MAR DE SANGUE

Tradição de matar baleias em ilha da Dinamarca revolta ambientalistas. Governo local regulamenta prática e argumenta que matança faz parte de cultura secular.

Leia texto  de Sergio Matsuura.

Matança de baleias nas Ilhas Faroe, território da Dinamarca / Divulgação/Sea Shepherd

Uma prática centenária e controversa está gerando comoção entre ambientalistas, mas uma forte defesa do governo das Ilhas Faroe. Conhecida como “grindadráp”, a caça de baleias e golfinhos no pequeno arquipélago entre a Escócia, a Noruega e a Islândia acontece durante os verões no Hemisfério Norte, com registros que remontam ao ano de 1.584. Para a população local, trata-se de uma longa tradição que reforça os laços comunais e deve ser respeitada, mas críticos argumentam que a matança é desnecessária e, apesar de legal, representa desprezo pela vida dos animais.

Prática de matar baleias é tradição e população defende que ela continue /Foto: Divulgação/Sea Shepherd

Imagens divulgadas pela ONG Sea Shepherd são chocantes. Em cada caçada dezenas de baleias-piloto e alguns golfinhos de diferentes espécies são mortos após serem encurralados nas praias, com cortes profundos no pescoço que rompem a medula espinhal. A técnica foi regulamentada pelo governo como uma forma de “humanizar” a matança, pois a morte acontece em poucos minutos. O sangue se espalha rapidamente, pintando o mar de vermelho.

A caçada começa com o avistamento de baleias perto de alguma das 23 praias aprovadas para o “grindadráp”. Rapidamente, uma multidão é mobilizada por meio de mensagens, redes sociais e sites de notícias. Algumas empresas e escolas liberam funcionários e estudantes para que possam participar do evento. Pescadores zarpam com barcos, lanchas e jet skis e cercam o grupo de cetáceos para conduzi-los para a costa, onde matadores licenciados os aguardam com ganchos para imobilizar e puxar os animais e facas afiadas para o abate.

— A caça é quase um orgulho nacional, tratada como um evento esportivo. Algumas escolas liberam os alunos. Famílias inteiras, até com bebês de colo, vão para as praias acompanhar. Só homens podem participar propriamente da caça, as mulheres e crianças só podem assistir e brincar com as baleias mortas — relata Robert Read, diretor de operações da Sea Shepherd do Reino Unido. — A população é incentivada a pensar que isso é normal, mas não é. Não há matança de baleias como essa em nenhuma outra parte do mundo. Eles exterminam o grupo inteiro, incluindo fêmeas grávidas e animais jovens.

Em média, cerca de 800 baleias-piloto são mortas anualmente, mas o número varia. Ano passado, por exemplo, foram 1.203 baleias e 488 golfinhos, mas em 2016 foram apenas 295 baleias. Os registros indicam que nas últimas cinco décadas mais de 62 mil baleias e golfinhos foram mortos no “grindadráp”. O governo argumenta que a prática é sustentável, citando números da Comissão Baleeira Internacional que estima em 780 mil o número de baleias-piloto nos mares do Atlântico. Os números, porém, são de 1989.

 — A caça de baleias era uma tradição em vários países, inclusive aí no Brasil e aqui no Reino Unido — critica Robert Read, diretor de operações da Sea Shepherd do Reino Unido.  — O canibalismo também era tradição em algumas regiões do mundo.

 Leia mais: Tradição sangrenta

https://oglobo.globo.com/sociedade/sustentabilidade/tradicao-de-matar-baleias-em-ilha-da-dinamarca-revolta-ambientalistas-22999572

‘Blood in the water’: Controversial whale cull in Faroe Islands

https://www.news.com.au/technology/science/animals/blood-in-the-water-controversial-whale-cull-in-faroe-islands/news-story/15189a40a39ff7cac8130e824d0ce794