desta mata entre naquela montanha, e de lá pise uma estéril e deserta praia do mar, na maioria das vezes tempestuosa e revolta, e achando na margem dela um pequeno batel sem remos, vela, mastro nem cordame algum, com coração intrépido se atire nele, entregando-se às implacáveis ondas do mar profundo, que num instante sobem aos céus e no outro descem ao abismo, e ele, opondo o peito à inexorável tormenta, quando menos espera se acha a mais de três mil léguas distante do lugar onde embarcou e, saltando em terra remota e desconhecida, lhe acontecem coisas dignas de estar escritas não em pergaminhos, mas em bronzes. Mas agora triunfa a preguiça sobre a diligência, a ociosidade sobre o trabalho, o vício sobre a virtude, a arrogância sobre a valentia e a teoria sobre a prática das armas, que somente viveram e brilharam nas idades de ouro e nos cavaleiros andantes.”

         A doença de Dom Quixote é a sua loucura por tentar tornar  real aventuras livrescas, realizar o imaginário.

         Claro que Thomas Mann é da tropa do Quixote: “Insuflar alma – eis a bela expressão! Não é o talento da invenção, é a arte de infundir alma que faz o poeta. Não importa se ele preenche uma lenda tradicional ou um pedaço de realidade viva com seu hálito e sua natureza, a alma, a penetração e realização do assunto com aquilo que o poeta é, faz o assunto ser de sua propriedade, algo em que, de acordo com sua opinião mais íntima, ninguém pode pôr a mão. É mais do que evidente que isso pode e deve

levar a conflitos com a venerável realidade, que se tem em alta estima e não deseja de forma alguma ser comprometida através da infusão de alma. Mas a realidade superestima o grau no qual continua sendo realidade para o poeta que dela se apropria – especialmente nos casos em que tempo e espaço o separam dela. Falo de mim…”. São palavras de “Bilse e eu”, o primeiro ensaio do Travessia.

         Thomas Mann consegue terminar a leitura do Quixote. O navio está parado no porto e do convés dá para ver a Estátua da Liberdade,  “uma reminiscência clássica, um símbolo ingênuo que vai se tornando estranho nos tempos que correm…”

         “Estou de ânimo sonhador, por ter despertado tão cedo, por conta do teor singular deste momento. Também sonhei à noite, em meio ao insólito silêncio sem máquinas, e tento recuperar o sonho nascido de minha leitura de viagem. Sonhei com dom Quixote em pessoa e sonhei que falava com ele. Assim como a

realidade com que topamos se distingue da concepção prévia que fazíamos dela, assim também ele tinha aspecto diferente do que se vê nas ilustrações: usava um bigode espesso e farto, tinha a testa alta e recuada, os olhos eram cinzentos, quase cegos, de sobrancelhas igualmente fartas. Não se chamava Cavaleiro dos Leões, mas Zaratustra.”

         Esse bigode, essa testa, esses olhos pertencem a Nietzsche. Zaratustra é antonomásia. “Agora como que se abre diante de nós a montanha mágica [zauberberg] do Olimpo, e mostra suas raízes” – dessa frase  de O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música  se eleva A Montanha Mágica [Der Zauberberg], a manníaca revelação de um mundo doente, desencantado, um sanatório sem deuses.

         No ano de 1889, numa rua de Turim, na Itália, um cocheiro chicoteia seu cavalo e Nietzsche abraça o animal, chora e mergulha na loucura, fica submerso nela por mais 10 anos, até o desembarque final, em 25 agosto de 1900, em Weimar, a cidade de Goethe. É uma cena espelhada, essa do abraço no cavalo:  Nietzsche, leitor de Dostoievski, reencarna Raskólnikov que, em Crime e Castigo, sonha beijar, abraçar, proteger, ainda criança, uma égua espezinhada por um bando de bêbados. O Príncipe Míchkin, de O Idiota, o idiota Míchkin, tão quixotesco quanto Nietzsche, faria o mesmo. Não o Quixote em pessoa, esse entraria em ação intrépida: montado em seu Rocinante, atacaria o cocheiro, dispersaria o bando de bebuns, libertaria égua e cavalo de toda e qualquer desumanidade.

         Zaratustra – “conhecedor de si mesmo”, “verdugo de si mesmo” – talvez olhasse a cena com neutralidade, à espera da transvaloração de todos os valores da movediça moral humana.

Uma viagem cósmica.

