DE VOLTA AO PARAÍSO PERDIDO

Beleza. Reprimitivar. Retornar à vida selvagem. Ressalvar. Começar de novo. Reinventar o mundo.  Mudar de vida. Mudar a vida. Vencer a morte. Amar o mar. Maravilhar-se. Mas será que dá para ganhar o que se perdeu? Será que o paraíso perdido era mesmo um paraíso? Dá para fazer jejum e separar a fome da vontade de comer? Em que universo paralelo existe um almoço grátis?

A imagem é pavorosa, terrível: a morte com sua foice. A morte com uma foice que é um barco de pesca. Ela ilustrava o artigo de George Monbiot na edição de 9 de maio deste ano do jornal inglês “The Guardian”. Como vencer a morte-barco e salvar os oceanos? Parar de comer peixe? Só isso? / Ilustração: Sébastien Thibault.
Para George Monbiot, talvez a coisa mais importante a se fazer é voltar à natureza e renovar nossas esperanças de um vida melhor: “Ao motivar as pessoas a amar e a defender o mundo natural, um quilograma de esperança vale uma tonelada de desespero” / Foto: Dominick Tyler
Nós fazemos parte da natureza: nascemos no mar, somos filhos do sol e irmãos das árvores. Mas a tal “natureza humana” não é lá muito confiável, dizem / Jasper James/Getty Images
Uma nova pesquisa publicada no periódico Frontiers in Microbiology, em julho de 2019, informa que uma maçã carrega cerca de 100 milhões de bactérias, principalmente nas sementes e no pedúnculo (aquele “cabinho” que fica na parte superior da fruta). É claro que nossos pais, Adão e Eva, não estavam nem aí para esses detalhes tão pequenos / Crédito: Emsi
A Lua, o Oceano Atlântico, a África. Depois que saímos de casa, nunca mais seremos os mesmos. Será que dá para voltar ao paraíso? E o paraíso era… um paraíso? / Foto: NASA

A imagem é  assombrosa: a morte com sua foice.  A morte com uma foice que é um barco de pesca.  Ela ilustrava o artigo de George Monbiot na edição de 9 de maio deste ano do jornal inglês “The Guardian”.  A manchete dizia: “Pare de comer peixe. É a única maneira de salvar a vida em nossos mares”. E justificava: “Livre de  regulamentação, impulsionada pela ganância, a indústria da pesca é a maior ameaça aos nossos oceanos. Nós devemos agir.”

Monbiot citava um relatório da ONU que afirmava que  a sobrepesca é a ameaça maior para os oceanos do mundo, maior que o plástico e a acidificação, e que essa notícia era um alarme apocalíptico que apontava para o  colapso   da vida na Terra.

O colunista citava (via Greenpeace) que a pesca industrial no Reino Unido era dominada por cinco  famílias e que os grandes navios das nações ricas pescam nos mares das nações pobres, arrastam e arrasam, a China na proa desse desequilíbrio. A piscultura era tão predatória quanto a pesca. Os oceanos eram zonas sem lei. As áreas marinhas protegidas nada protegem.  Os grandes barcos não aceitam nenhum tipo de monitoramento. Os selos de pesca sustentável não querem dizer nada. Etc.

O colunista encerrava assim o seu artigo: “Até que a pesca seja devidamente regulamentada e controlada, devemos retirar nossa permissão. Deixe de lado as  sacolas de plástico,  mas, se você quiser realmente fazer a diferença, pare de comer peixe”. (No original: “Until fishing is properly regulated and contained, we should withdraw our consent. Save your plastic bags by all means, but if you really want to make a difference, stop eating fish.”) São palavras sensatas. Talvez a imagem da morte com sua foice-barco  seja excessiva.

Mas o fato é que Monbiot é radical. No artigo “Alimentar-se, ato desumano?” (site “Outras Palavras”, tradução de Inês Castilho, publicado em 06/01/2015), ele escreve: O que dizer de uma sociedade cuja produção de alimentos precisa ser ocultada das vistas do público? Em que as fazendas industriais e matadouros que abastecem o grosso da nossa dieta precisam ser vigiados como arsenais, para evitar que vejamos o que acontece ali? Somos cúmplices dessa ocultação: não queremos enxergar. Nós nos enganamos tão efetivamente que, na maior parte do tempo, quase nem notamos que estamos comendo animais — mesmo durante aquelas que já foram festas raras, tais como Natal, e que agora mal se distinguem do resto do ano.”

