ALTOS SALTOS E SOBRESSALTOS

Parece que o mundo do salmão anda em guerra: não faltam vetos profundos, boicotes selvagens e canhões.

A empresa Salmon Group, que responde por 12% da produção de salmão da Noruega, informou que não vai mais usar soja brasileira na alimentação dos peixes. Na imagem, filé de salmão fresco no gelo / Crédito: Jukov Studio / Shutterstock.com
O Chile, responsável por aproximadamente 25% da oferta mundial de salmão, enfrenta a pior agitação social desde o fim da ditadura de Pinochet, em 1990. Na imagem, manifestante é atingido por canhão d’água durante protesto contra o governo do Chile em Santiago / Crédito: Reuters
“Com nossa decisão estamos contribuindo para alertar para a importância de manter o (canal de) Beagle”, diz chef para parou de vender salmão no restaurante / Crédito: BBC/Bone Soup Productions LTD/Richard Hill

O salmão anda tendo os seus altos e baixos. Como  tudo nessa vida. A empresa Salmon Group, que responde por 12% da produção de salmão da Noruega, informou que não vai mais usar soja brasileira na alimentação dos peixes.

Ao G1, a companhia afirmou que o objetivo é diminuir seu papel nas emissões de carbono na atmosfera e que a decisão não tem relação com as queimadas na Amazônia — o país é o principal doador do Fundo Amazônia.

A pegada de carbono é uma medida internacional que calcula o total de gases que vão para a atmosfera em decorrência, por exemplo, da fabricação ou cultivo de um produto. No caso de um produto agrícola, leva-se em conta o que foi gerado desde o plantio, passando pela colheita até o transporte da matéria-prima à indústria. O veto foi anunciado pelo Salmon Group no dia 20 de setembro. A empresa disse que se baseou em um estudo de sustentabilidade elaborado em novembro de 2018.

Perguntada sobre o impacto que a decisão tem sobre o agronegócio, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, minimizou o caso.   “Zero, zero, o que a Noruega importa de soja do Brasil? O Brasil exporta US$ 40 bilhões de soja para muitos países do mundo, o que que a Noruega importa?”, questionou a ministra.

Aqui, quando se fala em salmão, muita gente pensa no Chile. O país responde por cerca de 25% da oferta global de salmão e é o segundo maior produtor mundial deste tipo de peixe.  No momento em que escrevemos, o Chile é também o país dos protestos. Manifestantes impedem que funcionários cheguem aos locais de criação e um milhão de salmões estão morrendo de fome ou apodrecendo em criadouros ou centros de processamento no Chile.

O Chile enfrenta a pior agitação social desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet, em 1990. A onda de protestos contra o aumento do custo de vida se espalhou por todo o país, levando milhões de pessoas às ruas e bloqueando estradas e portos. Mais de um quarto dos supermercados chilenos sofreu saques.

Em outra parte do mundo, os salmões enfrentam canhões. Durante o período reprodutivo, cardumes de salmão nadam contra a corrente em busca de locais seguros para depositar seus ovos. O trajeto natural dos peixes ganhou novos obstáculos nos EUA com a construção de hidrelétricas transformando o percurso dos rios.   Para contornar este problema, uma empresa de tecnologia norte-americana desenvolveu um equipamento capaz de transportar rapidamente os animais com um sistema hidráulico baseado em tubos maleáveis que não causam dano às espécies.

O mecanismo é conhecido desde 2014 e substitui a tradicional “escada” colocada em rios que facilitam a migração dos peixes da família Salmonidae na América do Norte, mas neste fim de semana, um vídeo que mostra o equipamento em funcionamento impressionou os usuários de uma rede social.

O sistema desenvolvido pela companhia funciona a partir da diferença de pressão entre o início e final do trajeto. No site da empresa, eles explicam que a entrada das tubulações funciona como um vácuo e, a partir do momento em que um peixe entra nela, ele é sugado pelo equipamento.

A estrutura recebe, em seu interior, uma lubrificação e é molhada para não causar danos aos animais que podem atingir uma velocidade de quase 40km/h. Em um dia, 50.000 peixes são transportados pelos encanamentos.

 Mas a guerra continua. Chefs argentinos de restaurantes famosos no país e no exterior decidiram tirar o salmão de seus cardápios, e o boicote tem três pilares: “cuidado com a saúde”, “estímulo ao consumo de peixes argentinos” e a “proteção do canal de Beagle”, na região da Patagônia.

O canal, localizado no extremo sul da América do Sul, liga os oceanos Atlântico, na Argentina, e Pacífico, no Chile, é definido como “santuário de espécies marinhas” e foi motivo de disputas entre os dois países. Segundo especialistas, a produção de salmão em cativeiro tende a causar desequilíbrio ambiental.

O boicote de cozinheiros argentinos surgiu depois que o Beagle passou a ser alvo de grandes produtoras do salmão de cativeiro, gerando um debate que levou à criação de um projeto de lei impedindo esse desembarque, de acordo com biólogos, ecologistas e economistas ouvidos pela BBC News Brasil.

A criação de peixes de cativeiro no mar vem sofrendo vetos em diversas partes do mundo. Na Dinamarca, a ministra de Meio Ambiente, Lea Wermelin, defendeu nesta semana que a piscicultura não seja ampliada porque, segundo ela, a atividade prejudica o ambiente marinho – ela estima que o futuro desta produção seja em terra.

Nos Estados Unidos, o governador de Washington, Jay Inslee, anunciou que restringirá os peixes de cativeiro, incluindo o salmão nas águas do Atlântico, a partir de 2025. Segundo ele, a atividade representa “um risco para o salmão natural”. A medida foi tomada, segundo a imprensa local, depois da fuga de salmões de cativeiro na região.

 Fontes: G1; Reuters; BBC News

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