O TEMPERO DA VIDA

A história das especiarias na Europa ficará para sempre ligada à história do mundo, como responsável por novas rotas terrestres e marítimas, o desenvolvimento do contacto com o Oriente e até pela descoberta da América – quando o que se procurava era um caminho mais curto para o Oriente, de onde provinham estes produtos exóticos.

Depois de meio século de viagens de reconhecimento ao longo da costa de África, os Portugueses chegam por fim ao Oriente, numa significativa¬¬¬ viagem de 13000 milhas de Lisboa à costa do Malabar. O êxito desta arrojada missão de dois anos põe termo ao monopólio árabe do lucrativo comércio de especiarias e instaura o poder europeu no Extremo Oriente, que se manteria por quatro séculos. O embarque realizou-se num sábado, 8 de Julho de 1497, e foi um espetáculo impressionante. Luís de Camões, que descreveu esta viagem, exprimiu o orgulho da multidão que se juntou naquela manhã nas areias brancas do Restelo / Crédito: Índia Portuguesa
“Com o passar dos anos, a culinária foi tornando-se uma das partes mais importantes do dia a dia da civilização. Reis e Imperadores tinham experts em suas cozinhas e suas diferenciações estavam exatamente em como preparar algo de modo a ficar delicioso e ao mesmo tempo usar os ingredientes que lhes são comuns. Afinal um bife é um bife, aqui ou na China. A diferença está em como se prepara. E o que ele leva a mais.” / Crédito e texto: Cook Tem
“Piperina, eugenol, miristicina, elemicina, cinamaldeído, safrol, zingerona… são moléculas que hoje até têm certa aplicação, mas nada tão relevante quanto no passado, quando eram tão desejadas e valorizadas a ponto de motivarem grandes investimentos para obtê-las e conflitos para monopolizá-las. Na verdade, as moléculas em si não eram conhecidas, mas sim o que as continham: as especiarias do oriente, no caso, a pimenta-do-reino, a noz-moscada, a canela, o cravo-da-índia e o gengibre.”/ Crédito e texto Debbie Cabral / Deviante
“Ao longo dos séc. XV e XVI, os navegadores portugueses desvendaram as rotas marítimas do Atlântico sul, do Índico e do Pacífico até ao Japão. Uma façanha desta natureza nunca se realizaria por um motivo só (curiosidade, espírito de aventura, espalhar a fé cristã, riquezas ). Os portugueses queriam sobretudo o ouro da África, a pimenta da Índia e as outras especiarias que não sabiam ao certo onde as procurar.” / Crédito e texto: fernandaataide55
“Quando os mongóis e os turcos interromperam o suprimento por terra dos condimentos do Oriente, a era dos descobrimentos começou. A Europa descobriu que não podia viver sem tempero e lançou-se ao mar e à conquista de rotas alternativas para o cominho e, por acidente, outros mundos (…) Toda a grande aventura imperial foi aromática, tangida pela pimenta e o gengibre, a hortelã e a noz-moscada. Homens rudes lançavam-se contra o desconhecido e a morte pelo rosmaninho. Navios inteiros eram tragados pelo mar e deixavam, na superfície, irônicas sopas de ervas. Até a poluição era inocente: se se rompesse um porão de navio, as praias se cobriam de grãos de mostarda, as gaivotas se intoxicavam com favos de baunilha”, escreve Luís Fernando Veríssimo em A mesa voadora (2001) / Imagem: Conhecimento Científico R.7

Os romanos chamaram-lhes species. Associadas a climas quentes, tropicais, paragens exóticas e longínquas, a verdade é que algumas das especiarias mais conhecidas, como a mostarda, o funcho e o açafrão, são de origem europeia.   Os portugueses, com as suas viagens marítimas intercontinentais, popularizaram na Europa o que na Ásia – o continente onde existe maior variedade e maior consumo de especiarias – já era de uso comum.

Chineses e árabes usavam-nas abundantemente e comercializavam-nas, gregos e romanos escreveram exaustivamente sobre o seu uso, e quando os Visigodos cercaram Roma, em 408, um dos resgates exigido foi 3000 libras de pimenta. Os cruzados chegaram à Palestina no século XII, reacendendo o comércio e, na Renascença, os grãos de pimenta, valiosíssimos, chegaram a ser usados como pagamento, em vez de dinheiro.

No séc. XIII, Marco Polo já tinha tentado encontrar uma rota alternativa às dos comerciantes árabes, que controlavam o seu comércio, mas foi o Infante D. Henrique que conseguiu por os portugueses na rota da Índia, popularizando as especiarias na Europa. Na mesma época, Colombo chegou à América e regressou com pimenta-da-jamaica, pimentões picantes e baunilha: estavam definitivamente abertas todas as rotas de acesso a estes condimentos que mudaram para sempre a cozinha mundial.

Medicina e CosméticaChineses, egípcios, romanos e gregos já faziam referência a certas especiarias curativas em caso de doença. Vejamos alguns exemplos: o gengibre é antipirético, excelente para gripes e constipações; o pimentão tem boas propriedades anti-bacterianas; o açafrão ajuda as mulheres nas dores menstruais; a noz-moscada estimula as funções intestinais e a canela é um bom antisséptico. Tudo depende das doses e da duração do tratamento e, se é certo que muito deste conhecimento se perdeu, em favor dos químicos mais potentes e que apresentam resultados imediatos, a verdade é que ainda sobrevivem alguns remédios caseiros do tempo em que se podia aviar “receitas” na nossa mercearia. Por exemplo, apertar junto a um dente dorido uma cabeça de cravinho, comer um piripiri de manhã, em jejum, para acabar com as hemorroidas, tomar um chá de anis para a tosse e expectoração, ou aplicar um emplastro de mostarda e água quente para aliviar as dores reumáticas.

Na cosmética são geralmente usados os óleos essenciais retirados das plantas e posteriormente transformados. Apreciados geralmente pelo seu odor, estes óleos são obtidos através da destilação e largamente utilizados na confecção de perfumes e na aromaterapia, que promove o equilíbrio e a harmonia do corpo através dos odores.

No mais, é saborear James Joyce:  “Deus fez o alimento, o diabo acrescentou o tempero.”

Ou Erasmo de Rotterdam: “Cada momento da vida seria triste, fastidioso, insípido, aborrecido, se não houvesse prazer, se não fosse animado pelo tempero da Loucura.”

Ou Truman Capote: “O fracasso é um tempero indispensável ao êxito.”

Ou discordar de Cícero, em defesa de todos os cozinheiros e cozinheiras do planeta: “O melhor tempero da comida é a fome.”

 Sabores Longínquos – Pequena história das especiarias

http://comedoresdepaisagem.com/sabores-historia-especiarias/

A rota das especiarias

https://www.slideshare.net/fernandaataide55/especiarias-8444829/6

Como as especiarias mudaram o mundo

https://www.bbc.com/portuguese/media-49794317#

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