A PESCA, OS BOTOS E O BODE

A PESCA, OS BOTOS E O BODE

UMA REFLEXÃO SOBRE CULPA E RESPONSABILIDADE

A pesca vem sempre sendo acusada de crimes cometidos contra o meio ambiente marinho. Ela é sempre o alvo principal para medidas de repressão, e tome multas, apreensões de barcos, etc. Nesse filme de terror, a pesca é o inimigo a ser combatido e aniquilado.  Aparentemente, outros processos não existem, tipo poluição, vazamentos, despejo de esgotos. Até que um belo dia, como aconteceu na Baía de Sepetiba, um inimigo invisível causa uma mortandade de botos. O desastre que aconteceu era uma tragédia anunciada. A pesca não teve nada a ver com 170 botos mortos. De quem foi a culpa? Quem foi o responsável? Quem vai evitar a próxima tragédia, a morte da baía, a agonia do planeta?

MPF recomenda mais fiscalização para preservar botos-cinza na Baía de Sepetiba / Foto: Agência Brasil

Em agosto de 2015, uma reportagem da Agência Brasil informava que os botos-cinza da Baía de Sepetiba, no Rio de Janeiro, cercados por um dos maiores polos portuários do país, corriam o risco de desaparecer. “O refúgio dos animais está ameaçado por atividades industriais dos portos e pela pesca predatória. Para proteger os sobreviventes, estimados entre 760 e 920 animais, o Ministério Público Federal (MPF) recomendou aos órgãos ambientais que aumentem a fiscalização”, dizia a reportagem. E continuava: “A falta de fiscalização contra a pesca predatória, feita por grandes embarcações (traineiras) e redes de arrasto, é uma das principais ameaças ao animal, em Sepetiba, onde são encontrados grandes grupos.”

A fiscalização foi acionada. Em agosto de 2016, o Ibama intensificou a fiscalização contra a captura acidental de botos-cinza na Baía de Sepetiba.  “Após levantamento inédito, o Ibama multou em R$ 1,8 milhão 32 embarcações da frota atuneira nacional que pescavam ilegalmente na Baía de Sepetiba, no litoral fluminense”, informava o site do Ibama. E esclarecia: “Dos 32 barcos multados, todos eram atuneiros do sul e sudeste do país: 16 saíram de Santa Catarina, 4 do Rio Grande do Sul, 2 do Espírito Santo e 10 do Rio de Janeiro. No período fiscalizado, eles entraram na Baía de Sepetiba regularmente para capturar sardinhas-verdadeiras com rede de cerco – modalidade de pesca proibida para a região. Posteriormente elas seriam usadas como iscas-vivas na pesca do bonito-listrado, espécie-alvo dessa frota, já em alto mar.”

O “levantamento inédito” do Ibama foi feito através do PREPS. “O Programa de Rastreamento de Embarcações Pesqueiras por Satélite (PREPS) é um sistema que monitora a movimentação dos barcos de grande porte na costa brasileira. Para identificar os que estavam praticando pesca proibida no habitat do boto-cinza, a Operação Mareados, realizada pela área de Inteligência do Ibama, analisou o histórico de deslocamento da frota pesqueira àquela região nos últimos três anos”, dizia o site do Ibama.

Com isso, aparentemente, o inimigo foi abatido, a ameaça afastada e os botos-cinza estavam salvos.

Carcaças de botos-cinza mortos na Baía de Sepetiba. A tragédia veio de onde ninguém esperava / Foto: Instituto Boto Cinza


E os outros?
– Faltou combinar com os russos. Os botos-cinza estão ameaçados por todos os lados, cercados por todos os cantos. A cada santo dia desagua na Baía de Sepetiba cerca de 230 mil metros cúbicos de esgoto doméstico não tratado, segundo cálculo do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS). Existem mais de 450 instalações potencialmente poluidoras na região de entorno, incluindo indústrias, portos, siderúrgicas, aterros sanitários, tudo isso gerando grandes volumes de esgotos industriais com altos níveis de contaminação por metais pesados como cádmio, zinco e chumbo. Estimativas de pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) indicam que existem concentrações de até 8 mg/kg de cádmio nas águas da Baía de Sepetiba – em condições naturais, esta concentração não passaria de 0,2 mg/kg.

Outro grave problema são os níveis de zinco, estimados em valores entre quatrocentas e oitocentas vezes acima do nível máximo recomendado por organizações ambientais internacionais. “Altas concentrações de contaminantes desse tipo estão ligadas à depressão do sistema imune, principalmente em relação ao mercúrio, cádmio, chumbo, selênio e zinco, como foi o caso reportado para os golfinhos-nariz-de-garrafa”, registra documento elaborado pelo Laboratório de Bioacústica e Ecologia de Cetáceos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

É responsabilidade de todos nós a preservação dos botos, das baías, do planeta / Foto: Instituto Boto Cinza

O mesmo documento que aponta que as atividades de dragagem afetam negativamente os mamíferos marinhos. Assim sendo, o Ministério Público Federal (MPF) no Rio de Janeiro e em Angra dos Reis expediu Recomendação ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea) e à Companhia Portuária Baía de Sepetiba (CPBS) determinou a suspensão imediata da licença de dragagem de 1.837.421 m³ do fundo da Baía de Sepetiba, até a completa normalização do surto de morbilivirose causadora do óbito de quase duas centenas de botos-cinza nas Baías de Sepetiba e Ilha Grande. A dragagem foi autorizada pelo Inea no ano de 2017, e começou a ser realizada no último dia 12 de janeiro pela CPBS, que opera o terminal de minério da empresa Vale S.A.