Monbiot acredita que existem alternativas — inclusive para não-vegetarianos… “Acredito que um dia a carne artificial poderá tornar-se viável comercialmente,  e as normas sociais mudarão. Quanto tornar-se possível comer carne sem matar, criar gado para abate será visto como algo inaceitável. Mas para isso, ainda há um longo caminho. Até lá, talvez a melhor estratégia seja encorajar as pessoas a comer como nossos ancestrais. Ao invés de consumir carne a cada refeição, desmesuradamente, poderíamos pensar nela como uma dádiva extraordinária, não um direito. Podíamos reservar a carne para algumas ocasiões especiais, como o Natal, ou comê-la não mais que uma vez por mês”, aconselha Monbiot.

Isso já está encaminhado.  No artigo “A carne do futuro poderá ser 100% carne e 0% animal. Servido?” (“Exame”, 6 maio 2019), Vanessa Barbosa,  repórter especializada em Meio Ambiente e Energia, afirma: “Independentemente da sua motivação, há uma microrrevolução em curso que pretende reinventar a produção e o consumo de proteína no mundo e, de quebra, agradar a todos os paladares. Sem matar, a carne do futuro poderá vir do laboratório, ao invés de fazendas e abatedouros.”

E prossegue: “Saca aquela picanha suculenta do churrasco ou aquelas almôndegas da macarronada de domingo? É o mesmo alimento, só que cultivado em um ambiente estéril e controlado, sem que nenhum animal tenha sido morto no processo, e sem os impactos ambientais comumente associados à agropecuária convencional.”

Vanessa Barbosa conclui: “O caminho para mudança de comportamento certamente será longo, mas sem dúvida é mais realista do que esperar que o mundo inteiro se torne vegetariano.  Quem sabe, à luz dos sinais de mudança, talvez seja possível encontrar um meio termo para preservar o churrasco da família, reduzir a pressão sobre o planeta, alimentar toda a população em 2050 e ainda poupar a vida de 60 bilhões de animais abatidos anualmente. Afinal, todo mundo tem o garfo e a faca nas mãos”.

Voltando aos peixes – Cintia Miyaji, bióloga com mestrado e doutorado em Oceanografia,  cofundadora da Aliança Brasileira pela Pesca Sustentável, publicou no site  COOK4LIFE (maio 27, 2019)  o artigoComer ou não comer pescado, será essa a questão?” em resposta ao “Pare de comer peixe” do Monbiot.

Ela resume:  “O escritor e ativista ambiental George Monbiot sugere em seu artigo que a única forma viável de preservarmos a vida nos oceanos é pararmos de comer pescado, inclusive aquele produzido pela maricultura. Monbiot coloca em dúvida as estratégias e os esforços para a recuperação de estoques, e afirma que sem gestão e fiscalização adequados, nossa única opção para fazer a diferença é deixar de comer peixes.”

E pergunta: “Mas será que os argumentos apresentados são sólidos e cientificamente fundamentados?”

Cintia Miyaji informa que  inúmeras reações de apoio e de protesto surgiram nas redes sociais e páginas da internet.  Max Mossler, através do blog do portal “Sustainable Fisheries”, que tem como proposta explicar a ciência do pescado sustentável, rebateu e contestou ponto a ponto as colocações de Monbiot, acusando-o inclusive de utilizar de má-fé em seu artigo de opinião.

Miyaji acha que Mossler e Monbiot fazem parte da mesma moeda. “Embora haja pontos importantes citados pelos dois textos que se contrapõem, acredito que, em muitos temas, os dados apresentados se complementam. As controvérsias sobre a efetividade de ações de conservação, como a proibição da pesca em áreas oceânicas, estabelecimento de cotas, criação de áreas marinhas protegidas, uso de tecnologias de controle e monitoramento, entre outros, têm vantagens e desvantagens, pontos fortes e pontos fracos. Além disso, sempre há como interpretar seus resultados de forma tendenciosa. O importante é conhecer os dois lados da moeda, buscar as fontes das informações, conhecer opiniões, pois ter uma visão ampla do problema nos ajuda a chegar a nossas próprias conclusões.”

Cintia Miyaji elenca os seguintes fatos:

  • O consumo global per capita de pescado é o maior entre todas as proteínas animais;
  • Cerca de 3,2 bilhão de pessoas dependem do pescado como fonte de 20% ou mais da sua ingestão diária de proteína;
  • Mais de 800 milhões de pessoas dependem economicamente das atividades pesqueiras e de aquicultura;
  • Comunidades costeiras mantêm sua identidade cultural, suas tradições e memórias através da pesca;
  • Para uma população humana estimada em 9 bilhões, em 2050, não há área suficiente para o plantio de vegetais, que garantam a segurança alimentar da população sem que se comprometam áreas florestais essenciais para o equilíbrio climático do planeta;
  • A conversão alimentar dos peixes cultivados é a melhor. A emissão de gás metano é a mais baixa entre todas as atividades de produção de proteína animal, assim como a pegada de carbono (mas há controvérsias quanto à pegada hídrica).

