T. S. ELIOT E AS MUITAS VOZES DO MAR

“O mar tem muitas vozes, muitos deuses e muitas vozes” / Imagem: The Dry Salvages. Foto by Hye Tyde.
Eliot e Pound: revolucionários em literatura, reacionários em política / Foto: Revista Bula
“Desolation Row” foi transformada num painel, produzido pelos artistas Theo Cobb e Shane Balkowitch, onde estão todos os elementos citados por Bob Dylan / Crédito: Ronaldo Casarin – WordPress.com
“Nós somos os homens ocos” / Crédito: Poemário – WordPress.com
“Ouvi cantar as sereias, umas para as outras. Não creio que um dia elas cantem para mim” / Imagem: Youtube
“Até sermos acordados por vozes humanas. E nos afogarmos” / Crédito: AudiYore: Free Audiobooks of Classic Lit – Liberty.me

Em “Desolation Row”, Bob Dylan enfileira personagens altamente desolados, deslocados: o circo está na cidade, os salões de beleza cheios de marinheiros, Romeu erra Julieta e se apaixona por Cinderela; o Corcunda de Notre-Dame, junto com Caim e Abel, não espera chuva nem faz amor; Einstein, disfarçado de Robin Hood, recita o alfabeto; Ofélia, sem Hamlet, solteirona, tem os olhos fixos no grande arco-íris de Noé; o Fantasma da Ópera grita para as meninas magrelas que Casanova está sendo punido por entrar na fila dos desolados.

Lá pela nona estrofe, o Titanic zarpa de madrugada, Ezra Pound e T.S. Eliot saem na porrada na torre do capitão enquanto cantores de calipso riem deles e pescadores oferecem flores.

Na vida real, Eliot e Pound nunca chegaram às vias de fato. Pelo contrário: foram parceiros em “The Waste Land” (“A Terra Inútil”; “A Terra Devastada”; “A Terra Desolada”), um dos maiores poemas do século XX, onde aparece Flebas (todas as traduções são de Ivan Junqueira):

            “Flebas, o Fenício, morto há quinze dias,

Esqueceu o grito das gaivotas e o marulho das vagas

E os lucros e os prejuízos.

Uma corrente submarina

Roeu-lhe os ossos em surdina. Enquanto subia e descia

Ele evocava as cenas de sua maturidade e juventude

Até que ao torvelinho sucumbiu.

Gentio ou judeu

Ó tu que o leme giras e avistas onde o vento se origina,

Considera a Flebas, que foi um dia alto e belo como tu.”

Além de “A Terra Desolada”, Eliot disparou sua lira (ou ira) contra “os homens ocos”, isto é, contra nós:

“Nós somos os homens ocos

Os homens empalhados

Uns nos outros amparados

O elmo cheio de nada. Ai de nós!

Nossas vozes dessecadas,

Quando juntos sussurramos,

São quietas e inexpressas

Como o vento na relva seca

Ou pés de ratos sobre cacos

Em nossa adega evaporada

 

Fôrma sem forma, sombra sem cor

Força paralisada, gesto sem vigor;

 

Aqueles que atravessaram

De olhos retos, para o outro reino da morte

Nos recordam – se o fazem – não como violentas

Almas danadas, mas apenas

Como os homens ocos

Os homens empalhados.”

Os versos finais do poema ecoam para sempre:

“Assim expira o mundo

Assim expira o mundo

Assim expira o mundo

Não com uma explosão, mas com um suspiro.”

Em  “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock”, Eliot faz seu personagem arranhar o assoalho dos mares silenciosos:

 Eu teria sido um par de espedaçadas garras

A esgueirar-me pelo fundo de silentes mares.

(I should have been a pair of ragged claws

Scuttling across the floors of silent seas.)

E o oco e pouco profundo Prufrock implode num suspiro, num murmúrio, num marulho: 

“Repartirei ao meio meus cabelos? Ousarei comer um pêssego?

Vestirei brancas calças de flanela, e pelas praias andarei.

Ouvi cantar as sereias, umas para as outras.

 

Não creio que um dia elas cantem para mim.

 

Vi-as cavalgando rumo ao largo,

A pentear as brancas crinas das ondas que refluem

Quando o vento um claro-escuro abre nas águas.

 

Tardamos nas câmaras do mar

Junto às ondinas com sua grinalda de algas rubras e castanhas

Até sermos acordados por vozes humanas. E nos afogarmos.”

 

 No romance “O Profeta Impuro” (Companhia das Letras, 1995, tradução de Rosa Freire d’Aguiar), Manuel Vásquez Montálban faz um personagem afirmar que existem duas categorias de poetas do mar: “Os poetas que o descrevem e os poetas que metem o mar dentro de nós sem precisar ser descritivos; é o caso de Eliot”.

Mergulhe num trecho do poema “The Dry Salvages”:

 “O rio flui dentro de nós, o mar nos cerca por todos os lados;
O mar é também a orla da terra, o granito
Que ele penetra, as praias onde arremessa
Indícios de uma criação pretérita e diversa:
A estrela-do-mar, o caranguejo, o espinhado de baleia;
Os abismos onde oferece à nossa curiosidade
As mais delicadas algas e anêmonas marinhas.
Cara ou coroa, ele joga nossos ossos, a rede rasgada,
O covo em pedaços, o remo estilhaçado
E os utensílios de estrangeiros mortos. O mar tem muitas vozes,
Muitos deuses e muitas vozes.”

Dylan: Desolation Row

https://www.letras.mus.br/bob-dylan/199495/traducao.html

Eliot: Terra Desolada

http://marocidental.blogspot.com/2012/01/waste-land-t-s-eliot-traduzido.html

Eliot: Os homens ocos

https://textosdepoesia.wordpress.com/2017/12/26/os-homens-ocos-t-s-elliot/

Eliot: A canção de amor de J. Alfred Prufrock

http://www.casadobruxo.com.br/poesia/t/tse01.htm

Eliot: The Dry Salvages

https://reideespadas.wordpress.com/2013/03/13/the-dry-salvages/

Eliot Reads The Love Song of J. Alfred Prufrock

https://www.youtube.com/watch?v=JAO3QTU4PzY

Eliot Recites The Hollow Men

https://www.youtube.com/watch?v=WAWaZqDf-VE

Eliot: The Dry Salvages

https://www.youtube.com/watch?v=Io88yNuxI3Y

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