CAMARÕES DO DESERTO, CAVIAR CAIPIRA E OUTRAS DELÍCIAS IMPENSAMENTÁVEIS

Rico em nutrientes, de baixo custo, ecológico e “delicioso”. Estas são algumas características que fazem dos insetos uma boa opção alimentar no combate à fome, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação. Isso foi há seis anos atrás. Hoje os insetos parecem um bem-vindo milagre.

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Paçoca de içá do restaurante de Ocílio Ferraz, em Silveiras, Vale do Paraíba / Foto: Renata Helena Rodrigues

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Uma mulher da região norte da Nigéria oriental expõe e vende os “camarões do deserto”, hesitante em considerar o gafanhoto uma praga ou um maná / Foto: BBC

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Grilo com chocolate no palito / Foto: Casé Oliveira

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Finger Ancestral: doce de Damasco, pimenta rosa, mel e grilo desidratado, um dos pratos criados pelo ‘bugs cook’ Casé Oliveira para apresentar os animais como alternatia alimentar / Foto: Casé Oliveira

Bicho da Seda frito, na China / Crédito: CC BY-SA 3.0 -Steven G. Johnson

Os cientistas calcularam o número de calorias que cada pessoa precisaria, em uma cidade marciana de 1 milhão de pessoas, e modelaram o uso da terra, de acordo com uma dieta que inclui trigo, milho, batata-doce, grilos e frangos cultivados em laboratório / Foto: Crickster

     Viviane Aguiar, no artigo “Içá, o caviar impensamentável de Monteiro Lobato“, cita uma carta do pai da Tia Nastácia para uma prima de Taubaté.   

           “S. Paulo, 18 de novembro de 1945

            Bijoca,

            Recebi a latinha de içá torrado. Creio que ainda gosto disso apenas como meio de me recordar do Taubaté do meu tempo, uma coisa que já nada tem que ver com o Taubaté de hoje.

            Mas foi você incomodar dona Silvina… Para mim foi muito bom, porque me rendeu o bilhetinho que ela lhe mandou, com o pedido, em troca do içá, de um pensamento sobre o içá…

            A sugestão me perturbou, porque nunca no mundo ninguém jamais ‘pensou’ sobre o içá – e pelo jeito é realmente coisa ‘impensamentável’. Mas já que dona Silvina pede, faço um esforço e digo que o içá é o caviar da gente taubateana.

            Como você sabe, o famosíssimo e apreciadíssimo caviar da Rússia é a ova dum peixe de nome esturjão; e que é o abdômen (vulgo bundinha) da içá senão a ova da formiga saúva?

            Adeus, Bijoca. Saudades a todos daí e meus cumprimentos a dona Silvina.

            Zé Bento“.

           

Pois aí está um bom arrazoado para seguir o paladar do criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo e, de lambuja, se lambuzar num velho conselho da Organização das Nações Unidas para: incentivar a criação de insetos pra combater a fome.  Os insetos são ricos em proteína, cálcio ferro, zinco e gorduras que fazem bem à saúde. Existem um bilhão de espécies conhecidas. E somam mais da metade de todos os organismos vivos classificados no planeta. São consumidos por quase dois bilhões de pessoas, principalmente na Ásia e na África. E mais: eles poderão ser um poderoso instrumento na luta contra a obesidade.  Etc.

Gafanhotos são uma praga bíblica. Um enxame de gafanhotos muito pequeno pode comer a mesma quantidade de alimentos consumidos em um dia por cerca de 35 mil pessoas.  Causam estrago e fome, os gafanhotos. Qual a melhor saída? Devorar todos eles, um por um. Num espetinho. Fazer deles os camarões do deserto.

Todo mundo conhece a frase: “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”. Ela foi o lema da bandeira de luta de Policarpo Quaresma, o inesquecível  personagem criado por Lima Barreto e que teve um triste fim, o personagem, e o autor.  Já Macunaíma, o herói sem nenhum caráter de Mário de Andrade, bradava: “Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são”… A saída? Uma vingança culinária. Dizem que a vingança é um prato que se come frio. Nem tanto. Farofa de saúva ou saúva frita pode ser uma boa pedida.

Falando sério. É um prazer ler o artigo “Vida de Inseto”, do César Baima. Depois de traçar umas patas de aranha torradas e salgadas oferecidas pelo guia transformado amigo Sum Sisanoeun em viagem ao Camboja, ele conta: “Desceram bem com a boa, e barata, cerveja local Angkor, muito como os tradicionais chapulines – pequenos gafanhotos – no México. Neste meio tempo, também já havia chamado minha atenção a proposta de pesquisadores de usar ‘fazendas’ de insetos para produzir a proteína animal que alimentaria os futuros colonos em eventuais bases na Lua, em Marte e nas ‘naves geracionais’ que poderiam levar os primeiros humanos em viagens interestelares. Ideia que faz muito sentido. Afinal, os insetos são extremamente eficientes em converter alimento em massa corporal, num ciclo de vida relativamente curto em espaços pequenos.”

Baima acredita que são justamente essas vantagens que deverão fazer dos insetos a “salvação” da humanidade aqui mesmo na Terra. ” E não é por menos. Enquanto para produzir 1 quilo de carne de boi são necessários em média de 12 a 15 quilos de ração, para ter um quilo de proteína de inseto basta 1,5 quilo de ração. Além disso, enquanto o boi consome por volta de 8 mil litros d’água no processo, o mesmo quilo de inseto precisa de apenas 7 litros de água.”

Tem mais: não dá para comparar a produtividade dos insetos com a espaçosa lentidão dos bois. Baima: “Já com relação ao espaço, uma biofábrica de insetos de apenas 80 metros quadrados — um apartamento de tamanho médio — pode produzir 1,5 tonelada mensal de proteína. Já os bois, quando não criados em condições desumanas e insalubres de confinamento, ocupam grandes espaços, com muitas das recentes queimadas na Amazônia diretamente ligadas à abertura de áreas para pasto ou plantação de grãos para alimentá-los (70% da produção mundial de grãos é destinada à ração animal). Por fim, enquanto um boi leva três anos crescendo e engordando para o abate, uma ‘safra’ de insetos como grilos leva apenas 45 dias para ser produzida.”

É sensato. É sensível. É até pensamentável. E é o que temos para o almoço.

São João Batista comeu gafanhotos no deserto. Gafanhotos com mel. Isso foi ontem. Hoje os insetos parecem ser a multiplicação dos pães e dos peixes.

 

Içá, o caviar impensamentável de Monteiro Lobato
https://lembraria.com/2016/12/23/ica-o-caviar-impensamentavel-de-monteiro-lobato/

 

Cesar Baima: Vida de Inseto
https://epoca.globo.com/coluna-vida-de-inseto-23948106 

 

De formiga a escorpião: veja insetos consumidos pelo mundo
 https://www.terra.com.br/vida-e-estilo/culinaria/de-formiga-a-escorpiao-veja-insetos-consumidos-pelo-mundo,3dd4ec6aef9ae310VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html

 

ONU sugere comer insetos para reduzir a fome no mundo
http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2013/05/onu-sugere-comer-insetos-pra-reduzir-fome-no-mundo.html

 

Insetos e carne de laboratório: como seria a alimentação dos humanos em Marte
https://canaltech.com.br/espaco/insetos-e-carne-de-laboratorio-como-seria-a-alimentacao-dos-humanos-em-marte-150269/

 

Caviar
https://www.vagalume.com.br/zeca-pagodinho/caviar.html

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