O SUBMARINO, O OVO E O BARCO BÊBADO

 “O Capitão Nemo resolveu descer com o seu ‘Nautilus‘ para as maiores profundidades com o fim de verificar essas diferentes sondagens. Preparei-me para registrar todos os dados da experiência. Os painéis do salão foram abertos e começaram as manobras para atingir as

camadas mais profundas.” Esta é uma viagem do submarino até o ovo além do óbvio.

O ‘Nautilus’ é a caverna adorável: o prazer da clausura atinge o seu paroxismo / Imagem: The Nautilus. Art: Dave McCamant/Curiosmos
Barthes: “Verne não procurava de modo algum distender o mundo conforme as vias românticas da evasão ou de planos místicos de infinito: procurava incessantemente retraí-lo, reduzindo-o a um espaço conhecido e fechado” / Crédito: Pinterest
“Verne foi um maníaco da plenitude: não cessava de completar o mundo, de o mobiliar, de o transformar num receptáculo pleno como um ovo” / Imagem: Instagram
Clarice Lispector: “Quando eu era antiga fui depositária do ovo e caminhei de leve para não entornar o silêncio do ovo. Quando morri, tiraram de mim o ovo com cuidado. Ainda estava vivo.” / Crédito: Ovo cósmico / Deskgram
Clarice Lispector: “O ovo nunca lutou. Ele é um dom. – O ovo é invisível a olho nu. De ovo a ovo chega-se a Deus, que é invisível a olho nu.” / Imagem: Salvador Dalí: “Criança Geopolítica Assistindo ao Nascimento do Novo Homem”/ Obvius
Barthes: “O objeto verdadeiramente oposto ao Nautilus, de Verne, é o Bateau Ivre, de Rimbaud, o barco que diz ‘eu’ e, liberto de sua concavidade, pode fazer o homem passar de uma psicanálise da caverna a uma verdadeira poética da exploração.” / Crédito: Salvador Dalí: “Viaje fantasma o El Hombre barco” /Subasta Real

“De súbito o relógio bateu oito horas. A primeira pancada do pêndulo arrancou-me dos sonhos. Estremeci, como se olhos invisíveis pudessem mergulhar no mais profundo dos meus pensamentos e me precipitei para fora do quarto. Faltando poucos minutos para as nove horas deixei o meu quarto e voltei para o salão. Mergulhado na semiobscuridade, estava deserto. Abri a porta que comunicava com a biblioteca. A mesma claridade insuficiente e a mesma solidão. Fui colocar-me perto da porta que dava para a escada central e fiquei aguardando o sinal. Naquele momento os ruídos da hélice diminuíram sensivelmente e depois cessaram por completo. Qual seria o motivo daquela repentina alteração no andamento do ‘Nautilus‘? O silêncio só era quebrado pelas batidas do meu coração. De repente senti um leve choque. O ‘Nautilus‘ havia pousado no fundo do oceano.”

Pois é. Estamos do submarino do Capitão Nemo, o “Nautilus” nesta citação de “20 Mil Léguas Submarinas” (Virtual Books). Um submarino com quarto, salão e biblioteca, e que é quase uma mansão no submundo da mente do autor.

O narrador está à vontade e nem sonha com qualquer coisa parecida com claustrofobia:

“O ‘Nautilus‘ navegava a uma profundidade média de cem a duzentos metros. E foi assim durante vários dias. Para qualquer outra pessoa que não sentisse o meu imenso amor pelo mar, as horas teriam certamente parecido longas e monótonas. Mas os passeios quotidianos pela plataforma, onde me refazia com o ar vivificante do oceano, o espetáculo das águas através dos vidros do salão, a leitura dos livros da biblioteca e a redação das minhas memórias ocupavam-me o tempo todo, não me deixando um momento sequer de descanso ou mesmo de tédio.”

