NO FUNDO DO MAR DO RIO

NO FUNDO DO MAR DO RIO

A estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade está ali no calçadão de Copacabana, nas imediações do Posto 6, desde 30 de outubro de 2002. Às vésperas de sua inauguração, quando ainda estava envolta em plástico da cabeça aos pés, policiais do 19º BPM chegaram a abrir chamada via rádio sobre a localização de um indivíduo possivelmente asfixiado, confundindo a estátua do poeta com a vítima de um crime. Depois disso, a estátua sofreu diversos ataques. Mas continua resistindo. Como a cidade do Rio.

 

No Rio de Janeiro, o mar não está pra peixe. Estamos no fundo do mar no Rio. Mas vale a pena apelar para a poesia. A poesia de Carlos Drummond de Andrade.

“Escrita nas ondas
a palavra Encanto
balança os náufragos,
embala os suicidas”,

canta o poeta. E do alto dos edifícios a visão do mar é um privilégio:

“Neste terraço mediocremente confortável,
bebemos cerveja e olhamos o mar.
Sabemos que nada nos acontecerá.

O edifício é sólido e o mundo também.

Sabemos que cada edifício abriga mil corpos
labutando em mil compartimentos iguais.
Às vezes, alguns se inserem fatigados no elevador
e vem cá em cima respirar a brisa do oceano,
o que é privilégio dos edifícios.

O mundo é mesmo de cimento armado.

Certamente, se houvesse um cruzador louco,
fundeado na baía em frente da cidade,
a vida seria incerta… improvável…
Mas nas águas tranquilas só há marinheiros fiéis.


Como a esquadra é cordial!

Podemos beber honradamente nossa cerveja.”

É notícia velha, mas em setembro de 1711 a cidade foi atacada por uma esquadra francesa sob comando do corsário francês René Duguay-Trouin. Os defensores portugueses, incluindo o governador da cidade e um almirante da frota ancorada aqui, decidiram fugir. A cidade foi saqueada e teve que pagar um resgate.

Em 1893, na segunda Revolta da Armada, diversas unidades encouraçadas trocaram tiros com a artilharia dos fortes em poder do Exército.  Houve uma batalha na Ponta da Armação, em Niterói, então capital do Estado do Rio de Janeiro. A  capital foi transferida para a cidade de Petrópolis em 1894, de onde só retornou em 1903.

            Coisas do passado. Do presente. Do futuro. Desafios e duelos. Lutos e lutas. (Que tiro foi esse?) Mas viveremos, garante o poeta:

 “No mar estava escrita uma cidade,
no campo ela crescia, na lagoa,
no pátio negro, em tudo onde pisasse
alguém, se desenhava tua imagem,
teu brilho, tuas pontas, teu império
e teu sangue e teu bafo e tua pálpebra,
estrela: cada um te possuía.
Era inútil queimar-te, cintilavas.

Hoje quedamos sós. Em toda parte,
somos muitos e sós. Eu, como os outros.
Já não sei se vossos nomes nem vos olho
na boca, onde a palavra se calou. 

Voltamos a viver na solidão,
temos de agir na linha do gasômetro,
do bar, da nossa rua: prisioneiros
de uma cidade estreita e sem ventanas.

Mas viveremos.”

Viver. Sobreviver. Resistir. Não tem outra saída.

 

Mas viveremos:
http://nos-todos-lemos.blogspot.com.br/2011/10/mas-viveremos.html

Outras estátuas na orla do Rio:
http://artenarede.com.br/blog/index.php/tag/dorival-caymmi/

Os 10 melhores poemas de Carlos Drummond de Andrade:
https://www.revistabula.com/391-os-dez-melhores-poemas-de-carlos-drummond-de-andrade/

 

 

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