NA BEIRA DO CAIS O ÚLTIMO PESCADOR

Na beira do cais, os velhos pescadores não cansam de falar sobre a truculência com que são abordados pelas autoridades que mandam na pesca. Falam do temor e do respeito ao mar. Com o mar não se brinca. E falam também do fim: tudo tem um fim. Pensam num mar de plástico e peixes-robôs.

A Power Vision deu a conhecer o PowerRay, um robô em forma de drone que pode mergulhar até 30 metros de profundidade por até quatro horas com uma câmara integrada UHD 4K. A partir daí, a câmara grava as imagens e estas são enviadas para o seu smartphone (iOS ou Android) via Wi-Fi, com a ajuda de uma antena flutuante. Esta aplicação permite ainda que seja possível controlar o robô e a respetiva câmara, dando informações de posição, entre outras, para encontrar peixes. / Texto e imagem: Revista Gadget
Cientistas do departamento de engenharia mecânica da Universidade da Pennsylvania, nos EUA, criaram um peixe robô bizarro, movido a sangue sintético e com sistema vascular semelhante ao de um animal real. Os especialistas acreditam que em breve, será impossível diferenciar as criaturas verdadeiras de suas cópias eletrônicas / Crédito: Notícias.R7
Um peixe-robô desenvolvido por cientistas britânicos. A ideia era detectar a poluição em rios, lagos e oceanos ao redor do mundo. / Imagem: Olhar Digital
Em forma de atum, o veículo não-tripulado é chamado de BIOSwimmer – ou simplesmente Robô Tuna – e se encontra no segundo estágio de testes pela Boston Engineering Corporation. Isso já tem tempo / Crédito: Matéria Incógnita

Para os velhos pescadores, pescar é e sempre foi a primeira profissão do mundo. Ninguém tem dúvida. Mas, entre um defeso e outro, o filho do pescador vem trazer novidades das navegações dele, o filho, na internet.

O filho roda o vídeo. Um peixe-leão nada contra a corrente, sua cauda se movendo como um pêndulo em câmera lenta. Mas esse peixe não é como seus equivalentes de sangue frio. É um robô e, em vez de correr sangue em suas veias, circula um líquido denso em energia para alimentar suas baterias e empurrar suas nadadeiras.

O robô (descrito na revista “Nature”) pode ser o primeiro passo para abordar dois grandes obstáculos na robótica – poder e controle – com uma solução. E graças ao líquido energético que bombeia através do seu sistema pseudo-vascular, este robô pode ser um pouco mais parecido conosco.

Os robôs normalmente não funcionam da mesma maneira que as coisas vivas, vai dizendo o filho. Em vez de uma intricada rede de peças multifuncionais, os robôs tendem a ser feitos de componentes isolados, cada um com uma única finalidade, explica na tela o engenheiro mecânico Robert Shepherd, da Cornell University, principal investigador do novo estudo. Por exemplo, eles podem ter um sistema para endereçar energia e outro para controlar o movimento, o que nem sempre é eficiente. Em contraste, o sistema circulatório humano é multifuncional: bombeia o sangue por todo o corpo e, ao fazê-lo, ajuda a regular a temperatura do corpo e transporta as células para combater as infecções.

Existem exemplos de sistemas circulatórios na natureza que são ainda mais eficientes do que os nossos. Na verdade, a inspiração inicial de Shepherd para o peixe robô na verdade não veio de um ser de escamas. Ele era fascinado pelo maçarico-de-cauda-de-barra, um pássaro migratório que ele chama de “super atleta”. A ave pode voar por uma semana sem parar, mas primeiro dobra seu peso em gordura para se preparar para o voo.

O velho pescador já está voando em outra direção. Lembra que o filho só vive ligado em robô e coisas futuras.  Anos atrás era um  robô em formato de carpa, que custava uma fortuna, media  um metro e meio e imitava o movimento de peixes reais. Eram equipados com sensores químicos para descobrir potenciais poluentes perigosos, como vazamentos de embarcações ou oleodutos submersos.

Eles transmitiriam a informação para costa por meio de tecnologia de rede sem fio.  Para isso, contariam com ajuda de bases que também servem para recarregar suas baterias. Diferentemente do peixe-robô anterior, que precisava de controle remoto, os novos modelos poderiam navegar independentemente, sem nenhuma interação humana.

O papo dos inventores rezava: “Ao usar um peixe-robô, estamos utilizando um design criado há centenas de milhões de anos pela evolução e que é incrivelmente eficiente em consumo de energia. Essa eficiência é algo que nós precisamos para garantir que nossos sensores de detecção de poluentes possam navegar no ambiente aquático por horas.” Papo.

O pescador lembra que consulta com sua cardiologista e dá um abraço no filho. Sente vontade de dizer a ele: “Esquece esses robôs. Arruma uma noiva”. Não diz nada porque sabe que o filho tem pavio curto e poderia responder na lata: “Você se casou com o mar, só transa peixe, e nem me conhece direito. Só foi me conhecer agora que virou velho marinheiro, agora que a pesca está acabando. Mas pode deixar que eu vou descolar uma noiva-robô.  E eu não sou gay, nem bi, nem cis, nem sei, vou ver”.

Melhor pescar do que pecar? Depois de enfrentar um engarrafamento monstro,  o pescador  chega no consultório lotado, pensando que estava atrasado.  Está mundo atrasado, inclusive a médica.

Pega uma revista “Época” (06.04.19), folheia e – coincidência! – abre exatamente na página em que o sociólogo Domenico De Masi diz: “As máquinas e os robôs substituíram, sobretudo, os operários de fábrica; os computadores substituíram os empregados; a inteligência artificial substituirá os profissionais criativos. A única profissão em que o homem não será substituído por uma máquina é a de padre! A solução mais eficiente é reduzir e redistribuir as horas da jornada de trabalho proporcionalmente à introdução das novas máquinas. Caso contrário, aumentará o número de desempregados, com grave prejuízo à ordem pública. “

Padres são pescadores de alma. Pescadores são pecadores. O que o papa Francisco pensa disso?

Ele larga a revista e, como último pescador  do mundo, pensa em pedir à sua médica um coração artificial. O primeiro passo para virar um pescador-robô.

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