No ensaio “‘Nautilus’ e ‘Bateau Ivre'” (Mitologias, Bertrand Brasil, 2001), Roland Barthes esclarece: “A imaginação da viagem corresponde em Verne a uma exploração da clausura, e o bom entendimento que existe entre Verne e a infância não provém de uma mística banal da aventura, mas, pelo contrário, de um gosto comum pelo finito, que se pode encontrar na paixão infantil pelas cabanas e tendas: enclausurar-se e instalar-se, este é o sonho existencial da infância e de Verne.”

Para Barthes, “Verne não procurava de modo algum distender o mundo conforme as vias românticas da evasão ou de planos místicos de infinito: procurava incessantemente retraí-lo, reduzindo-o a um espaço conhecido e fechado, que o homem poderia em seguida habitar confortavelmente: o mundo pode tirar tudo de si próprio, pois para existir não necessita de mais nada além do homem.”

O submarino de Verne é uma casa viajante, uma casa-caramujo. Barthes:  “O navio é uma ação do ‘habitat’, antes de ser um meio de transporte. Ora, todos os barcos de Júlio Verne são, realmente, perfeitos ambientes de aconchego, e a grandeza de seu périplo aumenta ainda mais a felicidade de sua clausura, a perfeição de sua humanidade interior. Sob este aspecto, o ‘Nautilus‘ é a caverna adorável: o prazer da clausura atinge o seu paroxismo quando, no seio dessa interioridade sem fissuras, é possível ver através de uma imensa vidraça o vago exterior das águas e assim definir assim num mesmo gesto o interior pelo seu contrário.”

Imagine Júlio Verne trancado em seu escritório enquanto escreve sobre o Capitão Nemo. Ele é o Capitão Nemo e o escritório é o ‘Nautilus’, o mar. “Verne foi um maníaco da plenitude: não cessava de completar o mundo, de o mobiliar, de o transformar num receptáculo pleno como um ovo”, Roland Barthes lança sua rede.

Mas o que é um ovo?  Ninguém sabe. Só Clarice Lispector. “Faço parte da maçonaria dos que viram uma vez o ovo e o renegam como forma de protegê-lo. Somos os que se abstêm de destruir, e nisso se consomem. Nós, agentes disfarçados e distribuídos pelas funções menos reveladoras, nós às vezes nos reconhecemos. A um certo modo de olhar, há um jeito de dar a mão, nós nos reconhecemos e a isto chamamos de amor. E então, não é necessário o disfarce: embora não se fale, também não se mente, embora não se diga a verdade, também não é necessário dissimular. Amor é quando é concedido participar um pouco mais”, afirma Clarice, a mulher que matou os peixes.

Se o ovo é amor, o que será o amor? É possível o ovo? É possível o amor? “Poucos querem o amor, porque o amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões. Há os que voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. E não é prêmio, por isso não envaidece, amor não é prêmio, é uma condição concedida exclusivamente para aqueles que, sem ele, corromperiam o ovo com a dor pessoal. Isso não faz do amor uma exceção honrosa; ele é exatamente concedido aos maus agentes, àqueles que atrapalhariam tudo se não lhes fosse permitido adivinhar vagamente.
A todos os agentes são dadas muitas vantagens para que o ovo se faça. Não é o caso de se ter inveja pois, inclusive algumas das condições, piores do que as dos outros, são apenas as condições ideais para o ovo. Quanto ao prazer dos agentes, eles também o recebem sem orgulho. Austeramente vivem todos os prazeres: inclusive é o nosso sacrifício para que o ovo se faça”, garante a bruxa do Leme, Clarice Lispector.

Ah, sim, o barco boêmio bambo bebum! Para Barthes, para Verne é um ovo óbvio, um ovo fácil, um ovo tosco: “o mundo é finito; o mundo está repleto de materiais numeráveis e contíguos. O artista só pode ter uma função: elaborar catálogos, inventários, perseguindo os ínfimos recantos vazios para neles fazer surgir, em filas cerradas, as criações e os instrumentos humanos.”

