O PEIXE E O ICEBERG IMAGINÁRIO DE ELIZABETH BISHOP

O PEIXE E O ICEBERG IMAGINÁRIO DE ELIZABETH BISHOP

Fish & Boat, do artista M. C. Escher

 

Crédito: Ars Poetica et Humanitas

 

A poeta nadando numa piscina natural em Samambaia, Petrópolis – Crédito: Vassar College

 

Elizaberh Bishop / Crédito: theparisreview.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em novembro de 1951, a poeta americana Elizabeth Bishop embarcou em Nova York num navio mercante para o que seria uma longa viagem em redor da América do Sul.   Desembarcou em Santos, mas seguiu de trem para o Rio de Janeiro. No Rio, provando da hospitalidade dos nativos, ela mordeu um caju, fruta que lhe pareceu “indecente”, e foi acometida por violenta alergia, que deformou suas feições a ponto de impedi-la de enxergar por dias.  Foi ficando. Aqui nos trópicos, num país “sem classe média”, como ela repete em suas cartas, numa sociedade em miniatura na qual todos pareciam aparentados entre si, ela foi bem recebida em um círculo ainda mais restrito, o do grupo vanguardista, elegante e lésbico reunido em torno de Maria Carlota Costallat de Macedo Soares, conhecida como Lota. A história das duas está contada  no filme “Flores Raras”, dirigido por Bruno Barreto e baseado no livro “Flores Raras e Banalíssimas”, de Carmen L. Oliveira.

Bishop  é considerada uma das mais importantes poetas do século XX. Leia seus poemas  “O Peixe” e  “Iceberg Imaginário.

 

O Peixe  

Eu fisguei um peixe enorme
e o mantive ao lado do barco
metade fora d’água, com meu anzol
que lhe cravara o canto da boca.
Ele não lutou.
Ele não lutara mesmo nada.
Ele era um peso pendente
derrotado e venerável
e simples. De vez em quando
seu corpo marrom aparecia em listras
como antigo papel de parede,
e seus desenhos de marrom mais escuro
eram como o papel de parede:
formas de rosa desabrochadas a pleno,
manchadas e gastas pelo tempo.
Ele estava salpicado de óleo de navios,
de finas rosetas visgosas
e infestado
por pequenos piolhos marinhos
e por baixo dele pendiam
dois ou três farrapos de algas verdes.
Enquanto duas guelras estavam respirando o
terrível oxigênio
— as assustadoras guelras
frescas e eriçadas, com sangue,
e que podem cortar tão cruelmente —
pensei em sua rude carne branca
enfeixada como plumas,
os grandes e pequenos ossos
os dramáticos vermelhos e negros
de suas entranhas luzidias
e a bexiga avermelhada
como uma grande peônia.
Olhei dentro dos seus olhos
que eram bem maiores que os meus
porém mais rasos e amarelados,
a íris retraída e envolvida
em folha de estanho embaçada,
vista através de lentes
de um velho, arranhado esturjão.
Seu olhar se desviou um pouco porém não o bastante
para devolver o meu.
— Era mais como se recobrisse
um obejeto contra a luz.
Admirei-lhe a face sombria,
o mecanismo de sua mandíbula
e então vi
que de seu lábio inferior
— se é possível falar de lábio —
severo, úmido, agressivo
pendiam cinco antigas linhas de pescar
ou quatro, talvez, e um guia de metal
ainda com a argola
e com todos os cinco grandes anzóis
cravados firmes em sua boca.
E uma linha verde, desgastada na extremidade
em que ele a havia partido, e duas outras mais fortes
além de um fio preto e fino
ainda encrespado pelo esforço e pelo golpe
do momento em que ele escapou.
Eram como condecorações, como suas faixas
esfrangalhadas e oscilantes,
uma barba de sabedoria com cinco filamentos
que ele arrastava em sua mandíbula dolorida.
Eu olhei e olhei
e a vitória encheu
o pequeno barco alugado
surgida da água que havia entrado
e onde o óleo difundia um arco-íris
junto ao motor rnferrujado
e o rosa enferrujado da água baldeada
e o meu banco, que estava ao sol,
e os remos, nos seus encaixes,
e o interior do barco — e tudo, enfim,
era o arco-íris agora, era o arco-íris agora!
E eu deixei o peixe ir embora.

Tradução: Jorge Wanderley
Revisão: Gilson França

Iceberg Imaginário

O iceberg nos atrai mais que o navio,
mesmo acabando com a viagem.
Mesmo pairando imóvel, nuvem pétrea,
e o mar um mármore revolto.
O iceberg nos atrai mais que o navio:
queremos esse chão vivo de neve,
mesmo com as velas do navio tombadas
qual neve indissoluta sobre a água.
Ó calmo campo flutuante,
sabes que um iceberg dorme em ti, e em breve
vai despertar e talvez pastar na tua neve?
Esta cena um marujo daria os olhos
pra ver. Esquece-se o navio. O iceberg
sobe e desce; seus píncaros de vidro
corrigem elípticas no céu.
Este cenário empresta a quem o pisa
uma retórica fácil. O pano leve
é levantado por cordas finíssimas
de aéreas espirais de neve.
Duelo de argúcia entre as alvas agulhas
e o sol. O seu peso o iceberg enfrenta
no palco instável e incerto onde se assenta.
É por dentro que o iceberg se faceta.
Tal como joias numa tumba
ele se salva para sempre, e adorna
só a si, talvez também as neves
que nos assombram tanto sobre o mar.
Adeus, adeus, dizemos, e o navio
segue viagem, e as ondas se sucedem,
e as nuvens buscam um céu mais quente
O iceberg seduz a alma
(pois os dois se inventam do quase invisível)
a vê-lo assim: concreto, ereto, indivisível.

Tradução: Paulo Henriques Britto

 

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