O vírus – Um boletim técnico indicou que um surto de mobilivírus provocou a mortandade de cerca de 170 botos cinza na Baía de Sepetiba desde o fim de novembro. É a primeira vez que um surto causado por morbilivírus dos cetáceos é detectado na América do Sul. Os fatores que contribuíram para o início do surto ainda são desconhecidos e estão sendo investigados.

Morbilivírus (Morbillivirus) é o gênero de um vírus da família Paramyxoviridae. Algumas espécies de morbilivírus são muito estudadas por causar doenças conhecidas, como o sarampo (nos humanos), a cinomose (nos cães e focas) e a peste dos pequenos ruminantes (em cabras e ovelhas). Recentemente, o morbilivírus também foi associado à doença renal em gatos. O morbilivírus dos cetáceos afeta botos, golfinhos e baleias. No Brasil, ele foi detectado em golfinhos da espécie boto-cinza (Sotalia guianensis).

O vírus que atacou os golfinhos, segundo o pesquisador e veterinário do Maqua Elitieri Neto pode ter sido introduzido por outra espécie de cetáceo que não o boto-cinza e que também vive nas baías de Sepetiba e Ilha Grande. “A Baía de Ilha Grande recebe muitas espécies oceânicas de hábitos costeiros e com isso a interação entre cetáceos de diferentes espécies ocorre bastante. Então é uma hipótese para a introdução desse vírus”, disse Neto à Agência Brasil.

Ainda segundo o pesquisador, o morbilivírus dos cetáceos já causou surtos de mortalidade na Austrália, no Atlântico Norte e no Mediterrâneo em outras espécies de golfinhos, mas essa é a primeira vez que ocorre na América do Sul. “Em 2014 uma pesquisadora da USP observou este vírus em um boto que encalhou no litoral do Espírito Santo, ou seja, esse vírus já estava de certa forma em alguns cetáceos na costa brasileira, só que é a primeira vez que causa um evento de mortalidade em massa”, afirmou.

Não vamos salvar ninguém apontando o dedo para um inimigo preferencial, para um único culpado por tudo, para um bode expiatório / Crédito: ameblo.jp


Os humanos
– Não só os botos, mas também nós, os humanos, estamos ameaçados.  A demora e a falta de planejamento nas ações preventivas e a má distribuição dos recursos públicos – sem o foco nas cidades mais afetadas e onde ocorreram mais mortes pela doença- facilitaram o avanço da febre amarela no país, aponta estudo da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (DAPP/FGV).

O estudo dá especial atenção a Minas Gerais, que se transformou em termômetro das políticas de combate à doença no ano passado, quando 465 casos de febre amarela foram confirmados no Estado com 152 mortes, especialmente nas cidades da zona rural, na região noroeste do Estado.

O estudo sugere que os municípios mais atingidos pelo grande surto de febre amarela de 2017 – foram confirmados 777 casos da doença e 261 mortes no país – não foram tratados como prioridade ou sequer receberam reforço de vacinas, falha que, na visão dos pesquisadores, contribuiu para que a doença se espalhasse e continue a ser uma preocupação relevante para a população em 2018.

O estudo não deixa claro de quem é a responsabilidade – Estados, municípios ou governo federal -, mas aponta que alguma coordenação faltou para garantir que as vacinas chegassem até quem mais precisava.

Pensando bem, nós, os humanos, somos uma grande uma grande ameaça a nós mesmos. Uma ameaça global a todo o planeta. Principalmente quando, numa longa cadeia de eventos, escolhemos um inimigo preferencial para perseguir e deixamos de lado todos os outros dados, todas as outras causas e seus efeitos. Não vamos salvar ninguém – nem os botos, nem a Baía de Sepetiba, nem o Planeta – apontando o dedo para um inimigo preferencial, para um bode expiatório, para um único culpado por tudo. O buraco é sempre mais embaixo. Ou mais em cima. E nessa altura da tragédia não adianta eleger os culpados. No fundo, a questão não é de culpa ou desculpa, mas de responsabilidade social de todos os envolvidos. De todos e de cada um de nós, sem privilégio e sem exceção.

Pensando bem, nós somos uma grande uma grande ameaça a nós mesmos. Uma ameaça global a todo o planeta. Principalmente quando, numa longa cadeia de eventos, escolhemos um inimigo preferencial para perseguir e deixamos de lado todos os outros dados, todas as outras causas e seus efeitos. O buraco é sempre mais embaixo. Ou mais em cima. E nessa altura da tragédia não adianta eleger os culpados. No fundo, a questão não é de culpa ou desculpa, mas de responsabilidade social de todos os envolvidos. De todos e de cada um de nós, sem privilégio e sem exceção.

  

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