FLORESTA DE BALEIAS

Baleias valem US$ 1 trilhão para o ecossistema, diz FMI. Pelo potencial de eliminar gases do efeito estufa, levantamento estima que aumento de 1% na população de animais equivaleria a “surgimento repentino de 1 bilhão de árvores”. Será que funciona essa ideia de transformar baleias em árvores?

Esta jovem baleia jubarte vale milhões de dólares ao longo de sua vida, apenas por sua capacidade de capturar carbono e depositá-lo no fundo do oceano após sua morte / Foto de Greg Lecoeur, Nat Geo Image Collection
Remover os parasitas e as cracas que se acumulam na pele com o impacto ao cair novamente na água é uma das hipóteses que tentam explicar porque as jubartes saltam tanto / Foto: Léo Merçon

As grandes baleias, incluindo as que se alimentam por filtração e os cachalotes, ajudam a absorver o carbono de algumas maneiras. Elas  armazenam toneladas de carbono em seus corpos gordos e ricos em proteínas e agem como gigantes árvores aquáticas. Quando uma baleia morre e sua carcaça desce para o fundo do oceano, esse carbono armazenado é retirado do ciclo atmosférico por centenas a milhares de anos, um sumidouro de carbono.

Estudo publicado em 2010 estimou que oito tipos de baleias, incluindo baleias azuis, jubarte e minke, coletivamente transportam quase 30 mil toneladas de carbono para o mar profundo a cada ano, à medida que as carcaças afundam. Os autores estimam que, se grandes populações de baleias recuperassem o tamanho que tinham antes da caça comercial, esse sumidouro de carbono aumentaria em 160 mil toneladas por ano.

Enquanto estão vivas, as baleias podem fazer ainda mais para absorver o carbono, graças ao seu excremento do tamanho de um jumbo. As grandes baleias se alimentam de pequenos organismos marinhos como plâncton e krill nas profundezas do oceano antes de emergir para respirar, e fazer cocô e xixi – e as últimas atividades liberam uma enorme quantidade de nutrientes, incluindo nitrogênio, fósforo e ferro, na água. Os chamados poo-namis estimulam o crescimento do fitoplâncton – algas marinhas que retiram carbono do ar através da fotossíntese.

Quando o fitoplâncton morre, grande parte do carbono é reciclado na superfície do oceano. Mas alguns fitoplânctons mortos inevitavelmente afundam, enviando mais carbono para o fundo do mar. Outro estudo de 2010 descobriu que as 12 mil baleias cachalote no Oceano Antártico extraem 200 mil toneladas de carbono da atmosfera por ano, estimulando o crescimento e a morte do fitoplâncton através de suas fezes ricas em ferro.

Não se sabe exatamente quanto cocô de baleia estimula o fitoplâncton em escala global, de acordo com Joe Roman, biólogo da Universidade de Vermont que estuda o fenômeno há anos. É por isso que os economistas adotaram o que Chami descreve como uma abordagem “se, então”, perguntando quanto carbono poderia ser capturado, hipoteticamente, se a população atual de grandes baleias do mundo aumentasse o fitoplâncton marinho em cerca de 1% em todo o mundo. Para isso, eles acrescentaram uma estimativa baseada na literatura de quanto dióxido de carbono as baleias retiram do ambiente quando morrem: cerca de 33 toneladas por carcaça, em média.

Utilizando o atual preço de mercado do dióxido de carbono, os economistas calcularam o valor monetário total dessa captura de carbono de mamíferos marinhos e o adicionaram a outros benefícios econômicos que as grandes baleias proporcionam por meio de ecoturismo.

No total, Chami e seus colegas estimaram que cada um desses gigantes gentis vale cerca de 2 milhões de dólares ao longo de sua vida. E a população global de grandes baleias? Possivelmente, um ativo de um trilhão de dólares para a humanidade.

Hoje existem cerca de 1,3 milhão de grandes baleias nos oceanos da Terra. Se pudéssemos restaurar a população aos seus números anteriores à caça comercial de baleias – entre 4 e 5 milhões – os economistas acreditam que as grandes baleias poderiam capturar cerca de 1,7 bilhão de toneladas de dióxido de carbono por ano. Isso é mais do que as emissões anuais de carbono do Brasil.

A análise ainda não foi publicada em um artigo científico revisado por estudiosos e ainda existem importantes lacunas no conhecimento científico em termos de quanto carbono as baleias podem capturar. Mas, com base nas pesquisas que foram feitas até agora, fica claro para os economistas que, se protegermos as grandes baleias, teremos grandes dividendos para o planeta.

Será que funciona essa ideia de transformar baleias em árvores?

 Leia mais:

https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2019/10/baleia-jubarte-economia-carbono-mudancas-climaticas-oceano-morte-dolares

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