FECHA A PORTA DOS TEUS MARES!

Em seu célebre poema “O Navio Negreiro”, o poeta Castro Alves bradava: “Colombo! fecha a porta dos teus mares!” Hoje, mais de 150 anos depois, ele continua bradando. Sabemos que o mar nunca foi de Colombo, e sabemos mais ainda: as portas dos mares estão escancaradas. O melhor exemplo, no  presente, é a África. O futuro ninguém sabe, mas é melhor se prevenir, sem nenhum patriotismo raso: Brasil, acorda!  Fecha a porta dos teus mares!

“A intensa exploração dos oceanos coloca em perigo a reprodução de diversos peixes. Na África, a grilagem de águas por barcos de arrasto franceses, espanhóis, chineses, coreanos, japoneses e russos ameaça a segurança alimentar do continente. As embarcações operam legalmente por causa de acordos que abrem as zonas costeiras aos navios de países ricos”. / Texto: Kyle G. Brown – Imagem: Le Monde Diplomatique

“Na Europa e na Ásia, o consumo per capita de peixe só aumenta, chegando a 22 quilos por ano. Ao mesmo tempo, diminui acentuadamente na África subsaariana, onde não ultrapassa, em média, os 10 quilos. Essa transferência de proteína dos países pobres para os ricos tem ‘enormes consequências’, alerta a FAO / Texto: Kyle G. Brown. Imagem: Geounespgrupo1

É preciso ouvir os ambientalistas. Não precisa concordar: só ouvir. Com alguma atenção.

De acordo com a DW Brasil, o WWF (Fundo Mundial para a Natureza) alerta em um relatório para os resultados alarmantes causados pela pesca insustentável e pelo aumento da demanda por peixe, que podem levar inclusive à extinção de certas espécies.

Justin Woolford, encarregado pela pesca europeia no grupo ambientalista, adverte que “os rastros de destruição deixados pela pesca industrializada devem ser interrompidos ou nossos filhos herdarão um oceano estéril”.

Lembrando alguns pratos populares à base de peixe, entre eles linguado frito, paellas, filés de atum e de peixe-espada, o WWF alerta que os estoques estão ameaçados pela sobrepesca. “As pessoas deveriam pensar duas vezes antes de consumir bacalhau, peixe-espada, atum ou linguado”, disse Woolford.

Segundo o Fundo, há casos no Mar do Norte em que até 80% do volume pescado é devolvido morto ou semimorto ao mar, em parte por não possuir um tamanho satisfatório. O esgotamento do bacalhau, um dos peixes favoritos da culinária da região, já levou até a restrições legais, e a União Europeia também tomou providências para reduzir a frota pesqueira de seus países.

 Woolford julgou “um tanto promissoras” as reformas do setor pesqueiro propostas pela UE três anos atrás, mas considera ao mesmo tempo alarmante os rastros de destruição e desperdício ainda deixados pela pesca no continente.

No começo do mês, o WWF chamou a atenção para a pesca ilegal de determinadas espécies de atum no Mar Mediterrâneo para além das cotas internacionais permitidas. Para Woolford, a demanda crescente é a principal causa do aumento da pesca insustentável. “Há muitos barcos para muito pouco peixe, com subsídios mantendo estável o tamanho da frota pesqueira europeia e um grande volume de pesca ilegal ­– especialmente do atum de barbatana azul no Mediterrâneo e do bacalhau no Mar Báltico”, conta.

O relatório do Fundo critica a pesca ilegal com rede à deriva no Marrocos, destinada a atender a demanda do mercado consumidor europeu por peixe-espada, e que causa a morte de dois tubarões para cada peixe-espada capturado.

Em outra matéria também publicada na DW Brasil,  o Greenpeace denuncia que a  Europa explora pesca na África de forma “oportunista”. Tal como as chinesas, as frotas europeias aproveitam-se da má gestão das águas africanas e abusam da exploração dos recursos pesqueiros do continente, acusa ativista da Greenpeace.

“Os problemas que temos na África Ocidental não se devem apenas aos chineses. Infelizmente, os media tendem a focar-se nestes, mas o que se passa é que África é um ‘puzzle’ com vários atores diferentes em que cada um quer levar a sua avante”, disse à agência de notícias Lusa Ibrahima Cissé, diretor da campanha dos oceanos da Greenpeace África.

A África Ocidental é uma das regiões mais ricas do mundo em termos de biomassa e biodiversidade. Por exemplo, os 1,5 milhões de quilômetros de área marítima da Mauritânia, Gâmbia, Senegal, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné-Conacri e Serra Leoa (que integram a Comissão Sub-regional de Pescas) representam cerca de um quinto do total de capturas mundiais.

Mas a falta de um organismo de gestão dos recursos pesqueiros compromete a sustentabilidade ambiental e econômica das pescas nesta área, sujeita a uma enorme pressão de frotas industriais estrangeiras. “É uma área muito alargada e com poucos meios para assegurar a vigilância”, lamentou o biólogo marinho.

Segundo Ibrahima Cissé, as frotas chinesas adotam “práticas erradas” de pesca ilegal, não-declarada ou não-regulamentada, mas o mesmo fazem outros países europeus numa abordagem que classificou como “oportunista” e que já foi denunciada várias vezes pela Greenpeace. “Aproveitam as fragilidades dos sistemas de gestão de pescas em África para fornecer os seus mercados e agem como se fosse ‘terra de ninguém'”, critica.

