APOCALIPSE E UTOPIA

Apocalipse e utopia: o fim de todas as coisas, e o horizonte da esperança. Longe de opostos, os dois sempre foram inseparáveis. Utopias são necessárias. Mas são insuficientes, e podem, em algumas formas, ser parte da ideologia do sistema, a totalidade ruim que nos organiza, aquece os céus, e condena milhões à peonagem em depósitos de lixo. O sonho utópico de uns é o pesadelo apocalíptico de outros. Conheça China Miéville e seus saques sobre o antropoceno capital. 

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China Miéville: “Uma interpenetração de apocalipse e utopia no mundo real. Apocalipse para aqueles milhares que se afogaram em seus próprios pulmões. E para as corporações, agora asseguradas que os pobres, diferente dos lucros, são descartáveis? A utopia cotidiana. Essa é outra das limitações da utopia: nós já estamos em uma, mas não na nossa. Então, vivemos no apocalipse.” / Foto: Boitempo

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China Miéville; “Não se trata exatamente de uma distopia, mas de uma terceira forma – apocatopia, utopalipse – e está entre nós. Estamos cercados por uma cultura de ruínas, sonhos de cidades em queda, um mundo despovoado explorado por animais.” / Crédito: Chernobyl – resourcemagonline.com

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China Miéville: “Nós somos como Deuses, e é melhor ficarmos bons nisso”. / “A utopia da ‘união’ é uma mentira. Justiça ambiental significa reconhecer que não somos todos simplesmente passageiros do mesmo planeta. Não há um ‘nós’ sem que haja um ‘eles’. Não estamos todos juntos.” – Imagem: curtamais.com.br

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Pegada ecológica: em 2050, serão necessários quase três planetas para manter atual estilo de vida da humanidade. China Miéville: “Há um otimismo melhor? Há uma maneira certa de perder a esperança? Depende de quem tem esperança, e em quê, em quem – e contra quem. Nossa esperança precisa ladrar e morder.” / Crédito: Instituto Humanitas Unisinos

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China Miéville: “Utopia? Apocalipse? É pior ter esperança ou desespero? Só cabe uma resposta: sim. É pior ter esperança ou desespero. Má esperança e desespero ruim são mutuamente constitutivos” / Imagem: Getty Images

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“Utopia, para começo de conversa, nunca foi território exclusivo dos que clamam por emancipação. Colonizadores e expropriadores clamaram seu excelente senso ambiental contra a impotência de nativos preguiçosos por séculos, finalmente realizando o potencial de terras espuriamente declaradas vazias, trazendo “crescimento” a esses “desertos”. Ecotopias já serviram de justificativa para colonização e império muito antes dos programas REDD (Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal ou, em inglês, Reducing Emissions from Deforestation and Forest Degradation) das Nações Unidas. Já justificaram muitos assassinatos.

Há uma visão de que o mundo é um jardim ameaçado. Sufocado com o crescimento tóxico. Jardinagem, entendida como guerra. E a tarefa é a “eliminação implacável das ervas que disputam por nutrientes, ar, luz e sol com as boas plantas.”

Nesse cenário, as boas plantas são o povo ariano. E as ervas são os judeus.

O SS-Obergrupenfuhrer e Reichminister de Agricultura do Terceiro Reich, Walther Darré, reuniu geologia, nostalgia, crenças pagãs, imperialismos, misticismo agrário e ódio racial em uma visão de renovação verde e administração planetária baseadas em genocídio. Ele era o mais influente teórico de Blut und Boden, “sangue e solo”, uma Ecotopia nazista de fazendas orgânicas e recuperação de florestas nórdicas, protegidas pelos soldados camponeses de puro sangue.

A árvore pode não ter crescido como Darré esperava, mas suas raízes não morreram. Uma ampla variedade de grupos fascistas ao redor do mundo ainda proclama fidelidade à renovação ecológica, a um mundo verde, e se mobilizam ostensivamente contra mudanças climáticas, poluição e desflorestamento, se opondo a estes três venenos em nome de um outro: a lógica da supremacia racial.

É claro que apologistas reacionários de empresas poluidoras chamam ativistas ecológicos de ‘fascistas’ rotineiramente. Isso não significa que tais ativistas não precisam se manter constantemente atentos para buscar e combater aqueles que realmente o são – muito pelo contrário.

