PALAVRA DO PRESIDENTE: A PESCA EXISTE, INSISTE E RESISTE

PALAVRA DO PRESIDENTE:
A PESCA EXISTE, INSISTE E RESISTE

Candidatos e presidentes podem até virar as costas para a pesca, mas ela existe. A pesca pode parecer invisível, mas seus barcos, seus mestres e seus pescadores ocupam o mar brasileiro há várias gerações.  Mesmo remando contra todas as marés, a pesca existe, insiste e resiste.

Somos cascudos e perseverantes como o mexilhão agarrado na pedra, apanhando das ondas, mas firme forte, resistindo / Crédito: João Palmela

 

Como sempre, de quatro em quatro anos, os candidatos à Presidência da República prometem que vão salvar a Pátria. A partir do dia em que o vencedor tomar posse, todos os hospitais deixarão de ter filas, a doença vai acabar e o povo só vai ter saúde. Nas escolas, os professores não serão mais humilhados pelos alunos e o número de analfabetos funcionais será reduzido a zero. A segurança será perfeita: todo pai de família beijará seus filhos e sairá de casa com a certeza de que voltará do trabalho sem ser vítima de bala perdida ou achada. A cultura vai ter prestígio: todos seremos cultos e nenhum museu pegará fogo. O Brasil finalmente chegará ao futuro, ao primeiro mundo, e se transformará num paraíso.

E a pesca? Quem falou em pesca? Ninguém fala em pesca em campanha eleitoral e muito menos depois de receber a faixa presidencial. Todo mundo sabe que somos um país rodoviário e que o mar brasileiro só existe para tirar petróleo. Na verdade, nem o próprio mar existe: o importante mesmo é a Petrobras, uma empresa que tem o propósito de “prover a energia que move pessoas e empresas a realizarem o seu potencial”. O que é um barquinho de pesca à sombra de uma imponente plataforma da Petrobras? Um empecilho, um estorvo, uma ameaça, e se entrar na área de exclusão de 500 metros está sujeito a prisão e multa pela Marinha e pelo Ibama.

Mas, pensando bem, é preciso separar pesca e política.  Mais precisamente: pesca e política pesqueira.

Na verdade, já tivemos um Ministério de Pesca e Aquicultura. Criado em 2009, o MPA seria “responsável pela implantação de uma política nacional pesqueira e aquícola, transformando esta atividade econômica em uma fonte sustentável de trabalho, renda e riqueza”. A atuação do governo federal estaria “fundamentada nos marcos de uma política de gestão e ordenamento do setor da aquicultura e pesca, aumentando o compromisso com a sustentabilidade ambiental no uso dos recursos”, resultando numa aposta na “construção de infraestruturas e equipamentos que permitam uma melhor estruturação da cadeia produtiva, especialmente na fase de beneficiamento e agregação de valor e no aumento da produção de pescado”, etc.

Promessas.  Palavras.  O Ministério não se traduziu em investimentos governamentais ou na consolidação de políticas públicas voltadas à gestão pesqueira profissional. Não foi estabelecido um programa de monitoramento da produção pesqueira em escala nacional. Até hoje não sabemos quem pesca (existe muita gente pescando, aqui de dentro e lá fora, clandestinamente).  Como não sabemos quem pesca, também não sabemos quanto se pesca.

 Se fôssemos um jovem adolescente, estaríamos sofrendo uma tremenda crise de identidade. Mas já temos muito mar, muitas tempestades e calmarias. Somos cascudos e perseverantes como o mexilhão agarrado na pedra, apanhando das ondas, mas firme e forte, resistindo.   O SAPERJ acabou de comemorar 70 anos no dia 8 de junho. A gente estava tão distraído, correndo atrás de tainhas e atuns, sardinhas e camarões, correndo atrás do prejuízo, que esquecemos de comemorar a data. Fica aqui o registro. Sobreviver é uma vitória.

O Ministério acabou naufragando na política. Nós continuamos navegando, fazendo a nossa parte, pescando. Candidatos e presidentes podem até virar as costas para a pesca, mas ela existe. A pesca pode parecer invisível, mas seus barcos, seus mestres e seus pescadores ocupam o mar brasileiro há várias gerações. Mesmo remando contra todas as marés, a pesca existe, insiste e resiste.

OLHO

Se fôssemos um jovem adolescente, estaríamos sofrendo uma tremenda crise de identidade.  O SAPERJ acabou de comemorar 70 anos no dia 8 de junho. A gente estava tão distraído, correndo atrás de tainhas e atuns, sardinhas e camarões, correndo atrás do prejuízo, que esquecemos de comemorar a data. Fica aqui o registro. Sobreviver é uma vitória.

 

Alexandre Guerra Espogeiro
Presidente do SAPERJ e do CONEPE

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