UM BOM PRATO: ÁGUA-VIVA

UM BOM PRATO: ÁGUA-VIVA

Por que deveríamos comer água viva para salvar os oceanos.

É até possível que a água-viva ajude a estabilizar as redes alimentares do oceano, proporcionando uma opção de refeição para outros animais quando os tempos estão difíceis / Crédito: Hassan Ammar/Associated Press

 

As águas-vivas (também conhecidas como medusas) e as caravelas são animais de beleza incomum, perigosas, e agora comestíveis / Crédito: Vix

 

“Tive a oportunidade de experimentar medusa em várias circunstâncias e pratos ao longo dos últimos anos”, diz o cientista Agustín Schiariti / Foto: Martin Etchegaray

 

Snacks chineses que contêm medusa/água-viva / Foto: Martin Etchegaray

 

Antes de mais nada: água-viva ou medusa? Tanta faz. Uma e outra. A medusa (Cyanea lamarchi), também chamada de mãe d’água e água-viva, alforrecas, são formas de vida livre dos cnidários adultos, pertencentes às classes Scyphozoa, Hydrozoa e Cubozoa. Quase todas as medusas habitam os oceanos. Se você chamá-las de caravelas, elas atendem. (Em inglês é jellyfish. Em francês, méduse.)

Em frente. Em artigo publicado no “New York Times”, Carl Zimmer argumenta que, para um peixe faminto em busca de uma refeição, uma água-viva parece uma grande decepção. Esses animais gelatinosos são 95% de água e fornecem apenas cinco calorias.

Não deveria ser surpresa, portanto, que os biólogos marinhos há muito tempo descartassem a água-viva como um item insignificante no cardápio oceânico. Outros animais raramente se incomodavam em comê-los, diziam eles, e assim representavam um beco sem saída na rede alimentar do oceano.

“Historicamente, eles foram simplesmente ignorados”, disse Thomas K. Doyle, biólogo marinho da University College Cork, na Irlanda.

Mas pesquisas recentes mostraram que isso é uma visão equivocada. Muitas espécies, do atum aos pinguins, procuram a água-viva para comer. “Quanto mais olhamos, mais os animais estão se alimentando de água-viva”, disse o Dr. Doyle. “Ela é absolutamente importante”.

É até possível que a água-viva ajude a estabilizar as redes alimentares do oceano, proporcionando uma opção de refeição para outros animais quando os tempos estão difíceis.

“Nossa percepção mudou muito”, disse Jonathan D.R. Houghton, biólogo marinho da Universidade Queen’s Belfast, na Irlanda do Norte. “É quase uma reinicialização da ecologia de águas-vivas como parte central do sistema oceânico”.

Explosão da medusa/água-viva – De acordo com Martin Etchegaray, em reportagem publicada no “El País”, a explosão das medusas em todo o mundo se deve a uma série de fatores inter-relacionados. Uma das principais causas é o excesso de pesca de seus predadores naturais, como o atum, o que ao mesmo tempo elimina a concorrência pelo alimento e o espaço de reprodução. Em paralelo, diversas atividades humanas em regiões costeiras também ajudam a explicar o fenômeno: ali onde enormes quantidades de nutrientes são jogadas no mar (em forma de resíduos agrícolas, por exemplo), produzindo grandes explosões de populações de algas e plânctons, que consomem o oxigênio da água e geram as denominadas zonas mortas. Não muitos peixes e mamíferos aquáticos conseguem sobreviver nelas, mas as medusas sim, e além disso encontram no plâncton uma fonte de alimentação abundante e ideal. Quando as populações de medusas conseguem se estabelecer, as larvas de outras espécies acabam sendo parte do cardápio também, desequilibrando a cadeia trófica.

As medusas são, além disso, um dos poucos vencedores naturais da mudança climática, já que seu ciclo reprodutivo é favorecido pelo aumento da temperatura nos ciclos oceânicos. Mas há mais fatores. Existem evidências de que certas espécies de medusa se reproduzem com mais facilidade junto a estruturas costeiras artificiais, como molhes e píeres. Por isso, é difícil saber se os esforços para deter, ou até reverter a mudança climática, representam uma solução à crescente presença de medusas nos mares, pelo menos enquanto continuem gerando problemas em ecossistemas costeiros e cadeias alimentares marinhas.

Comer medusa água-viva – “Sim, eu sou o homem medusa”, brinca Agustín Schiariti em seu escritório no Instituto Nacional de Desenvolvimento Pesqueiro (INIDEP). Ali, no âmbito do programa de Ecologias Pesqueiras, Schiariti lidera a investigação sobre medusas.

O cientista não considera que a mudança climática sirva de explicação para a proliferação de medusas em todo o mundo e, apesar de o fenômeno ser visto como uma maldição para muitos, também pode ser percebido com bênção. “A proliferação se torna um problema no planeta e, em paralelo, há muitas formas de nos beneficiarmos disso. A produção de alimentos é, talvez, a mais realista e viável de todas”, diz.

Schiariti, com sua disposição amável de professor universitário, está estudando há 15 anos as populações de medusas. Sua experiência de campo, no contexto da explosão demográfica global, o levou a promover a medusa como fonte de alimentação.

Para começar, é importante reconhecer que a medusa tem valor nutricional. São, basicamente, “proteínas, água e sal, com quase nenhum conteúdo gorduroso”, explica. “Não as consideraria um prato principal, mas funcionam muito bem como acompanhamento de outros preparos.”

“Tive a oportunidade de experimentar medusa em várias circunstâncias e pratos ao longo dos últimos anos”, continua. “Tem uma textura estranha, pelo menos para os meus padrões: macia e crocante ao mesmo tempo. E isso é possível? Em relação ao sabor, não é tão ruim quanto se pode imaginar. É salgada, com um sabor suave, quase como um broto de soja. Certamente não é o que há de mais inesquecível a se provar, mas também não é o pior.”

 

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