CIVILIZAÇÃO E BARBARIDADE

A Batalha de Salamina aconteceu há mais de dois mil anos. Foi a primeira batalha naval registrada na história humana. Foi também aquele momento em que civilização (os gregos) e barbárie (os persas) estiveram frente a frente.  Hoje sabemos que Pérsia (Irã) e Grécia estão no mesmo planeta. E que, de Salamina a Lampedusa, não é nada fácil separar civilização de barbaridade.

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Na batalha naval de Salamina, em outubro de 480 a.C., a frota grega venceu a armada persa. A vitória sobre os persas criou as bases para o florescimento da Grécia e da Europa / Crédito: Radu Oltean.

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Artemísia lutou com destaque na Batalha de Salamina, onde comandou cinco navios. Heródoto a descreveu favoravelmente e ressaltou os elogios à sua bravura durante a batalha feitos pelo rei persa, Xerxes. No cinema foram vividos por Eva Green e Rodrigo Santoro. / Crédito: Gettidinchiostro – Altervista

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“Não foi um ato de violência, foi de desobediência”, disse a capitã Carola Rackete ao descrever decisão de aportar com migrantes sem autorização no porto de Lampedusa, no sul da Itália / Foto: G1 Globo

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Greta Thunberg protesta em frente ao Parlamento da Suécia com o cartaz: ‘Greve das escolas pelo clima’ — Foto: TT News Agency/Hanna Franzen via Reuters

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Em seu romance  Soldados de Salamina (São Paulo, Globo, 2012, tradução de Wagner Carelli), o escritor espanhol Javier Cercas cita várias vezes a frase: “Na última hora, é sempre um pelotão de soldados que salva a civilização”. Um bando de heróís. Um bando de irmãos.

O narrador acredita que o velho soldado Mirales, que lutou na Guerra Civil Espanhola e em outras furadas do sanguinário século passado, era um herói homérico.  Mirales, que achava Hemingway “um bom palhaço”, tem um papo definitivo com o escriba que o admira.

 – “Esses escritores são de lascar! Então, o que você andava procurando era um herói. E esse herói sou eu, não é assim? Mas não tínhamos concordado que você é um pacifista? Quer saber de uma coisa? Na paz não há heróis, a não ser, quem sabe, aquele indiano baixinho que andava por aí meio pelado… E nem sequer ele era um herói, ou só foi quando o mataram. Os heróis só são heróis quando morrem ou são mortos. E os heróis de verdade nascem na guerra ou morrem na guerra. Não há heróis vivos, jovem. Todos estão mortos. Mortos, mortos, mortos”.

 O narrador de Soldados de Salamina não se deixa convencer: para ele, há “um desses momentos inconcebíveis em que toda a civilização depende de um só homem e da recompensa que a civilização reserva a esse homem”.

Ou de uma mulher. (A Justiça da Itália mandou soltar no dia 2 de julho a alemã Carola Rackete, capitã de um navio humanitário que entrou em águas italianas com 42 migrantes africanos. De acordo com a juíza Alessandra Vella, a ativista cumpriu com o dever de salvar vidas no mar.

Rackete, de 31 anos, estava detida em prisão domiciliar por desrespeitar a ordem do governo italiano de bloqueio de portos a fim de interromper o fluxo migratório. A embarcação da ONG Sea-Watch ficou bloqueada durante dias perto do porto de Lampedusa, no Mediterrâneo – um dos principais pontos de entrada de imigrantes africanos rumo à União Europeia.

Carola Rackete enfrentou um processo por ajudar a imigração ilegal, bem como a apreensão do navio e uma multa de 50 mil euros (cerca de R$ 219 mil), de acordo com um novo decreto de Salvini aprovado neste mês.

“Decidi entrar no porto de Lampedusa. Sei o que estou arriscando, mas os 42 náufragos a bordo estão esgotados. Estou levando o grupo para um lugar seguro”, declarou a capitã, também no Twitter.

Dos 53 migrantes resgatados em 12 de junho pela Sea-Watch em águas líbias, a Itália já aceitou o desembarque de 11 pessoas, vulneráveis, como crianças, mulheres e doentes. )

Ou de uma adolescente. (A ativista pelo clima Greta Thunberg e o movimento pelo meio ambiente ‘Fridays For Future’ foram premiados com o título de Embaixadores da Consciência 2019 pela organização de direitos humanos Anistia Internacional.

Greta tem 16 anos e, desde agosto de 2018, falta às aulas todas as sextas-feiras para protestar em frente ao parlamento sueco, em Estocolmo, e exigir medidas concretas dos políticos contra as mudanças climáticas e o aquecimento global. A iniciativa tem inspirado movimentos semelhantes em todo o mundo e já teve protestos até no Brasil.

A adolescente entra na galeria de personalidades premiadas ao lado de Nelson Mandela e Malala Yousafzai.)

“As grandes utopias pensavam em termos abstratos, na humanidade que viria. Enquanto hoje se deveria tentar tornar o mundo melhor para as pessoas que temos ao nosso lado e que sobreviverão a nós”, afirma Salvatore Natoli, professor de filosofia teórica da Universidade Bicocca de Milão, um dos maiores filósofos italianos atuais.

Ele lamenta que “uma parte da humanidade é considerada um descarte, portadora de uma doença que enfraquece a sociedade e a coloca em perigo de vida, como se fossem seres humanos infectados, que é preciso manter afastados.”

E prossegue: “Em nossa sociedade, a dimensão do anticristo, o príncipe do mal que atua na história, está florescendo na forma de um sentimento apocalíptico, o terror da catástrofe. Por um lado, assume a forma de destruição ambiental. Do outro, a da desintegração da civilização ocidental, ameaçada pela invasão estrangeira.”

Ele, o filósofo, não acredita que estamos no fim. “Nada disso. Porque, ao lado da ideia de que corremos desesperadamente em direção à devastação, nasceram tantos projetos de salvação da humanidade, como a ideia ecológica encarnada por uma jovem como Greta Thunberg, e o humanismo universal de Carola Rackete, a comandante do Sea Watch 3”.

No romance Il Gattopardo (“O leopardo”, Companhia das Letras, 2017), que narra a decadência da nobreza e a ascensão de uma nova classe na Itália do final do século 19, o escritor italiano Giuseppe di Lampedusa faz um personagem dizer: “Bisogna cambiare tutto per non cambiare niente” (“É preciso mudar tudo para não mudar nada”). Ou: “Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi” (“Se quisermos que as coisas continuem como estão, é preciso que tudo mude”).

Tem gente que não acredita em mudança climática. Tem gente que jura que somos todos iguais, focinho de um, nariz de outro, siameses. E é claro que não precisamos de heróis. Só de seres humanos.

E de duas ou três mulheres dispostas a fazer a diferença. Nessa vida. Aqui. Agora.

“Novos projetos de salvação da humanidade”. Entrevista com Salvatore Natoli
http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/590524-que-a-esquerda-nao-volte-a-cair-no-velho-vicio-de-transformar-carola-em-um-heroi-a-ser-adorado

Soldados de Salamina
https://www.youtube.com/watch?v=S2kB7IE4_XI

300 – A Ascensão do Império
https://www.youtube.com/watch?v=e1DY63DYtbQ

Band of Brothers Trailer
https://www.youtube.com/watch?v=kyDkHvi9yeI

Bella Ciao – ORIGINALE
https://www.youtube.com/watch?v=s4rl4cnUnpw

Senza fine – Andrea Bocelli
https://www.letras.mus.br/andrea-bocelli/senza-fine/traducao.html

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