Em “A pilhagem de peixes da África”, publicada no “Le Monde Diplomatique”, o jornalista Kyle G. Brown afirma:  “A intensa exploração dos oceanos coloca em perigo a reprodução de diversos peixes. Na África, a grilagem de águas por barcos de arrasto franceses, espanhóis, chineses, coreanos, japoneses e russos ameaça a segurança alimentar do continente. As embarcações operam legalmente por causa de acordos que abrem as zonas costeiras aos navios de países ricos”.

Ele traz um panorama profundo e doloroso da exploração implacável dos mares africanos: “Com águas ricas em peixe e Estados pobres ou em dificuldades, os países africanos são um achado para as indústrias pesqueiras russas, asiáticas e europeias. Como esgotaram as reservas de peixe em suas próprias áreas geográficas, elas mandam navios-fábrica mundo afora, com uma predileção pelo eldorado africano. Na costa leste do continente, as autoridades marítimas já estão enfrentando as maiores dificuldades para conter o apetite das centenas de traineiras que singram o Oceano Índico. A gigantesca armada que atravessa os mares do outro lado do continente, na costa ocidental, é um problema maior ainda”, escreve.

E Brown continua: “De acordo com as estimativas do centro de dados da FishSpektrum, uma plataforma especializada em identificação de embarcações, a China sozinha teria uma frota de seiscentos navios espalhados por toda a África ocidental, de Gibraltar até a Cidade do Cabo. Seus concorrentes europeus, russos e turcos estariam disputando ferozmente esse espaço. Das praias da Mauritânia, pode-se assistir ao balé das traineiras que brilham a noite toda no horizonte, como uma guirlanda luminosa.”

E o transbordo ilegal? Brown: “Para as empresas, o transbordo é uma forma rápida e eficaz de reduzir o tempo entre a captura do peixe e sua colocação no mercado – especialmente se a operação ocorre em mar aberto, longe dos olhares de todos e dos regulamentos. Isso permite misturar capturas legais e ilegais, e comercializar o mais rápido possível uma produção de origem duvidosa. A União Europeia – maior mercado do planeta – estima em 1 bilhão de euros o volume de pescado importado ilegalmente a cada ano”.

E as bandeiras? Brown: “Muitos navios operam em nome de empresas europeias, protegendo-se atrás da bandeira de um país exótico, geralmente pobre e que chama pouca atenção, o que às vezes lhes custa reprimendas da União Europeia.  O direito marítimo internacional é feito sob medida para os armadores, pois os autoriza a içar a bandeira que preferirem. Não contentes em utilizar bandeiras de conveniência, alguns mudam à vontade o nome de seus barcos, usam documentos de registro falsos ou criam estruturas opacas para disfarçar a identidade do financiador.”

Brown informa que  muitos países africanos reforçaram seus sistemas de vigilância. “Redes como a FISH-i e a Comissão Sub-Regional de Pesca da África Ocidental melhoraram seus sistemas de inteligência e compartilhamento de informações, dificultando um pouco a tarefa dos criminosos dos mares.”

Mas o problema de fundo permanece inalterado: “Apesar de seu custo proibitivo, a pesca intensiva de longa distância continuará florescendo enquanto satisfizer a demanda do consumidor. Na Europa e na Ásia, o consumo per capita de peixe só aumenta, chegando a 22 quilos por ano. Ao mesmo tempo, diminui acentuadamente na África subsaariana, onde não ultrapassa, em média, os 10 quilos. Essa transferência de proteína dos países pobres para os ricos tem ‘enormes consequências’, alerta a FAO, que estima que três quartos das espécies marinhas capturadas no planeta sejam alvo de exploração excessiva ou já estejam em via de extinção”, conclui Kyle G. Brown.

Em seu célebre poema “O Navio Negreiro”, o poeta Castro Alves bradava: “Colombo! fecha a porta dos teus mares!” Hoje, mais de 150 anos depois, ele continua bradando. Sabemos que o mar nunca foi de Colombo, e sabemos mais ainda: as portas dos mares estão escancaradas. O melhor exemplo, no  presente, é a África. O futuro ninguém sabe, mas é melhor se prevenir, sem nenhum patriotismo raso: “Brasil, acorda!  Fecha a porta dos teus mares!”  (Francisco Maciel)

Entidade ambientalista adverte sobre problemas da pesca na Europa

https://www.dw.com/pt-br/entidade-ambientalista-adverte-sobre-problemas-da-pesca-na-europa/a-2192074

Greenpeace: Europa explora pesca em África de forma “oportunista”

https://www.dw.com/pt-002/greenpeace-europa-explora-pesca-em-%C3%A1frica-de-forma-oportunista/a-48560899

A pilhagem de peixes da África

https://diplomatique.org.br/a-pilhagem-de-peixes-da-africa/

Navio Negreiro IV – Adriana Calcanhotto

Machado de Assis | Heinrich Heine: 13 de Maio – Navio Negreiro

http://www.erratica.com.br/opus/107/index.html

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