OS PENSAMENTOS DA ARRAIA-ELÉTRICA

Segundo Platão, alguém chamou Sócrates de ‘arraia-elétrica’, um peixe que, ao contato, paralisa e entorpece; e Sócrates admite a semelhança, desde que seus ouvintes reconheçam que ‘a arraia-elétrica paralisa os outros apenas por estar ela mesma paralisada… Não é que eu deixe os outros perplexos, já conhecendo as respostas. A verdade é que eu lhes transmito a minha própria perplexidade’.”

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Detalhe: Jacques-Louis David pintou, em 1787, a impressionante Morte de Sócrates, retratando o término de um empolgado discurso e a entrega da taça de cicuta ao filósofo, condenado à morte pela ingestão do fatal veneno / Crédito: Research Gate

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Quadro completo: a cena é de 399 A.C., em Atenas, quando alguns de seus mais louváveis cidadãos acusam o pensador de não venerar os deuses considerados na cidade, além de apresentar iniciações religiosas que não aquelas consagradas pela égide santa daquele tempo. O pintor tomou grandes liberdades: Sócrates tinha 70 anos e não fazia academia de ginástica; o velho de costas para a cena é Platão, que era jovem na época e não esteve no julgamento / Crédito: Research Gate

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Corpulento, olhos saltados, vestes rotas e pés descalços, era considerado o homem mais feio de Atenas. Costumava ficar horas mergulhado em seus pensamentos. Quando não estava meditando solitário, conversava com seus discípulos, procurando ajudá-los na busca da verdade / Imagem e texto: Toda Matéria

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Arraia parece sorrir ao ser fotografada em aquário nos EUA e ser comparada, neste site, com o eletrizante Sócrates / Foto: Nati Harnik/AP

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Sócrates (469–399 a.C.) é um dos  fundadores da    filosofia ocidental. Não escreveu uma palavra mas suas ideias foram exuberantemente editadas por Platão (428/427–348/347 a.C.), seu principal discípulo, alterego, porta-voz, ghost writer, escritor fantasma. Para o filósofo britânico Martin Cohen, Platão, o idealista, oferece “um ídolo, a figura de um mestre, para a filosofia. Um santo, um profeta do ‘Deus-Sol’, um professor condenado por seus ensinamentos como herege.”  “Sócrates e Jesus, o Sábio e o Messias, a luz para um era o saber, o conhecimento, para o outro foi a fé e a salvação da alma. Um gerou academias e liceus, o  outro mosteiros e seminários. Educadores da humanidade”, afirma o professor e historiador brasileiro Voltaire Schilling.

“Só sei que nada sei”. “Conhece-te a ti mesmo”.  Essas duas frases têm tudo a ver com Sócrates e circulam pelo planeta como os primeiros degraus  (sobem ou descem?)  para se chegar ao mundo interior.

No seu livro A Vida do Espírito: o Pensar, o Querer, o Julgar (Rio de Janeiro,  Editora Civilização Brasileira, 2008), Hannah Arendt escreve que Sócrates “autodenominava-se um moscardo e uma parteira. Segundo Platão, alguém chamou-o de ‘arraia-elétrica’, um peixe que, ao contato, paralisa e entorpece; e Sócrates admite a semelhança, desde que seus ouvintes reconheçam que ‘a arraia-elétrica paralisa os outros apenas por estar ela mesma paralisada… Não é que eu deixe os outros perplexos, já conhecendo as respostas. A verdade é que eu lhes transmito a minha própria perplexidade’.”

Arendt afirma que “nos diálogos praticamente nenhum dos interlocutores de Sócrates jamais produziu um pensamento que não fosse um falso feto, que Sócrates considerasse merecedor de vida”. E continua:  “A arraia-elétrica, à primeira vista, parece ser o contrário do moscardo: ela paralisa, enquanto o moscardo desperta. No entanto, aquilo  que do lado de fora é visto como paralisia – do ponto de vista dos negócios humanos comuns – é sentido como o mais alto grau de atividade e de vida. Isso pode ser confirmado a despeito das raras evidências documentadas sobre a experiência do pensamento, por um certo número de afirmações dos filósofos, através dos séculos”. [Conhecimento inútil: os antigos dentistas gregos usaram o veneno de arraias como um anestésico.]

Sócrates, além de arraia-elétrica, era vento. Arendt: “Sócrates mesmo, consciente de que estava lidando com invisíveis em sua investigação, usou uma metáfora para explicar a atividade de pensar: a metáfora do vento: ‘Os ventos são eles mesmos invisíveis, mas o que eles fazem mostra-se a nós e, de certa maneira, sentimos quando eles se aproximam’.”

Arendt lembra que Sófocles, em sua peça Antígona, coloca “o pensamento rápido como o vento” dentre as coisas dúbias, “assombrosas” (deina) com que os homens são abençoados ou amaldiçoados.

E, a seguir, Arendt lança uma ponte entre Sócrates e Heidegger: “Em nossos dias, Heidegger às vezes fala do ‘tufão do pensamento’ e usa explicitamente a metáfora no único lugar de sua obra em que fala diretamente de Sócrates: ‘Durante toda a sua vida e até a hora da morte, Sócrates não fez mais do que se colocar no meio dessa correnteza, desta ventania [do pensamento], e nela manter-se. Eis por que ele é o pensador mais puro do Ocidente. Eis por que ele não escreveu nada. Pois quem sai do pensamento e começa a escrever tem que se parecer com as pessoas que se refugiam, em um abrigo, de um vento muito forte para elas. (…) Todos os pensadores posteriores a Sócrates, apesar de sua grandeza, são como estes refugiados. O  pensamento tornou-se literatura”.

Por causa de seus pensamentos, Sócrates é condenado à morte. Arendt: “…os atenienses lhe disseram que o pensamento era subversivo, que o vento do pensamento era um furação a varrer do mapa os sinais estabelecidos pelos quais os homens se orientavam, trazendo desordem às cidades e confundindo os cidadãos. E, embora Sócrates negue que seu pensamento corrompa, ele tampouco alega que aperfeiçoe alguém. O pensamento desperta, e isso lhe parece um grande bem para a cidade”.

[“A vida não examinada não vale a pena ser vivida pelo homem” – Estas palavras teriam sido proferidas por Sócrates no seu julgamento depois de ter escolhido a morte e rejeitar  o exílio.]

Ainda Arendt: “Todos podemos vir a nos esquivar daquela interação conosco mesmos, cuja possibilidade concreta e cuja importância Sócrates foi o primeiro a descobrir. O pensamento acompanha a vida e é ele mesmo a quintessência desmaterializada do estar vivo. E uma vez que a vida é um processo, sua quintessência só pode residir no processo real do pensamento, e não em quaisquer resultados sólidos ou pensamentos específicos. Uma vida sem pensamento é totalmente possível, mas ela fracassa em fazer desabrochar a sua própria essência – ela não é apenas sem sentido; ela não é totalmente vida. Homens que não pensam são como sonâmbulos”.

A arraia-elétrica foi paralisada com uma dose de cicuta. Mas seu pensamento continua chocante até hoje, aqui e agora.

“Óóóó — óóóóóóóóó — óóóóóóóóóóóóóóó (O vento lá fora)” –  sopra Fernando Pessoa pela boca de Álvaro de Campos.

É um vento forte, um evento eterno, a morte de Sócrates… (Francisco Maciel)

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A morte de Sócrates – nerdwriter1 – legendado

O vento lá fora

09 Doutor Nostalgia – O binómio de Newton

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Hannah Arendt e a banalidade do mal (legendado)

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