Um ovo burgo, um ovo aldeia, um ovo colônia: “Verne pertence à camada progressista da burguesia: a sua obra proclama que nada pode escapar ao homem, que o mundo, mesmo o mais longínquo, é como um objeto na sua mão e que a propriedade é, em suma, apenas um momento dialético no processo de domínio da Natureza.”

Um ovo cozido, um ovo imperial: “Verne não procurava de modo algum distender o mundo conforme as vias românticas da evasão ou de planos místicos de infinito: procurava incessantemente retraí-lo, reduzindo-o a um espaço conhecido e fechado, que o homem poderia em seguida habitar confortavelmente: o mundo pode tirar tudo de si próprio, pois para existir não necessita de mais nada além do homem.”

Um ovo frito, um ovo relógio, um ovo calendário: “Além dos inumeráveis recursos da ciência, Verne inventou um excelente meio romanesco de tornar clara essa apropriação do mundo: garantir o espaço por intermédio do tempo, unir permanentemente estas duas categorias, arriscá-las num mesmo lance de dados ou num mesmo impulso irrefletido, sempre bem-sucedidos. As próprias peripécias têm como função imprimir ao mundo uma espécie de consistência elástica, afastar e em seguida aproximar a clausura, brincar agilmente com as distâncias cósmicas, pôr, maliciosamente, à prova o poder do homem sobre os espaços e os horários.”

Verne é  único senhor a bordo do ovo. A bordo do óbvio. Verne dá a volta ao mundo em 80 dias. Clarice Lispector, Ítalo Calvino, Arthur Rimbaud, Jorge Luis Borges, Julio Cortazar, esses (e alguns outros)  dão a volta ao dia em 80 mundos.

O cosmicômico barco bêbado de Rimbaud cambaleando em outra onda, ondulando em outra sincronia, tremulando em outra banda, explode espaço e tempo, anos e oceanos, luz noite e dia, eclipsa lua e sol, derrota o rumo, clepsidra o deserto,   naufraga o oceano. Barthes: “Nesta mitologia da navegação só existe um meio de exorcizar a natureza possessiva do homem sobre o navio: suprime-se o homem e deixa-se o navio sozinho, entregue a si próprio; então, o barco deixa de ser uma caixa, habitat e objeto possuído, para se tornar um olho viajante, que, de leve, roça infinitos e produz partidas ininterruptas. O objeto verdadeiramente oposto ao Nautilus, de Verne, é o Bateau Ivre, de Rimbaud, o barco que diz ‘eu’ e, liberto de sua concavidade, pode fazer o homem passar de uma psicanálise da caverna a uma verdadeira poética da exploração.”

O ovo é um multiverso submarino bêbado de maremotos, trêmulo de tsunamis, o marulho do abismo, o eu-é-um-outro além do espelho, um cosmo na janela do caos. E ninguém pode ver isso. (Francisco Maciel)

Capitão Nemo  dentro de seu lar e ovo, o Nautilus

https://www.youtube.com/watch?v=EcglesNQZt8

 Infográfico: por dentro do Nautilus, de 20 Mil Léguas Submarinas

https://super.abril.com.br/mundo-estranho/infografico-por-dentro-do-nautilus-de-20-mil-leguas-submarinas/

The Beatles – Yellow Submarine

 Clarice Lispector: O Ovo e a Galinha

http://claricelispector.blogspot.com/2007/11/o-ovo-e-galinha.html

 

“O ovo, Clarice e a galinha” | Hora de Clarice 2015

Poesia & Prosa com Maria Bethania – Episódio: Clarice Lispector

Rimbaud: O Barco Bêbado

http://leblogivre.blogspot.com/2011/06/o-barco-bebado.html

 Três poemas de Julio Cortázar

https://www.mundodek.com/2016/11/tres-poemas-de-julio-cortazar.html#.XXgpFH97mUk

 Quem matou Roland Barthes?

https://www.publico.pt/2015/09/02/culturaipsilon/noticia/quem-matou-roland-barthes-1706554

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