Aspectos da má utopia eliminacionista podem ser encontrados muito além da autoproclamada extrema direita. Muito do pensamento ecológico vem de mãos dadas com uma utopia sentimentalista e espiritualista nebulosa, que a ecofeminista Chaia Heller chama de “Eco-la-la”. Misturada com um malthusianismo cru, formam uma variante combativa chamada de “Ecologia Profunda”. O erro dessa visão pode se transformar em uma perspectiva brutal, segundo a qual o problema seria o excesso populacional – ou seja, a própria humanidade. Sua versão mais excêntrica é o Movimento pela Extinção Humana Voluntária, defendendo o fim da reprodução. A mais cruel está nos pronunciamentos de David Foreman, do Earth First!, sobre a fome na Etiópia em 1984: “A pior coisa a se fazer na Etiópia é prestar ajuda – a melhor seria apenas deixar que a natureza busque seu próprio equilíbrio, deixar as pessoas morrerem de fome.”

Essa é uma utopia ecológica genocida. Que também atende pelo nome “apocalipse”.

Apocalipse e utopia: o fim de todas as coisas, e o horizonte da esperança. Longe de opostos, os dois sempre foram inseparáveis. Às vezes, como em Lactâncio, a relação imaginada é cronológica, ou até mesmo de causa e efeito. O primeiro, o apocalipse, o fim dos tempos, abre o caminho para o outro, o que há do outro lado, o recomeço.

Algo aconteceu: agora eles estão mais inseparáveis do que nunca. “Hoje”, anuncia o sinistro filósofo Emil Cioran, “reconciliados com o terrível, assistimos uma contaminação da utopia pelo apocalipse (…). Os dois gêneros (…) que antes nos pareciam tão diferentes, se interpenetram, se misturam, formando um terceiro”. Tal reconciliação com o terrível, tal interpenetração, é vívida em tais devaneios da Ecologia Profunda por um mundo sem humanidade. O flagelo se tornou o sonho.

Não se trata exatamente de uma distopia, mas de uma terceira forma – apocatopia, utopalipse – e está entre nós. Estamos cercados por uma cultura de ruínas, sonhos de cidades em queda, um mundo despovoado explorado por animais. Conhecemos os clichês. Plantas tomam Wall Street como se pertencesse a elas, ao invés do contrário; a vastidão do lixo, dunas de restos; as sobras de alguma ponte vagamente reconhecível mas agora quebrada, um portentoso trampolim para o vazio. Et cetera.

É como se ainda não enxergássemos nada melhor além dos destroços, porque nos falta força. Ou como se houvesse um esforço para voltar ao “nós”, mas negativamente – “nós” somos justamente o problema, e a ausência de “nós” se torna a solução. A melancolia é dissimulada. Há entusiasmo, um investimento desmentido em tais supostos avisos, nessas catástrofes. Os profetas do apocalipse não enganam ninguém. Muito tempo antes de Shelley imaginar o dia em que “a Abadia de Westminster resistirá, deformada em ruínas sem nome, em meio ao pântano despovoado”, essas já eram cenas de beleza.

Todos já passamos boquiabertos por páginas com imagens de Chernobyl, da ilha deserta de Gunkanjima no Japão, ou das ruínas de Detroit, em páginas clickbait de “Os Dez Lugares Abandonados mais Incríveis”. Isso não deveria gerar culpa. Nosso horror com as tragédias e crimes por trás de tais cenas é real: ele coexiste com nosso fascínio, sem apagá-lo. Não escolhemos o que nos espanta. As imagens que nos fascinam não nos reduzem a uma política em particular. Mas certamente a beleza amoral de nossas apocatopias pode acabar em algo brutal e maléfico, um desgosto eliminacionista.”

China Miéville: Os Limites a Utopia (texto integral)
https://blogdaboitempo.com.br/2017/11/03/china-mieville-os-limites-da-utopia/

China  Miéville: The Limits of Utopia (texto em inglês)
http://salvage.zone/in-print/the-limits-of-utopia/

China Miéville: Um Conto de Natal
https://gallery.mailchimp.com/1d7426a84a7d443c6f48a1345/files/03dfa1f7-2d72-4873-b0f2-647d733397eb/Um_conto_de_natal_CMieville_web.pdf

The Carpenters: The End Of The World
https://www.letras.mus.br/carpenters/440611/traducao.html

R.E.M: It’s The End Of The World As We Know It (And I Feel Fine)
https://www.letras.mus.br/rem/661619/

Louis Armstrong:  “What A Wonderful World”

https://www.youtube.com/watch?v=A3yCcXgbKrE&feature=youtu.be

Eduardo Dusek: “Levanta e serve um café que o mundo acabou!”

https://www.youtube.com/watch?v=MNlB9MZu9wA

Beatles: “The End”

https://www.youtube.com/watch?v=12R4FzIhdoQ

Gregório de Matos: Inconstância das Coisas do Mundo!

https://www.recantodasletras.com.br/poesias/6418643

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