EMBARCANDO NA REAL

Precisamos decidir, para o bem de todos, que a pesca não tem nada a ver com política, com ideologia, com luta de classes, com privilegiados e pobres coitados.  Estamos todos no mesmo mar. Cada qual em seu barco, em sua maré, em sua onda. A quem interessa pescar em águas turvas? A pesca brasileira precisa cair na real, embarcar na real,  com ciência e consciência, entrepostos modernos,  ordenamento profissional, postura técnica, muita pesquisa, e muita transparência.

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Este gdrandão aí é o “Damanzaihao”, o maior navio fábrica de processamento de peixe do mundo / Crédito: Sea Shepherd

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O “Damanzaihao” retirava do mar cerca de 547.000 toneladas de peixe por ano | Foto: Sea Shepherd

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O “Damanzaihao” navegando como “Lafayette” / Imagem: El Mundo

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Em junho de 2018, a Sea Shepherd, a primeira ONG de proteção e conservação da vida marinha do mundo, fundada em 1977, ajudou a parar e a apreender o maior navio-fábrica de processamento de peixe  do mundo, o “Damanzaihao”.  O colossal navio de 50.000 toneladas,   capaz de processar 547.000 toneladas de peixe por ano,   foi acusado de sobrepesca e de pesca ilegal,

Gostaria de propor aqui um exercício de imaginação. Pois imaginem que esse barco gigantesco está trabalhando em águas do estado do Rio de Janeiro com apoio de helicópteros. Pequenos barcos pesqueiros  (como os  nossos)  ajudam a trazer sua vasta produção para mercados, restaurantes, peixarias. Um navio tanque abastece de óleo os seus poderosos motores e ele não precisa tocar em terra. Sua tripulação é trocada de mês em mês. As fábricas fecharam: não dá para concorrer com o monumental navio fábrica. Sua presença imponente e dominante resolveu um velho problema: os pescadores artesanais não podem mais acusar os pescadores industriais de usar “barcos grandes” e de acabar com os peixes a 100 metros de qualquer praia. Agora só existe uma realidade: todos os nossos barcos vivem das migalhas do maior navio fábrica de processamento de peixe  do mundo.

Sim, ficamos livres da daquela velha lenga-lenga de nossos “barcos grandes”  produzirem enormes prejuízos ao meio ambiente marinho e ameaçarem a subsistência dos  pequenos barcos artesanais. Nossos  “barcos grandes” eram  predadores terríveis e seus donos  não passavam de monstros ambiciosos e insaciáveis. Os barcos pequenos eram arrimo de família, uns pobres coitados em busca de sobrevivência num mundo mau. Eram peixes  pequenos artesanais lutando heroicamente contra tubarões industriais. Era Davi contra Golias.  Era o Bem contra o Mal. Na sombra do maior navio fábrica de processamento de peixe  do mundo, esse bate-boca terminou de uma vez por todas. O mundo mudou.

Fim do exercício de imaginação.

No mundo real não é bem assim que a banda toca. Os pescadores artesanais atualmente compõem a maioria do universo pesqueiro da região litorânea fluminense. Utilizam pequenas e médias embarcações motorizadas e aparelhos de pesca com sofisticação tecnológica, acima de cem metros de profundidade, e trabalham com bastante liberdade.  Enquanto isso, os “barcos industriais” são obrigados a utilizar o PREPS (Programa Nacional de Rastreamento de Embarcações Pesqueiras por Satélite, instituído e regulamentado por meio da Instrução Normativa Interministerial n.º 2, de 04 de setembro de 2006), produzindo provas contra nós mesmos,  além de outras normas e portarias proibitivas.

O que causa revolta entre nossos associados é que a Lei só existe para nós, que somos legalizados, temos documentos em ordem, endereço conhecido, rastreadores, etc. Enquanto isso, a pesca ilegal e  clandestina tem completa liberdade para atuar fora da lei, longe do alcance da justiça.

Uma coisa é clara. Precisamos decidir, para o bem de todos, que a pesca não tem nada a ver com política, com ideologia, com luta de classes, com privilegiados e pobres  coitados.  Estamos todos no mesmo mar. Cada qual em seu barco, em sua maré, em sua onda. A quem interessa pescar em águas turvas? A pesca brasileira precisa cair na real, embarcar na real, com ciência e consciência, entrepostos modernos,  ordenamento profissional, postura técnica, muita pesquisa, e muita transparência.

(Parece que, em 2019, o navio fábrica  “Damanzaihao”, que já se chamou “Lafayette”,   mudou de nome para “Vladivostok 2000” e continua na lista de navios de pesca ilegais, não declarados e não regulamentados, a IUU.)

PRESIDENTESSSS

Alexandre Guerra Espogeiro
Presidente do Saperj

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