JOÃO CABRAL DE MELO NETO: IMITAÇÃO DAS ÁGUAS

JOÃO CABRAL DE MELO NETO:
IMITAÇÃO DAS ÁGUAS

Poeta, diplomata brasileiro e autor do clássico “Morte e Vida Severina” (1966), João Cabral de Melo Neto morria no dia 9 de outubro de 1999, no Rio de Janeiro. Nascido em 9 de janeiro, de 1920, era avesso ao romantismo e à paixão em suas poesias. Seu trabalho é basicamente racional, com a construção elaborada e pensada da linguagem, preocupado em transformar toda a percepção em imagem de algo concreto, relacionado aos sentidos, em especial ao tato.

O estilo de João Cabral é árido, áspero, severo, matemático. Pode ser comparado às secas nordestinas. A qualquer seca.  A qualquer cacto. Talvez por, mas definitivamente não só por isso, ele foi capaz de compor um poema magnífico sobre a sedução infinita da água, sobre o abraço amoroso e sensual da onda.

 

Imitação das Águas

De flanco sobre o lençol,
paisagem já tão marinha,
a uma onda deitada,
na praia, te parecias.

Uma onda que parava
ou melhor: que se continha;
que contivesse um momento
seu rumor de folhas líquidas.

Uma onda que parava
naquela hora precisa
em que a pálpebra da onda
cai sobre a própria pupila.

Uma onda que parava
ao dobrar-se, interrompida,
que imóvel se interrompesse
no alto de sua crista

e se fizesse montanha
(por horizontal e fixa),
mas que ao se fazer montanha
continuasse água ainda.

Uma onda que guardasse
na praia cama, finita,
a natureza sem fim
do mar de que participa,

e em sua imobilidade,
que precária se adivinha,
o dom de se derramar
que as águas faz femininas

mais o clima de águas fundas,
a intimidade sombria
e certo abraçar completo
que dos líquidos copias.
Imagens:   Armand Dijcks – The Infinite Now

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