O PEIXE DENTRO DE NÓS

Somos todos Filhos de Gaia, da Mãe Terra, o verme, o peixe, o tigre, o homem, a mulher, todos lutando encarniçamente pela sobrevivência, juntos e misturados, todos do mesmo signo, farinha do mesmo saco, implacáveis çaçadores e pescadores de nós mesmos.

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Tiktaalik: um peixe fora d’água, fazendo a ponte entre mar e terra / Crédito: Zina Deretsky/National Science Foundation

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Neil Shubin e um modelo do Tiktaalik, o ancestral de todos nós: “Este peixe não fala apenas de peixes, ele também contém um pedaço de nós” / Crédito: Chicago Tribune; MCT via Getty Images

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Neil Shubin: “Ter um corpo com muitas células permite que as criaturas fiquem grandes. Ficar grande é muitas vezes uma boa maneira de evitar ser comido. Os corpos podem ter surgido como esse tipo de defesa” / Crédito: Lynn Johnson/National Geographic/Getty

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O Tiktaalik roseae tinha um crânio variando de 17 a 31 cm e o comprimento total do corpo entre 85 cm e pouco mais de um metro e meio. Foram encontrados quase 30 espécimes do Tiktaalik roseae , três dos quais com crânio, região da cintura peitoral e nadadeiras articuladas / Crédito:Ted Daeschler).

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Peixe com pulmões, o Lepidosiren paradoxa é chamado entre nós de piramboia, ou “peixe-cobra” (do tupi: pira “peixe” e mboîa “cobra”). Vive no Pantanal / Crédito: Youtube

Estruturas de embrião de peixe (esquerda) e de embrião humano (direita), muito semelhantes. / Crédito: Portal Funari

Neil Shubin, professor de Anatomia na Universidade de Chicago foi o descobridor de um fóssil famoso, o Tiktaalik, em 2004. . Em seu livro A história de quando éramos peixes – Uma revolucionária teoria sobre a origem do ser humano (Rio de Janeiro, Elsevier, 2008) ele conta como, após cerca de 10 anos de busca, encontrou o Tiktaalik.

O lado peixe do Tiktaalik está evidenciado pelo pequeno tamanho das nadadeiras pélvicas (que correspondem às pernas dos tetrápodes) e pelo fato de que todos os membros mantêm as nadadeiras raiadas (e não apresentam dígitos, como os tetrápodes). Ele possuía ainda arcos branquiais bem desenvolvidos, o que indica que se tratava de uma forma predominantemente aquática – por isso, inclusive, a sua classificação ainda como peixe. Foram encontrados quase 30 espécimes do Tiktaalik roseae , três dos quais com crânio, região da cintura peitoral e nadadeiras articuladas.

Shubin  explica: “Este peixe não fala apenas de peixes, ele também contém um pedaço de nós. A busca de tal ligação foi o que, para começar, me levou ao Ártico. Como posso ter certeza de que esse fóssil diz algo sobre o meu próprio corpo? Consideremos o pescoço do Tiktaalik. Todos os peixes anteriores a ele têm um conjunto de ossos que unem o crânio ao ombro, de modo que toda vez que o animal curva o corpo, a cabeça também se curva. O  Tiktaalik é diferente. A cabeça é totalmente desligada do ombro. Todo esse arranjo é partilhado com anfíbios, os répteis os pássaros e os mamíferos, inclusive conosco.”

Criar um pescoço já foi um grande avanço, e isso bilhões de anos antes da guilhotina. E as mãos? Shubin: “A relação entre complexidade e humanidade no interior de nossas mãos há muito fascina os cientistas. Em 1822, o eminente cirurgião escocês Sir Charles Bell o livro clássico sobre a anatomia das mãos. O título já diz tudo: As mãos, seu mecanismo e dotes vitais como evidência de um projeto. Para Bell, a estrutura da mão era ‘perfeita’, por ser complexa e perfeitamente adequada ao nosso estilo de vida. Essa perfeição planejada só podia ter origem divina.” A mão era de Deus.

