T. S. ELIOT, ULISSES E O CANTO DAS SEREIAS

As sereias do mito tinham asas, canto divino, intenções de rapina. As sereias modernas podem ter outra forma, usar redes sociais, fazer belos discursos, prometer mundos e fundos / Imagem: John William Waterhouse, Ulysses and the Sirens 1891 Oil on canvas, National Gallery of Victoria, Australia.
São poucos (ou loucos) os que resistem à tentação de um mundo cheio de utopias e harmonias… / Crédito: Vaso. 480-470 a.C. – British Museum/ Jastrow (2006)
“Ouvi cantar uma sereia a outra sereia. Não conto que cantem por mim” / Imagem: Zena Holloway – KO Jewel
Nas câmaras do mar por elas adornadas Entre algas rubras e castanhas nós restamos / Imagem: Zena Holloway – KO Jewel
“Humanas vozes nos despertam, e afundamos / Imagem: Zena Holloway – KO Jewel
“Ulisses, o chefe, só pode escutar o canto das Sereias porque tapou os ouvidos de sua tripulação, condenada a trabalhar sem nenhum gozo, e porque pediu para ser atado ao mastro, isto é, escolheu sua própria prisão” / Imagem: Revista Cult

Na Odisseia de Homero, umas das cenas marcantes é a de Ulisses, o herói sagaz, amarrado ao mastro do barco para curtir o canto das sereias. Os navegantes que se entregaram a seu poder encantatório foram por elas devorados. No pequeno ensaio “Resistir às sereias”,  Jeanne Marie Gagnebin escreve: “Sempre se ressaltou, com razão, que Ulisses amarrado a seu mastro é a imagem exata da auto repressão, condição necessária e desastrosa da transformação do ‘si’ indiferenciado em ‘eu’, em sujeito determinado e identitário. Como em Freud, o sujeito deve, na interpretação de Adorno e Horkheimer, reprimir suas pulsões de vida mais originais e autênticas para se constituir a si mesmo e, em particular, para conseguir ter acesso ao reino da liberdade e da beleza, à fruição estética.”

            E continua a grande ensaísta: “Ulisses, o chefe, só pode escutar o canto das Sereias porque tapou os ouvidos de sua tripulação, condenada a trabalhar sem nenhum gozo, e porque pediu para ser atado ao mastro, isto é, escolheu sua própria prisão. Mas essa dupla repressão do dominador sobre os dominados e do dominador sobre si mesmo – não marca somente de uma melancolia incurável o sujeito burguês adulto ‘bem-sucedido’. Assinala também uma tristeza infinita na origem da possibilidade mesma da experiência artística: Ulisses ‘escuta, mas amarrado impotente ao mastro’, ‘o que ele escuta não tem consequências para ele’, ‘amarrado, Ulisses assiste a um concerto, a escutar imóvel como os futuros frequentadores de concertos, e seu brado de libertação cheio de entusiasmo já ecoa como um aplauso’.”

            A conversa é profunda, séria, central. Teria Ulisses alguma coisa em comum com Prufrock?

 No poema “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock”, o poeta T. S. Eliot faz seu personagem arranhar o assoalho dos mares silenciosos:

 

I should have been a pair of ragged claws

Scuttling across the floors of silent seas.

 

Na tradução de Caetano W.  Galindo (T. S. Eliot, Poemas, Companhia das Letras, 2018), fica assim:

           Eu deveria ser um par de garras rotas

Correndo sobre o leito de silentes mares.

Maravilha. Prufrock monologa, conversa com o leitor. A gente sente que ele é um sujeito desolado e deslocado (sempre na tradução de Galindo):

 

Não! Não sou príncipe Hamlet, nem quis ser;

Sou lorde serviçal que há de servir apenas

Para engrossar cortejos, numa ou duas cenas,

Ser ferramenta, conselheiro probo,

Afável, satisfeito de me dar ao uso,

Prudente, diplomático e meticuloso;

Retórico elevado, mas um tanto obtuso;

Por vezes, na verdade, quase vergonhoso —

Quase, por vezes, o Bobo.

