INCÊNDIO CULTURAL

“Eu vejo o futuro repetir o passado. Eu vejo um museu de grandes novidades. O tempo não para”, cantava Cazuza. E o Museu Nacional vai continuar pegando fogo. Por muito tempo. O fogo não para.

Museu Nacional do Rio de Janeiro em chamas | Foto: Wikimedia Commons / Unicamp

 

“Eu vejo o futuro repetir o passado” / Crédito: Reuters/R. Moraes

 

Criado pelo rei Dom João VI de Portugal, no dia 6 de junho de 1818, a instituição é considerada a quinta maior do mundo por seu patrimônio e inclui coleções compostas por dezenas de milhares de objetos provenientes de várias civilizações da América, Europa e África. RICARDO MORAES REUTERS / EL País

 

O museu ainda vivo / Foto: Reprodução: Robero da Silva / Museu Nacional

 

Vista aérea mostra o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, após incêndio; ao fundo, o estádio do Maracanã – 03/09/2018 (Ricardo Moraes/Reuters) / Veja

 

 

O incêndio que destruiu o Museu Nacional é tragédia repetida. Vem lá de trás, de muitos passados.

De acordo com o Gizmodo, diversos prédios sob custódia da UFRJ, que sofre com falta de orçamento, sofreram incêndios nesta década:

Em 2011, um dos prédios no campus da universidade na Praia Vermelha, pegou fogo;

Em 2012, o prédio da Faculdade de Letras também sofreu com um incêndio;

Em 2014, foi a vez do Laboratório do Centro de Ciências da Saúde;

Em 2016, o 8º andar da Reitoria da UFRJ também pegou fogo;

Em 2017, houve um incêndio no alojamento estudantil da universidade e um estudante ficou ferido.

Museus e espaços culturais e científicos brasileiros também não escapam do histórico:

Em 2008, Teatro Cultura Artística, em São Paulo, sofreu um incêndio;

Em 2010, foi a vez do Instituto Butantan, que perdeu o maior acervo de cobras do Brasil;

Em 2013, o auditório do Memorial da América Latina também foi atingido;

Em 2013, o acervo do Museu de Ciências Naturais da PUC Minas também foi vítima;

Em 2014, o fogo destruiu o acervo do Centro Cultural Liceu de Artes e Ofícios;

Em 2015, o Museu da Língua Portuguesa também foi acometido pelo fogo;

Em 2016, a Cinemateca Brasileira pegou fogo.

E era uma tragédia anunciada:

Pesquisadores e funcionários sabiam que mais cedo ou mais tarde essa dor seria inevitável. “Você pega nos depoimentos dos ex-diretores sobre a questão de verbas e apoio do governo. Sempre foi dramático, sempre foi escasso. Aí está o resultado. Era uma tragédia anunciada”, diz o geólogo Renato Cabral Ramos.

A presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Kátia Bogéa, disse que desde 2004 o Iphan pedia providências. “A universidade não paralisou a instituição. O Corpo de Bombeiros, também responsável por vistoria, também não paralisou a instituição”. O Corpo de Bombeiros declarou que não havia registro de risco iminente no local que justificasse a interdição.

Ainda em 2004, conforme o arquivo da Agência Brasil, Wagner Victer, então secretário estadual de Energia, Indústria Naval e Petróleo, denunciava várias irregularidades no espaço. “O museu vai pegar fogo. São fiações expostas, mal conservadas, alas com infiltrações, uma situação de total irresponsabilidade com o patrimônio histórico”, afirmou na época.

Em uma reportagem de maio deste ano, a Folha de S. Paulo já denunciava os problemas de manutenção do Museu Nacional: desde 2014, a instituição não recebia integralmente a verba de R$ 520 mil anuais que bancam sua manutenção. Meio milhão de reais.

O pior momento foi em 2015, quando o Museu chegou a fechar por falta de dinheiro. Não havia dinheiro para pagar serviços básicos como limpeza e vigilância. Naquele ano, 257 mil reais foram destinados ao espaço, praticamente a metade do valor ideal.

A tragédia é velha: tem profetas, tem cúmplices, tem projetos futuros.

E para quem acha que nós não temos nada a ver com esse peixe: “Setor de Ictiologia (peixes): Este setor foi o berço da ictiologia nacional, através da publicação de obras monumentais, como a Fauna Brasiliensis (1907-1915) de Alípio Miranda-Ribeiro, entre outras. O acervo consta de 500.000 exemplares de peixes incluídos em cerca de 40.000 lotes, representativos da fauna de peixes de todas as principais bacias hidrográficas de Brasil. O Setor tem a responsabilidade pela guarda de mais de 2.000 exemplares ‘tipo’. O acervo encontra-se em fase de e modernização de seus protocolos de curadoria, com o catálogo da coleção totalmente informatizado”.  Está lá no site do Museu Nacional, que ainda continua pegando fogo. Para sempre: a piscina está cheia de ratos no país em que as ideias não correspondem aos fatos.

Veja Também:

“Eu vejo um museu de grandes novidades”

https://www.kboing.com.br/cazuza/o-tempo-nao-para/

Incêndio cultural:

https://gizmodo.uol.com.br/museu-nacional-incendio/

Tragédia anunciada:

https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2018/09/03/pesquisadores-e-funcionarios-do-museu-nacional-dizem-que-incendio-era-tragedia-anunciada.ghtml

Vídeo: Tragédia anunciada:

https://globoplay.globo.com/v/6992244/

O Brasil queimou – e não tinha água para apagar o fogo

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/03/opinion/1535977788_585805.html

Herdeiros de Luzia

https://oglobo.globo.com/rio/herdeiros-de-luzia-23036837