HUMBOLDT: O INVENTOR DA NATUREZA

Alexander von Humboldt foi um cientista prussiano, escritor, aventureiro destemido e poliglota. Foi etnógrafo, antropólogo, físico, geógrafo, geólogo, mineralogista, botânico, vulcanólogo e humanista.  Dizer tudo isso é muito pouco. Humboldt foi um cosmonauta, um homem-cósmico, ou ainda, segundo sua biógrafa Andrea Wulf, o pai do movimento ambientalista, o inventor da natureza.

Humboldt até se encontrou várias vezes com Simón Bolívar, principal líder da libertação da América Latina dos colonizadores, que reconheceu a influência do naturalista. De fato, Bolívar o chamou diretamente de “o descobridor do Novo Mundo”. Enquanto Colombo foi a causa de nações inteiras serem reduzidas à servidão, Humboldt abriu o caminho para as revoluções que deram independência às nações da América do Sul”, afirma a historiadora da ciência Laura Dassow Walls / Crédito: Selo postal pelos 250 anos de nascimento – BBC
Por três décadas, Humboldt se dedicou a narrar sua viagem pela América em 32 volumes que incluíam botânica, zoologia, geologia, astronomia, meteorologia, relações públicas, economia e geografia dos países americanos visitados por ele”. Seu trabalho foi tão influente que o naturalista britânico Charles Darwin afirmou que, se ele não tivesse lido Humboldt, nunca teria escrito Viagem do Beagle, livro sobre uma expedição que depois seria uma das principais influências para A Origem das Espécies. / Crédito: BBC
Alexander von Humboldt nasceu em 14 de setembro de 1769 em Berlim, em uma rica e aristocrática família, que era próxima ao rei Frederico, da Prússia. “Quando sua mãe morreu, ele tinha cerca de 25 anos e herdou uma fortuna”, diz Andrea Wulf, autora de uma biografia premiada sobre o naturalista. “Ele gastou quase todo o dinheiro em uma viagem de exploração na América Latina que durou cinco anos”, afirma Wulf / Crédito: Amazon
Laura Dassow Walls: “Em poucas palavras, Colombo, viajando com um exército, descobriu uma riqueza material que levava à servidão; Humboldt, viajando apenas com um único companheiro, o botânico francês Aime Bonpland, descobriu uma riqueza de conhecimentos que levaram à libertação” / Crédito: Mauro César Brosso / A corrente de Humboldt (2011)
A melhor prova de seu profundo legado, 250 anos após seu nascimento, está em seu nome: ele é usado para nomear muitos lugares, formas de relevo, plantas e animais. Somente na América Latina existe uma corrente que banha as costas do Peru e Chile, um montanha na Venezuela, uma cordilheira no México, uma comuna na Argentina, um rio em Santa Catarina, no Brasil, e uma baía na Colômbia, entre outros. Ele também deu o nome a uma espécie de pinguins e a uma lula gigante, a uma cratera na Lua e a um asteroide. Até o Estado de Nevada, nos Estados Unidos, quase se chamou Humboldt. O pinguim de Humboldt vive nas costas do Chile e Peru, bem como em ilhas próximas, no oceano Pacífico / Crédito: BBC – Getty Images
Humboldt: “a bondade é algo que raramente se vê em aliança com a força”. Uma raposa tibetana se prepara para dar fim à vida de uma terrificada marmota do Himalaia, nas montanhas Qilian, na China. Esse instantâneo capturado pelo fotógrafo Yongqing Bao ganhou o Wildlife Photographer of the Year (WPY) , uma das principais premiações de fotografias de vida selvagem do mundo / Crédito: Yongqing Bao / O Tempo

Ao longo da costa peruana, a Corrente de Humboldt é um enorme ecossistema. Com sua água rica em nutrientes, a corrente oceânica estudada por Humboldt há 200 anos é vital para os peixes e outros animais marinhos. Mas as mudanças climáticas e a pesca desenfreada com redes de arrasto ameaçam esse ambiente.

 Mas quem foi Humboldt?  Alexander von Humboldt, foi “um cientista prussiano, escritor, aventureiro destemido e poliglota”. Mais é pouco. Humboldt foi um cosmonauta, um homem-cósmico, ou ainda, segundo sua biógrafa Andrea Wulf, o pai do movimento ambientalista, o inventor da natureza.

Em matéria sobre os seus 250 anos de nascimento, a DW (Deutsche Welle) afirma: “após sua morte, em 1859, a fama de Alexander von Humboldt diminuiu e, durante a Primeira Guerra Mundial, ele quase desapareceu. Agora, 160 anos depois, Humboldt parece ter voltado à moda. Em breve, o mais novo museu de Berlim, instalado no antigo palácio da cidade hoje reconstruído, vai levar seu nome: Humboldt Forum.”

“Quando Humboldt morreu, a especialização e a classificação eram vistas como o futuro da ciência. Na época, pensava-se que apenas uma compreensão profunda de cada disciplina científica poderia revelar novos conhecimentos. Qualquer outra coisa era superficial e diletante”, informa a DW. “Já Humboldt buscava a interconexão de cada organismo com fenômenos geológicos, elementos químicos e a ação humana. Ele nos possibilitou ver a Terra como sistema complexo, mas dinâmico, através da ‘ciência humboldtiana’, uma abordagem científica que combina dados precisos, observação pessoal e uma visão holística dos enigmas da natureza.”