Mas para Sir Richard Owen (1804-1892),  biólogo, anatomista comparativo e paleontólogo britânico que cunhou o nome “dinossauro” para um novo tipo de criatura fóssil descoberta nas rochas da Inglaterra, fez tudo descer do céu para o chão. Shubin: “Owen descobriu que nossos braços e pernas, pés e mãos se encaixavam em um esquema maior. Viu aquilo que os anatomistas que o precederam há muito sabiam – que existe um padrão para o esqueleto de um braço humano: um osso no braço, dois no antebraço, um punhado de oito ossinhos nos punhos e depois uma série de  cinco bastões que constituem os dedos. O padrão dos ossos na perna humana é mais ou menos o mesmo: um osso, dois ossos, muitas bolotas e cinco dedos. Ao comparar esse padrão com a diversidade  das ossadas do mundo, Owen fez uma descoberta notável”.

“O que ele descobriu, e mais tarde difundiu em uma série de palestras e obras, foram semelhanças excepcionais entre criaturas tão distintas quanto peixes e homens”, afirma Shubin. E continua: “Na época de Owen e Darwin, o abismo entre nadadeiras e membros parecia intransponível. As nadadeiras dos peixes não apresentam semelhança óbvia alguma com membros. (…) No entanto, em meados do século XIX, os anatomistas começaram a entrar em contato com misteriosos peixes que habitavam os continentes do sul. Um dos primeiros foi descoberto por anatomistas alemães que trabalhavam na América do Sul. Parecia um peixe normal, com nadadeiras e escamas, mas por trás da garganta apresentava grandes sacos vasculares: pulmões.A criatura, porém, tinha escamas e nadadeiras. Tão confusos ficaram seus descobridores que batizaram a criatura de Lepidosiren paradoxa, ‘anfíbio paradoxalmente escamado’.”

Pois é: o  Lepidosiren paradoxa é chamado entre nós de piramboia, ou “peixe-cobra”  (do tupi: pira “peixe” e mboîa “cobra”). E é a partir dele que vai se voltar no tempo até o  Tiktaalik.

E essa é uma viagem até nós mesmos. Mas é melhor desenhar. “Somos um pacote de cerca de dois trilhões de células embaladas de um modo muito preciso. Nosso corpo existe em três dimensões, com as células e órgãos nos lugares corretos. A cabeça fica na parte superior. A coluna vertebral, nas costas. Nossas vísceras na parte de dentro, braços, nas laterais e pernas, na parte inferior. Essa arquitetura básica nos distingue das criaturas primitivas, organizadas como massas ou discos de células. O mesmo desenho básico também é uma parte importante do corpo de outras criaturas. Como nós, peixes, lagartos e vacas têm corpo que são simétricos com frente/costas, parte de cima/parte de baixo e lado esquerdo/lado direito”, desenha Shubin.

Para aprofundar, o melhor é ler o livro. E concordar com o resumo de Clara Barata (Público, 2009): “O que Shubin conta é a história do corpo, de como passaram a existir corpos. “Talvez os corpos tenham surgido quando os micróbios desenvolveram novas formas de se comerem uns aos outros, ou de evitarem serem comidos? Ter um corpo com muitas células permite que as criaturas fiquem grandes. Ficar grande é muitas vezes uma boa maneira de evitar ser comido. Os corpos podem ter surgido como esse tipo de defesa”.

O fato é que nós começamos peixes e ainda não sabemos aonde vamos chegar. Por enquanto, somos todos Filhos de Gaia, da Mãe Terra, o verme, o peixe, o tigre, o homem, a mulher, todos lutando encarniçamente pela sobrevivência, juntos e misturados, todos do mesmo signo, farinha do mesmo saco, implacáveis çaçadores e pescadores  de nós mesmos.  (Francisco Maciel)

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