E o bobo, oco e pouco profundo Prufrock implode num suspiro, num murmúrio, num marulho: 

 

 Divido o cabelo atrás? Mordo um pêssego, de boca cheia?

Com calças brancas de flanela, hei de caminhar na areia.

Ouvi cantar uma sereia a outra sereia.

 Não conto que cantem por mim.

Eu as vi montar as ondas, rumo ao mar,

Cardando a cã das águas que se apruma

Quando o vento sopra a vaga, escuro e escuma.

Nas câmaras do mar por elas adornadas

Entre algas rubras e castanhas nós restamos:

Humanas vozes nos despertam, e afundamos

 E vamos ao fundo. Ulisses tinha que se amarrar no mastro de um barco para resistir à mortal serenata das sereias. Prufrock passeia pela praia, livre, leve, solto: ouve as sereias, mas está fora do alcance do seu canto feiticeiro, de seu chamado transcendental, de sua sedução infinita. Como quem ouve mas não escuta, Prufrock vive num mundo tão desencantado que até as vozes humanas o acordam para afogá-lo.

Náufragos. Ilhados. Afogados. Ele e nós, os desafinados e meio surdos  herdeiros do astuto Ulisses.    

Náufragos. Ilhados.  Ele e nós, os desafinados e meio surdos  herdeiros do astuto Ulisses. Os afogados pelo vozerio humano.   

Mas o que cantam as sereias. Talvez, como as sirenes, elas apenas produzam sons.

Ou palavras aéreas, como no poema de Cecília Meireles:

 

Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

ai, palavras, ai, palavras,

sois de vento, ides no vento,

no vento que não retorna,

e, em tão rápida existência,

tudo se forma e transforma!

Sois de vento, ides no vento,

e quedais, com sorte nova!

Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

todo o sentido da vida

principia à vossa porta;

o mel do amor cristaliza

seu perfume em vossa rosa;

sois o sonho e sois a audácia,

calúnia, fúria, derrota…

(…)

 

Pareceis de tênue seda,

sem peso de ação nem de hora…

– e estais no bico das penas,

– e estais na tinta que as molha,

– e estais nas mãos dos juizes,

– e sois o ferro que arrocha,

– e sois barco para o exílio…

 (…)

Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

Perdão podíeis ter sido!

– sois madeira que se corta,

– sois vinte degraus de escada,

– sois um pedaço de corda…

– sois povo pelas janelas,

cortejo, bandeiras, tropa…

Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

Éreis um sopro na aragem…

– sois um homem que se enforca!

 

Talvez seja mais seguro vestir uma alegoria, se amarrar no mastro, tirar uma selfie e não ouvir o canto das sereias. Deixar que elas cantem no vento, e dormir, sonhar talvez, nadar nas palavras enquanto elas, as sereias, ficam roucas.

  1. S. Eliot – Poemas – Tradução Caetano W. Galindo

https://www.companhiadasletras.com.br/trechos/14425.pdf

“Resistir às Sereias” –  Jeanne Marie Gagnebin

http://files.o-oficio-da-historia.webnode.com.br/200000598-420b74305c/ARTIGO%20-%20RESISTIR%20AS%20SEREIAS%20-%20Jeanne-Marie%20Gangnebien.pdf

Cecília Meirelles – Romance das Palavras Aéreas

http://www.nilc.icmc.usp.br/nilc/literatura/romancedaspalavrasa.reas.htm

Das palavras aéreas, de Cecília Meireles

The Sound Of Silence

https://www.vagalume.com.br/simon-garfunkel/the-sounds-of-silence-traducao.html

Amy Winehouse – Back To Black

https://www.letras.mus.br/amy-winehouse/932418/

Shannon – La Mer

Maria Gadú – Lanterna dos Afogados

https://www.vagalume.com.br/maria-gadu/lanterna-dos-afogados.html

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