          Em “A arte do romance – Conferência para estudantes de Princeton”, o oitavo ensaio do Travessia, Mann manda: “A obra épica, une mer à boire, milagre de empreendimento…” [“Um oceano inteiro a beber”, em francês no original. A expressão é utilizada frequentemente por Thomas Mann” – anota a tradutora Kristina Michahelles.] O Quixote é um oceano. Cervantes é um oceano. Goethe, Mann, Shakespeare, Machado de Assis, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Schopenhauer, Nietzsche, Freud também são. Navegamos nesse oceano, mas precisamos chegar a um porto, um cais, a um ponto final.

         Mas não antes de falar de Schopenhauer.

         Quem conta é Katia Mann, no seu já bem citado livro inescrito:

         “Meu pai [o matemático Alfred Israel Pringsheim]  era um   wagneriano entusiasmado e convenceu seus pais a adquirir ações, as chamadas ações de patrocínio, para a construção de um teatro em Bayreuth. Ele conhecia Wagner pessoalmente e guardava uma ou duas cartas dele que eram o seu tesouro. Em 1876, durante os ensaios de O Anel dos Nibelungos, ele estava em Bayreuth,  mas nunca circulou com desenvoltura por Wahnfried [casa de Richard Wagner, onde “minha loucura encontrou a paz”.]. Pelo fato de ter duelado em Bayreuth, por causa de Wagner, ele prejudicou seu relacionamento pessoal em Wahnfried. Certa vez, em um restaurante, alguém tinha depreciado Wagner e, como meu pai tinha um pavio muito curto, ele bateu a sua caneca de cerveja na cabeça do homem. Com isso ele foi apelidado de Schoppenhauer (bate-caneco)”.

          Katia conta que essa eschoporrada terminou num duelo de pistolas, mas não correu nenhum sangue, felizmente.

         No último ensaio do Travessia, “Elogio da transitoriedade”, Thomas Mann filosofa:   “A transitoriedade insufla alma ao ser, e isso se dá em grau máximo no homem. Não que ele seja o único a ter alma. Tudo tem alma. Mas a sua é a mais desperta, por conhecer a equivalência dos conceitos de ‘ser’ e ‘transitoriedade’, por conhecer a dádiva do tempo. Ao ser humano é dado santificar o tempo, ver nele um campo fértil que clama por cultivo constante, concebê-lo como espaço da atividade, do esforço incessante, da autorrealização, do progresso rumo às suas mais altas possibilidades – ao homem é dado, com o auxílio do tempo extrair o imperecível do transitório.”

         E logo a seguir, de forma meio inesperada, Mann se lança num passeio cósmico:

         “A  astronomia, ciência grandiosa, ensinou-nos a considerar a Terra como uma estrela insignificante no gigantesco turbilhão do cosmo, uma estrelazinha secundária a vagar na periferia da própria Via Láctea. Tudo isso é sem dúvida correto em termos científicos – mas, ainda assim, duvido que a verdade se esgote nessa correção. No fundo da alma, acredito – e julgo que essa crença seja natural para toda alma humana – que cabe à Terra uma significação central na ordem do universo. No fundo da alma, guardo a suposição de que o ‘Faça-se’ que criou o cosmo a partir do nada anorgânico e gerou a vida já mirava o homem, e de que com o homem teve início um grande ensaio. Um fracasso pelas mãos do homem equivaleria ao fracasso, à revogação de toda a criação. Sendo ou não assim – seria bom que o homem se portasse como se assim fosse.”

          Amém. Além. Mais além. Novas travessuras. Outras travessias.  // Senhoras e senhores a bordo, algumas das 200 luas do sistema solar têm oceanos sob a superfície, pululando de vida, esperando, espreitando. Vejam com olhos de ver como gêiseres e colunas de vapor jorram da superfície da lua Europa e no céu dela brilha  o turbulento Júpiter. Sigam os procedimentos de protocolo. É aqui que desembarcamos. (Francisco Maciel)

Also sprach Zarathustra – Richard Strauss – 2001: Uma Odisseia no Espaço

O Sonho Impossível’, música tema da obra de Dom Quixote

O Homem De La Mancha (2017) – ‘Homem De La Mancha’ (Man Of La Mancha)

Arnold Schoenberg: Moses und Aron (Excerpts, 1 of 2)

Anton Webern : Variations Opus 27 par Glenn Gould

Webern Conducts Berg’s Violin Concerto (Louis Krasner, Violin): Mvmnt 1 Andante-Allegretto PART A

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