BOB DYLAN E OS PIRATAS DA JENNY

“Eu estava sempre à procura de alguma coisa no rádio. Assim como trens e sinos, o rádio fazia parte da trilha sonora da minha vida”, diz Dylan. Mas foi uma canção de Bertolt Brecht e Kurt Weill que abriu o portal para ele chegar a si mesmo e ver a luz do som.

“Fui direto para dentro desse mundo. Ele estava escancarado. Uma coisa era certa: não apenas não era governado por Deus, como também não era governado pelo diabo” – Bob Dylan depois de inventar Bob Dylan / Foto: Médium

 

Bob Dylan (nascido Robert Zimmerman) num banco do Sheridan Square Park, em New York, no dia 22 de janeiro de 1965 / Foto: Fred W. McDarrah/Getty Images

 

Parceiros da pesada: Kurt Weill e Bertolt Brecht / Crédito: Alamy/Getty

 

A pirada Jenny Pirata / Crédito: Pinterest

 

Geni e o Zepelim – Crédito: mulherescantadas.wordpress.com

 

Bob Dylan no clip de “Subterranean Homesick Blues”, em Londres, 1965. O cara de cachecol é o poeta beat Allen Ginsberg  / Foto: D.A. Pennebaker—Courtesy Morrison Hotel Gallery

 

Em 1961, Robert Allen Zimmerman tinha 20 anos, estava ralando em Nova York, namorando uma certa Suze, cavando um jeito de se inventar como Bob Dylan. Então veio o clic, o clarão, a luz acendeu. “Minha perspectiva a respeito de tudo estava prestes a mudar. O ar logo estaria carregado de intensidade e se tornaria mais potente. Minha pequena choupana no universo estava prestes a se expandir em uma gloriosa catedral, pelo menos quanto à composição. Suze estivera trabalhando nos bastidores de uma produção musical no Theatre de Lys, na Christopher Street. Era uma apresentação de canções escritas por Bertolt Brecht, o marxista alemão antifascista cujas obras foram banidas da Alemanha, e Kurt Weil, cujas melodias eram uma combinação tanto de ópera como de jazz”, escreve Bob Dylan em Crônicas. Volume Um (São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2005).

“Canções com uma linguagem da pesada. Eram erráticas, desritmadas, espasmódicas – visões estranhas. Os cantores eram ladrões, garis ou malandros, e todos rugiam e rosnavam”, lembra Dylan. “A canção que causou a impressão mais forte foi uma balada de fazer a plateia vir abaixo, ‘A Ship the Black Freighter’. O verdadeiro nome era ‘Pirate Jenny’, mas não ouvi isso na canção, por isso não sabia o verdadeiro nome”.

 A canção era “Jenny dos Piratas”, da Ópera dos Três Vinténs, e aí vai ela numa versão de Luiz Roberto Galizia:

 

 Meus senhores hoje eu lavo copos
Faço as camas de todo mundo
Me atiram um mísero tostão e eu logo agradeço,
Limpo a mão no avental, mas eu sei:
Que um dia eu vou sair daqui. (BIS)

Certa noite um grito vai se ouvir
E vocês vão perguntar: “Quem foi que gritou no cais?”
Vão me ver lavando os copos e sorrindo.
Vão perguntar: “Por que é que ela sorri?”

Um navio de piratas
Com cinquenta canhões
Aporta no cais.

Vocês vão me dizer, lave os copos, menina,
E um tostão vão me atirar;
Vou guardar o dinheiro, suas camas arrumar, mas eu sei
Que nelas ninguém nunca mais vai se deitar
Só eu sei o que vai se passar (BIS)

Nesta noite um estrondo vai se ouvir
e vocês vão perguntar: “O que aconteceu no cais?”
Da janela estarei tudo espiando
Vão perguntar:  “O que faz ela ali?”

Um navio de piratas
Com cinquenta canhões
Tudo vai bombardear

A alegria de suas caras vai desaparecer
Porque tudo irá pelos ares
E quando a cidade estiver toda arrasada,
Restará de pé apenas este mísero hotel
“Quem será que da tragédia escapou?” (BIS)

E durante a noite vão berrar,
Perguntando sem parar: “Quem será que vive ali?”
De manhã, então, eu abrirei a porta.
Vão perguntar: “Quem é esta mulher?”

Um navio de piratas
Com cinquenta canhões
As velas enfunará

No final da manhã, cem piratas desembarcam
Em silêncio vão avançando
E um por um de vocês eles vão acorrentar
E aos meus pés atirar, para depois me perguntar:
“Quem é que você quer que matemos?” (BIS)

Haverá silêncio em todo o cais,
Quando ele me perguntar: “Quem é que deve morrer?”
Minha voz então será ouvida: TODOS!
E quando as cabeças rolarem eu direi: Oba!

Um navio de piratas
Com cinquenta canhões
Pra bem longe vai me levar

No seu livro de crônicas, Dylan afirma que, se não tivesse ido ao Theatre de Lys e ouvido a explosão furiosa da Jenny dos Piratas, não teria escrito suas próprias canções, não teria sido Bob Dylan, e, aqui entre nós, não teria ganho o Prêmio Nobel de Literatura de 2016, um prêmio que, por falar nisso, ninguém jamais sonhou em conceder a Bertolt Brecht.

A Jenny tem uma versão nada raivosa, nada irada: é a Geni (joga pedra na Geni! joga bosta na Geni!) da Ópera do Malandro do Chico Buarque, inspirada na ópera de Brecht. Chico transformou o navio pirata em zepelim, e o fel em mel. Nas palavras de Maria Alice Vergueiro, “o eu lírico de Chico parece ter um certo dó, um sentimento de piedade pelo feminino. A mulher se afigura como vítima, e desdobra o rosário de sua condição, como acontece com Geni, a do Zepelim. Esta salva a cidade de uma explosão, e é condenada a levar ‘bosta’ da sociedade após seu ato heroico. (…) Na verdade, tratam-se de abordagens e visões de mundo totalmente diferentes”.

Se a Jenny é canibal, a Geni é sentimental. E nem a Jenny nem a Geni conhecem a Jenifer.

E Bob Dylan é Bob Dylan.

 

Nina Simone: Pirate Jenny

https://www.letras.mus.br/nina-simone/92781/traducao.html

Geni e o Zepelim – Letícia Sabatella (Chico Buarque)

https://www.youtube.com/watch?v=OJrWg98pXq4

Bob Dylan: When the Ships Comes In

https://www.letras.mus.br/bob-dylan/300248/traducao.html

Bob Dylan: Talking New York

https://www.letras.mus.br/bob-dylan/310702/traducao.html

Bob Dylan: Subterranean Homesick Blues

https://www.letras.mus.br/bob-dylan/11934/traducao.html

Bob Dylan: It’s Alright, Ma (I’m Only Bleeding)

https://www.letras.mus.br/bob-dylan/310572/traducao.html

Bob Dylan: Dignity

https://www.letras.mus.br/bob-dylan/310502/traducao.html

Jenny: a dos Piratas, Geni: a do Zepelim, Grace: a do Dogville

https://liriodoinferno.wordpress.com/2007/06/26/jennya-dos-piratas-geni-a-do-zepelim-grace-a-do-dogville/

 

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