Ainda na matéria da DW, Vera Kutzinski, diretora do projeto Alexander von Humboldt em inglês, um projeto da Universidade Vanderbilt e a Universidade de Potsdam, destaca que “um aspecto fundamental que conecta Humboldt ao nosso tempo de notícias rápidas e digitalização crescente é o fato de seu trabalho ter ficado inacabado.” “Ao insistir que todo o conhecimento é incompleto, que o processo de aprendizado nunca termina realmente, Humboldt faz uma distinção entre produzir e consumir informação – ou dados – e o método de realmente saber algo”, avalia Kutzinski.

A DW sublinha: “Humboldt foi um trampolim para gerações de cientistas, como Charles Darwin, que publicou Sobre a Origem das Espécies alguns meses após a morte de Humboldt”.

“Se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes”, disse Isaac Newton. Em A Invenção da Natureza – A Vida e as Descobertas de Alexander Von Humboldt (São Paulo, Planeta, 2016, tradução de Renato Marques), Andrea Wulf prova por A+B que  “Darwin estava nos ombros de Humboldt”.

 Humboldt e Darwin –  Quando o HMS Beagle partiu para sua viagem (1831-1836) ao redor do globo, Charles Darwin tinha 22 anos e entre os livros na pequena prateleira de sua apertada cabine estava Narrativa Pessoal, de Alexander von Humboldt, o relato em sete volumes de sua expedição à América Latina.  “A minha admiração por sua famosa narrativa pessoal (parte da qual conheço quase de cor)”, disse Darwin, “fez com que eu decidisse viajar para países distantes e me levou a me candidatar como naturalista voluntário no navio de sua majestade, o Beagle“.

Andrea Wulf: “Na primeira década do século XIX, Lamarck tinha declarado que, influenciados por seu meio ambiente, os organismos poderiam mudar ao longo de uma trajetória progressiva. Em 1830, um ano antes de Darwin embarcar no Beagle, a batalha entre a ideia de espécies mutáveis versus espécies fixas havia se tornado um violento bate-boca na Académie des Sciences em Paris.  Numa de suas viagens de Berlim a Paris, Humboldt assistira a um violento debate na Académie, e ficou o tempo todo sussurrando comentários desdenhosos acerca dos argumentos em defesa das espécies fixas para os cientistas sentados ao seu lado. Em Quadros da natureza, mais de duas décadas antes, Humboldt escrevera sobre a ‘gradual  transformação de espécies’.”

Prosseguindo: “Darwin também estava convencido de que a ideia de espécies fixas era equivocada. Tudo existia em um fluxo instável e estava em constante processo de mudança ou, como dizia Humboldt, se o planeta estava mudando, se terra e mar se moviam, se as temperaturas estavam aumentando ou resfriando – então todos os organismos ‘também devem estar sujeitos a várias alterações’. Se o meio ambiente influenciava o desenvolvimento dos organismos, então os cientistas precisavam investigar mais detidamente climas e habitats. Portanto, o foco do novo pensamento de Darwin tornou-se a distribuição de organismos pelo planeta, o que era a especialidade de Humboldt – pelo menos no que tangia ao mundo das plantas. A geografia das plantas, disse Darwin, era  ‘o princípio básico das leis de criação’.”.

Darwin  viajou com Humboldt na cabeça, e nos olhos, e na mente. Andrea Wulf: “Humboldt discutiu a forma como plantas e animais ‘limitam a população uns dos outros’, bem como comentou sua ‘longa e contínua disputa’ por espaço e alimento. Era uma batalha implacável. Os animais que ele tinha encontrado na selva  ‘temiam-se entre si’, Humboldt observou, ‘a bondade é algo que raramente se vê em aliança com a força’ – ideia que viria a se tornar essencial para o conceito de seleção natural.  No Orinoco, Humboldt fez comentários sobre a dinâmica da população de capivaras, os maiores roedores do mundo. Enquanto remava pelo rio, Humboldt havia observado que as capivaras se reproduziam rapidamente, mas também reparou que as onças as caçavam em terra e os crocodilos as devoravam na água. Sem esses ‘dois poderosos inimigos’, Humboldt observou, a população de capivaras teria explodido. Ele também registrou que as onças perseguiam antas enquanto os macacos berravam, ‘apavorados com essa luta’.”.

“Que carnificina frequente na magnífica e calma paisagem das lorestas tropicais”, Darwin rabiscou na margem. “Mostrar como os animais caçam uns aos outros”, anotou ele, “que verificação ‘positiva’”. Aqui, escrito a lápis em um canto do quinto volume da Narrativa pessoal de Humboldt, Darwin registrou pela primeira vez ‘sua teoria à luz da qual poderia trabalhar’.”

Humboldt morre em 6 de maio de 1859. Seis meses depois, no dia 24 de novembro,  Darwin lança  “A Origem das Espécies”.

Sentado nos ombros de Humboldt, Darwin viu mais longe, teve uma antevisão de nosso tempo, criou um novo olhar, revelou um novo cosmo.

 Por que Humboldt segue atual

https://www.dw.com/pt-br/por-que-humboldt-segue-atual/a-47827954

A história do alemão que ‘redescobriu’ a América e influenciou Darwin e Bolívar

https://www.bbc.com/portuguese/geral-49707318

 

Corrente de Humboldt sofre com mudanças climáticas

https://www.dw.com/pt-br/corrente-de-humboldt-sofre-com-mudan%C3%A7as-clim%C3%A1ticas/av-50729166

Os vulcões e a revolução científica de Humboldt

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