CONRAD: HOMENS, BARCOS E CORAÇÃO APOCALIPSE

“Procurei ser um trabalhador sóbrio durante toda a minha vida – todas as minhas duas vidas”, disse Conrad. Duas vidas: a terrestre e a marítima; a cotidiana e a literária; a do corpo e a da alma / Crédito: Homo Literatus
“Lidar com homens é uma arte tão bela quanto lidar com barcos” / Imagem: Pinterest
“Apenas amo as letras; mas o amor pelas letras não faz um literato, assim como o amor pelo mar não faz um marinheiro” / : Ilustração de Bill Bragg- New York Times
“Já lutei contra a morte. É a luta mais desinteressante que vocês podem imaginar” / Crédito: Mercado Livre

Joseph Conrad nasceu Józef Teodor Konrad Nalecz Korzeniowski, filho de pais poloneses, na cidade de Berdichev, na Ucrânia dominada pela Rússia czarista, em 1857. Aos onze anos de idade, ficou órfão de pai e mãe. Em 1874, ainda garoto, foi viver no mar. Vinte anos depois, em 1894, abandonou uma carreira bem-sucedida (chegou à posição de capitão-de-longo-curso) para se dedicar à literatura. Escreveu, ao todo, dezessete romances, entre eles “Lord Jim” (1900), e sete novelas, entre as quais se destaca “Coração das trevas” (1902).

         Na nota de introdução ao seu livro “O Espelho do Mar seguido de Um Registro Pessoal” (Iluminuras, 3ª edição, 2002), Conrad escreve: “Dentro destas páginas, faço uma confissão completa, não de meus pecados, mas de minhas emoções. É o melhor tributo que minha piedade pode oferecer aos formadores supremos do meu caráter, de minhas convicções e, em certo sentido, de meu destino – ao mar imperecível, aos navios que já não existem e aos homens simples cujo tempo passou”.

         Segue um trecho de “O Espelho do Mar”, escrito há exatos 100 anos, em que Conrad reflete sobre barcos e homens. Ele entende do assunto como ninguém. Vai fundo.

HOMENS E BARCOS

“Todas as embarcações são manejadas da mesma maneira no que tange à teoria, assim como se pode lidar com todos os homens com base em princípios rígidos e amplos. Mas se quisermos obter aquele sucesso na vida resultante da afeição e da confiança de nossos companheiros, não lidaremos da mesma maneira com nenhum par de homens, por semelhantes que possam parecer suas naturezas. Pode haver uma regra de conduta, mas não há nenhuma regra para o companheirismo humano. Lidar com homens é uma arte tão bela quanto lidar com barcos. Homens e barcos vivem ambos num elemento instável, estão sujeitos a influências poderosas e sutis e querem mais o reconhecimento de seus méritos do que a revelação dos seus defeitos. (…)

Mesmo quando lutamos seriamente uns contra os outros, continuamos irmãos nas profundezas de nosso intelecto e na incerteza de nossos sentimentos. Com barcos não é assim. Por mais que possam significar para nós, eles nada significam uns para os outros. Essas criaturas sensíveis não têm ouvidos para nossas adulações. Às vezes é preciso mais que palavras para persuadi-los a obedecerem nossas vontades, a nos cobrirem de glória. (…)

As embarcações não têm ouvido, repito, muito embora creio ter conhecido algumas que realmente pareciam ter olhos, sem o que o não conseguiria entender como um barco de mil toneladas que conheci em certa ocasião recusou-se a obedecer ao leme, evitando assim uma pavorosa colisão de dois navios e salvando a reputação de um excelente mestre. (…)

Sim, nossos barcos não têm ouvidos, por isso não podem ser enganados. Eu ilustraria minha ideia de lealdade entre homem e barco, entre o mestre e sua arte, com uma declaração que, por sofisticada que possa parecer, é realmente muito simples. Eu diria que o capitão de um veleiro esportivo que não pensasse em mais nada exceto na glória de ganhar a regata, jamais atingiria uma sólida reputação. Os verdadeiros mestres de seus ofícios – digo isto com a segurança de minha experiência com navios – não pensaram em fazer o melhor que podiam com o barco sob o seu comando. Esquecer-se de si, sujeitar todo sentimento pessoal a serviço dessa bela arte, eis o único meio de um marinheiro ser fiel ao cumprimento do seu dever.”

CORAÇÃO APOCALIPSE E O HORROR! O HORROR!

“O meu destino! Que coisa engraçada é a vida – esse arranjo misterioso de lógica impiedosa visando algum desígnio fútil. O máximo que dela se pode esperar é um certo conhecimento de si mesmo – que chega tarde demais – uma safra de remorsos inextinguíveis. Já lutei contra a morte. É a luta mais desinteressante que vocês podem imaginar. Ocorre numa insubstancial área cinzenta em que não há nada sob os pés, nada à nossa volta, sem testemunhas, sem clamor, sem glória, sem o grande desejo da vitória, sem o grande medo da derrota, numa atmosfera malsã de morno ceticismo, sem muita confiança no seu próprio direito e menos ainda no da adversária. Se é essa a forma de sabedoria suprema, a vida é um enigma ainda maior do que pensam alguns de nós”, escreve Conrad em “Coração das Trevas”, dando voz a Charlie Marlow que, assim como em “Lord Jim” e “Youth”, rememora fatos que viu, viveu e testemunhou nos mares e rios da vida marinheira.

Para Cesar Zamberlan, “o livro de Joseph Conrad é apenas, e não mais que, o ponto de partida de ‘Apocalypse Now’ de Francis Ford Coppola. O diretor norte-americano não adaptou o livro, mas se inspirou nele, nos seus personagens e nos temas que Conrad aborda para construir uma obra bastante diversa, sobretudo, no tom e na estrutura narrativa.”

            O horror! O horror! É isso que está no livro e no filme. Zamberlan distingue duas formas de horror: “E se no livro o horror está centrado no humano, naquilo que o homem é, por dentro, na sua jornada interior e na impossibilidade da linguagem de chegar até ele; no filme, a câmera de Coppola contempla o homem na sua ação externa, na sua grandiosidade, no gigantismo, na realidade macro e pornográfica da guerra e do fanatismo.”

            Vale a pena fazer a viagem de Coppola até Conrad. E principalmente a de Conrad a Conrad.

 

Sob o olhar de Joseph Conrad

https://www.youtube.com/watch?v=_tSBgIXxjPE

De Coração das Trevas a Apocalypse Now

http://www.revistainterludio.com.br/?p=2407

O Filme Que Quase Matou Seu Diretor – Apocalypse Now!

https://www.youtube.com/watch?v=qphdiN98w-c

At Sea With Joseph Conrad

https://www.nytimes.com/2015/08/09/opinion/sunday/at-sea-with-joseph-conrad.html#commentsContainer

The horror! The horror!

https://www.youtube.com/watch?v=aNUr__-VZeQ

 

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