A conclusão de Miyaji é a seguinte: “Talvez Monbiot tenha se dirigido especificamente ao seu público leitor, que devidamente dimensionado, não deve impactar o consumo global de pescado a ponto de mudar o destino dos estoques pesqueiros. Mas em nível global, seria desejável que a população humana deixasse de comer pescado? Alguns poderiam dizer que não seria saudável, outros diriam que seria eticamente correto. Mas o que substituiria essa fonte proteica na alimentação humana, sem prejuízo à segurança alimentar e sem destruir outras fontes de recursos naturais?”

E arredonda: “Creio que assim, temos indícios suficientes para dizer que deixar de comer pescado, de forma ampla e generalizada, não resolve a equação posta para a manutenção da biodiversidade do planeta e de seus ecossistemas. Individualmente, cabe a nós fazermos as escolhas mais adequadas, buscando informações sobre a origem e a sustentabilidade do pescado que compramos ou consumimos, de forma equilibrada, consciente e responsável.”

Uma última palavra – George Monbiot  fez um conferência no “TED Global 2013” com o título  “For more wonder,  rewild the world”  (“Para mais maravilhas, devemos reprimitivar o mundo”, em português; “Por mais maravilhas, retornem à vida selvagem”, em brasileiro.)

Monbiot afirma que “mesmo sendo ‘reprimitivar’ [rewild] uma palavra recente, já tem várias definições. Mas existem duas que me fascinam, em particular. A primeira é a restauração massiva de ecossistemas. (…)   A outra é o reprimitivar da vida humana. E não vejo isto como uma alternativa à civilização. Acredito que podemos gozar dos benefícios de tecnologia avançada, como fazemos agora, mas ao mesmo tempo, se o escolhermos, podemos ter acesso a uma vida de aventura mais rica e selvagem quando o quisermos, porque haveria maravilhosos e reprimitivados ‘habitats’.”.

E Monbiot conclui: “E talvez isto seja a coisa mais importante que o reprimitivar tem a oferecer-nos, a coisa mais importante que está a faltar nas nossas vidas: esperança. Ao motivar as pessoas a amar e a defender o mundo natural, um quilograma de esperança vale uma tonelada de desespero. A história que o reprimitivar nos conta é que a mudança ecológica não precisa sempre de prosseguir numa só direção. Oferece-nos a esperança de que a nossa primavera silenciosa possa ser substituída por um verão rouco.”

Beleza. Reprimitivar. Retornar à vida selvagem. Ressalvar. Começar de novo. Reinventar o mundo.  Mudar de vida. Mudar a vida. Vencer a morte. Amar o mar. Amarrar-se. Maravilhar-se. Juntar a sede de saber com a fome de viver. Fazer do desespero uma esperança. É o que temos para hoje nesse admirável paraíso perdido girando em volta de um sol amado e indiferente, brilhante e periférico, caloroso e irrelevante. (Francisco Maciel)

 

George Monbiot:  Stop eating fish. It’s the only way to save the life in our seas

https://www.theguardian.com/commentisfree/2019/may/09/seas-stop-eating-fish-fishing-industry-government

Fact-checking George Monbiot’s ‘Stop eating fish’ opinion in The Guardian

https://sustainablefisheries-uw.org/fact-checking-george-monbiot/

Cintia Miyaji: Comer ou não comer pescado, será essa a questão?

https://cook4life.org/2019/05/27/comer-ou-nao-comer-pescado-sera-essa-a-questao/

George Monbiot: Alimentar-se, ato desumano?

https://outraspalavras.net/sem-categoria/alimentar-se-ato-desumano/

George Monbiot: Para mais maravilhas, devemos reprimitivar o mundo

https://www.ted.com/talks/george_monbiot_for_more_wonder_rewild_the_world/transcript?language=pt

George Monbiot: Retornem À Vida Selvagem

https://www.ted.com/talks/george_monbiot_for_more_wonder_rewild_the_world?language=pt-br

 

De volta ao futuro: Waterworld – O Segredo das Águas

Caetano Veloso – Terra

 

Pálido Ponto Azul, de Carl Sagan

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