PALAVRA DO PRESIDENTE: TUDO QUE SEU MESTRE MANDAR

PALAVRA DO PRESIDENTE:

TUDO  QUE SEU MESTRE MANDAR


Tomar decisões de cima para baixo, sem consultar ninguém, não é a melhor saída. A pesca não é brincadeira e os trabalhadores do mar não são crianças sem noção. Qualquer decisão que envolva tanta gente e tantos interesses deve ser discutida, pesada, pensada e negociada. Na hora de decidir o seu destino, a pesca deve ter voz e vez, e direito a voz e veto.

Qualquer decisão que envolva tanta gente e tantos interesses deve ser discutida, pesada, pensada e negociada / Crédito: piacesprofit. hu

Já começaram as reuniões para resolver os eternos problemas da pesca. Neste ano teremos, como sempre, encontros e desencontros, acertos e desacertos, acordos e desacordos, decisões e indecisões. É preciso ressaltar um fato: há muita conversa e pouco diálogo. Como diz o velho ditado, “em casa onde falta pão, todos brigam e ninguém tem razão”. Precisamos encontrar um foco. Falar a mesma língua. Do contrário, não vamos chegar a lugar nenhum.

Os fatos estão aí. Existe uma espécie de consenso sobre a decisão do MAPA de suspender a certificação sanitária para pescados destinados à União Europeia, através do Memorando 209/2017 de 20/12/2017. O consenso é que faltou diálogo entre o MAPA e o setor pesqueiro. Como sempre, a decisão veio de cima para baixo. Como sempre, não fomos ouvidos.

O Brasil tinha 30 (trinta) dias para encontrar uma via mais adequada. Mas as autoridades brasileiras foram rápidas no gatilho: em apenas um dia resolveram ficar do lado dos europeus, sem fazer qualquer tentativa de  negociar um aumento de prazo e ganhar tempo para uma análise mais equilibrada. Enfim, não quiseram conversa. Não pensaram um minuto que tal decisão poderia se revelar, para muitos importadores internacionais, uma demonstração pública de fraqueza e de subserviência. Não puseram na balança os prejuízos que tal iniciativa causaria a um setor que vem lutando para sobreviver a duras penas.

Esse tipo de postura é a norma, é o normal na relação entre as autoridades e a pesca. Somos subalternos e cabe a nós obedecer as ordens vindas do alto. Não somos consultados e, quando isso acontece, não somos ouvidos. O que dizemos não passa de uma opinião sem valor. Nossa experiência de décadas não tem peso. Nossa vivência de várias gerações de trabalhadores do mar não é levada em conta. Falamos daquilo que vivemos, mas parece que não somos testemunhas confiáveis, somos simplesmente suspeitos.

Um bom exemplo desse tratamento discriminatório é o caso dos botos da Baía de Sepetiba.  A pesca foi eleita como uma das principais ameaças aos botos.  Em agosto de 2016, o Ibama intensificou a fiscalização.  “Após levantamento inédito, o Ibama multou em R$ 1,8 milhão 32 embarcações da frota atuneira nacional que pescavam ilegalmente na Baía de Sepetiba, no litoral fluminense”, informava o site do Ibama. E esclarecia: “Dos 32 barcos multados, todos eram atuneiros do sul e sudeste do país: 16 saíram de Santa Catarina, 4 do Rio Grande do Sul, 2 do Espírito Santo e 10 do Rio de Janeiro. No período fiscalizado, eles entraram na Baía de Sepetiba regularmente para capturar sardinhas-verdadeiras com rede de cerco – modalidade de pesca proibida para a região. Posteriormente elas seriam usadas como iscas-vivas na pesca do bonito-listrado, espécie-alvo dessa frota, já em alto mar.” O “levantamento inédito” do Ibama foi feito através do PREPS.

Com isso, o inimigo foi abatido, a ameaça afastada e os botos estavam salvos. Mas então veio a realidade.  Um boletim técnico indicou que um surto de mobilivírus provocou a mortandade de cerca de 170 botos cinza na Baía de Sepetiba desde o fim de novembro. É a primeira vez que um surto causado por morbilivírus dos cetáceos é detectado na América do Sul. Os fatores que contribuíram para o início do surto ainda são desconhecidos e estão sendo investigados.

Ninguém aqui está se fazendo de vítima. Mas é preciso acabar com esse jogo de “tudo que seu mestre mandar, faremos todos”. Qualquer decisão que envolva tanta gente e tantos interesses deve ser discutida, pesada, pensada e negociada.  A pesca não é brincadeira e os trabalhadores do mar não são crianças. Nessa luta por representação e por autonomia, cada um é mestre de seu barco. Cada um tem que fazer a sua parte. Cumprir o seu dever.  Honrar seus compromissos.

Por que a pesca é sempre a última a saber? Por que, quando chega a hora da verdade, a pesca não é convidada? Está na hora de ajustar os ponteiros. Precisamos marcar uma reunião para definir que nenhuma decisão sobre o setor pesqueiro será tomada sem a participação oficial de seus representantes. Nas decisões sobre o seu destino, a pesca deve ter voz e vez, e direito a voz e veto.

 

Alexandre Guerra Espogeiro,
Presidente do Saperj e do Conepe


Por que a pesca é sempre a última a saber? Por que, quando chega a hora da verdade, a pesca não é convidada? É preciso ajustar os ponteiros. É preciso acabar com esse jogo de “tudo que seu mestre mandar, faremos todos”. Cada um é mestre de seu barco. Cada um deve fazer a sua parte. Cumprir o seu dever.   Honrar seus compromissos. Precisamos marcar uma reunião para definir que nenhuma decisão sobre o setor pesqueiro será tomada sem a participação oficial de seus representantes.

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