PALAVRA DO PRESIDENTE: PEIXE DERRAMADO

PALAVRA DO PRESIDENTE:
PEIXE DERRAMADO

Fala-se em Consulta Pública: consultam todo mundo, mas não a nós; publicam, e só vamos saber lendo a imprensa e o diário oficial. Fala-se de Audiência Pública: escutam todo mundo, principalmente as ONGs, quase todas internacionais, mas não a nós. Temos que correr atrás para sermos consultados e ouvidos. E quase sempre só chegamos lá depois do leite derramado. Na verdade, nosso papel tem sido administrar o leite derramado. É isso que continuamos a fazer: administrar o peixe derramado.

Está na hora de mudar.

Acompanhei com atenção o 8º Fórum Mundial de Água, que reuniu líderes de mais de 170 países em Brasília de 18 a 23 de março, de um domingo até uma sexta-feira. Eu já sabia que a capital do Brasil vinha sofrendo de seca e fazendo racionamento há algum tempo. Mas confesso que me surpreendi ao ler uma informação publicada no site “Notícias Agrícolas”. A reportagem dizia que moradores da cidade-satélite de Ceilândia “teriam que esperar o meio-dia desta quinta-feira para o Distrito Federal religar a água porque as torneiras de Brasília estariam jorrando no 8º Fórum Mundial da Água, a maior conferência do mundo sobre o uso do recurso natural. Normalmente a água destinada à área utilizada para o encontro trienal seria cortada nesta quinta-feira, mas o local está isento do racionamento nesta semana”.

         Será que os participantes do Fórum sabiam disso? E se soubessem iam preferir ficar sem água durante os debates? Ou esse seria o normal? Não dá para fazer um fórum e encontrar soluções sem tomar um banho, sem escovar dentes, sem beber água. Pessoas sem água estão ocupadas em encontrar um poço e não têm tempo para discutir sua sede e suas carências numa cidade no planalto central do Brasil. Pensei nisso e fui lavar as mãos.

         Mas não está nada fácil lavar as águas e enxugar os problemas. No dia 19, no segundo dia do 8º Fórum Mundial da Água, o ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, anunciou a criação de duas novas unidades de conservação marinha. Dois decretos foram assinados pelo atual presidente, publicados no Diário Oficial da União e ampliando de 1,5% para 25% a área protegida na zona costeira marinha, de acordo com as autoridades. Parabéns a todos.

Mas tudo isso é leite derramado. Ou peixe derramado. Explicando melhor.  A pesca tem um papel importante como poder marítimo auxiliar da Marinha do Brasil no exercício da vigilância de nossas águas jurisdicionais. No entanto, não fomos consultados durante as discussões que levaram à decretação das unidades de conservação: não participamos, não fomos avisados. Fala-se em Consulta Pública: consultam todo mundo, mas não a nós; publicam, e só vamos saber lendo a imprensa e o diário oficial, consultando o celular. Fala-se de Audiência Pública: escutam todo mundo, principalmente as ONGs, quase todas internacionais, mas não a nós. Temos que correr atrás para sermos ouvidos e consultados. E quase sempre só chegamos lá depois do leite derramado. Na verdade, nosso papel tem sido administrar o leite derramado. É isso que continuamos a fazer: administrar o peixe derramado.

 E tem hora que parece que estão anunciando grandes novidades, mas esquecendo e escondendo os velhos erros de sempre. É estranho que falem que vão preservar o imenso mar brasileiro, mas evitam falar dos lagos e das lagoas que viraram esgotos e estão agonizando diante de nossos olhos. Varrem para debaixo do tapete os rios que foram brutalmente assassinados diante da nação inteira, sem socorro às vítimas e sem punição dos culpados. Os mangues que são berçários da vida marinha, berçários dos oceanos, continuam sendo aterrados antes que qualquer coisa possa nascer neles. É imensa a lista dos desastres e das omissões que estão por trás dos anúncios gloriosos de proteção e salvação.

Nós fazemos parte do poder marítimo.  Somos a favor da pesca sustentável e queremos participar do nosso futuro. Ninguém vai conservar e proteger o mar brasileiro varrendo a pesca brasileira para debaixo do tapete. Não somos lixo. Não somos problema: fazemos parte da solução. Sim, nós fazemos parte de qualquer iniciativa para a proteção e conservação do mar brasileiro.

 

OLHO

Nós fazemos parte do poder marítimo.  Somos a favor da pesca sustentável e queremos participar do nosso futuro. Ninguém vai conservar e proteger o mar brasileiro varrendo a pesca brasileira para debaixo do tapete. Não somos lixo. Não somos problema: fazemos parte da solução. Sim, nós fazemos parte de qualquer iniciativa para a proteção e conservação do mar brasileiro.

 

Alexandre Guerra Espogeiro
Presidente do Saperj e do Conepe

 

 

 

 

 

 

Leia mais na revista Pesca & Mar 174

Veja também

UMA PRAIA, UMA GAROTA, UM TUBARÃO

A praia é deslumbrante: uma baía pequena e isolada, com ondas de um azul-turquesa cristalino ...

AÇÚCAR E SHAMPOO DE CAMARÃO

AÇÚCAR E SHAMPOO DE CAMARÃO Pesquisadores do Laboratório de Pesquisa em Produtos Naturais da Universidade ...

O SUPERCARAMUJO

Caramujo é visto devorando caravela-portuguesa em vídeo impressionante. Os caramujos pode ser surpreendentes. Os gastrópodes ...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *