PALAVRA DO PRESIDENTE: IMPOSTOS DO PESCADO

Os  chamados “impostos do pecado”, aqueles que tributam  álcool, tabaco e jogo, têm como objetivo fazer com que os cidadãos consumam menos álcool, fumem menos cigarros e invistam  seu dinheiro em bancos e não em bingos.  Tem gente  que acredita que transformar carne em vício e peixe em pecado é a saída para salvar a humanidade e ganhar o jogo da sobrevivência.    Com certeza estamos  numa encruzilhada. Com certeza esse não é o único caminho para um mundo perfeito.

Quer preservar o planeta? Não coma carne. Quer salvar os oceanos? Não coma peixe.Transforme carne em vício e peixe em pecado, e estamos feitos. Ganhamos o jogo. Que futuro saudável! / Imagem: Jean-Pierre Zaugg

 

Quer viver bem? Não beba, não fume, não jogue, não coma, aprenda a respirar, faça exercícios, fique verde. Fuja do pecado. / Crédito: Food Magazine

 

O mar perfeito. O mar paraíso. Tudo azul e sem um barco de pesca para sujar o azul tão lindo – Crédito: Freepik

 

Antes que o mundo acabe, quero um sábado no Mercado São Pedro entre badejos e sardinhas verdadeiras, e um domingo no disco voador do Niemeyer degustando um risoto de arroz negro de frutos do mar com um bom vinho, se possível aquele que Noé aprendeu a fazer depois do dilúvio / Crédito: Morar em Niterói

 

Se bem me lembro, um dos grandes prazeres da vida era almoçar com a família e os amigos no Mercado de São Pedro, em Niterói.  Não era bem um almoço: era uma festa, um banquete. Peixes fritos, camarões ao alho,  porções de manjubinhas, porções de sardinhas empanadas, caranguejos e siris, lulas e polvos, bonitos e badejos, bolinhos de bacalhau, trilha frita com sabor de camarão. Para mim,  tudo isso, acompanhado por um bom vinho,  dava um sentimento  de felicidade parecido com a de Noé depois do dilúvio.

Também não dá para esquecer um almoço no MAC, o museu disco voador do Oscar Niemeyer, com sua paisagem estonteante, acompanhada por  um camarão servido no abacaxi com arroz de açafrão, e mais um risoto dede arroz negro com frutos do mar (camarões limpos, lulas limpas cortadas em anéis, filés de robalo cortados em cubos).  A vida é boa.

A vida era boa. Pelo que ando lendo existe uma revolução que vai acabar com o mundo em que vivemos para colocar um mundo melhor no lugar.  Estão anunciando e profetizando  a carne de boi sem boi. Tem gente que garante que   a carne do futuro virá  do laboratório, e não de fazendas e abatedouros. Os cientistas prometem picanhas e almôndegas cultivadas em ambientes controlados, sem que nenhum animal morto no processo, e, eles garantem de pés juntos,  “sem os impactos ambientais comumente associados à agropecuária convencional”. E o gosto, o sabor? Eles juram que vai ser uma delícia.

E é claro que os frutos do mar entraram na mira dos criadores do admirável mundo novo. Um escritor e ativista ambiental inglês escreveu um  artigo afirmando que  a única forma viável de preservar a vida nos oceanos é parar de comer pescado. Inclusive aquele produzido pela maricultura. A saída será comer peixe sintético. Ou  plástico, já que estudos demonstram que existe mais plástico do que peixes nos oceanos.

Ou então tomar um atalho. Por exemplo: tornar carne e peixe acessíveis apenas para uma elite trilionária. Leio que os  chamados “impostos do pecado” ( ou “sin taxes”, como dizem os americanos), aqueles que tributam  álcool, tabaco e jogo, têm como objetivo fazer com que os cidadãos consumam menos álcool, fumem menos cigarros e invistam  seu dinheiro em bancos e não em bingos.  Os argumentos até que são razoáveis:  álcool   e tabaco (pelos acidentes automobilísticos, pelo alto custo do tratamento da falência do fígado e dos pulmões) impactam o sistema de saúde; e pessoas viciadas em jogo “podem tomar medidas insensatas para ter mais liquidez financeira e, assim, apostar mais, deixando de se preocupar com a previdência privada, poupança, medicamentos e até mesmo com o bem-estar da família”.

Transforme carne em vício e peixe em pecado, e estamos feitos. Ganhamos o jogo. Que  futuro saudável!

Tudo mudou, está mudando, e nós também temos que mudar. Mas não de qualquer jeito, de estalo, dando saltos no escuro. O que não falta no momento é uma ideia mirabolante para salvar a nossa pele. Novos mandamentos imperativos de salvação universal.   Quer preservar o planeta? Não coma carne. Quer  salvar os oceanos? Não coma peixe. Quer viver bem? Não beba, não fume, não jogue, não coma, aprenda a respirar, faça exercícios, fique verde.

Por mim pode parar o mundo, mas eu não desço. Não quero descer. Antes que o mundo acabe, quero um sábado  no Mercado São Pedro entre badejos e sardinhas verdadeiras, e um domingo no disco voador do Niemeyer degustando um risoto de arroz negro de frutos do mar com um bom vinho, se possível aquele que Noé aprendeu a fazer depois do dilúvio.

 

Alexandre Guerra Espogeiro
Presidente do Saperj

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