O MAR E A RESSACA DE AMAR O AMOR

“Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói, e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer”, canta Camões. “Que pode, pergunto, o ser amoroso, sozinho, em rotação universal, senão rodar também, e amar? amar o que o mar traz à praia, o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha, é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?”, pergunta Carlos Drummond de Andrade. Vamos embarcar no mar do amor a bordo de Camilo Castelo Branco, Machado de Assis e Shakespeare.

Bentinho Santiago mergulhando em Capitu: “Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me” / Imagem: womensecret.over-blog.com
O marido brasileiro apresentou queixa contra os adúlteros: Ana Plácido foi presa em 6 de Junho de 1860; Camilo Castelo Branco fugiu, mas se entregou em 1 de Outubro. O par aguardou julgamento na Cadeia da Relação, no Porto. A escultura de Camilo e Ana Plácido, doada à cidade do Porto pelo escultor Francisco Simões, pode ser apreciada no Campo dos Mártires da Pátria, junto à cadeia onde estiveram presos os amantes / Crédito: Expresso – Foto: Lucília Monteiro
“Três dias depois segui barra fora, abatido e mudo. Não chorava sequer, tinha uma ideia fixa… Malditas ideias fixas! A dessa ocasião era dar um mergulho no oceano, repetindo o nome de Marcela.” / Imagem: Reginaldo Farias no filme “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de André Klotzel – Crédito: Cooltural
Noite de Almirante: “Deolindo Venta-Grande (era uma alcunha de bordo) saiu do arsenal de marinha e enfiou pela rua de Bragança. Batiam três horas da tarde. Era a fina flor dos marujos e, de mais, levava um grande ar de felicidade nos olhos” / Crédito: Jornal de Caruaru
Laurence Olivier em Othelo, filme de 1965, e na sua própria pele. “Negro… Eu tinha que ser negro. Eu tinha que me sentir negro no fundo da minha alma. Eu tinha que olhar cautelosamente o mundo de um homem negro. Não o mundo de repressão, pois Otelo se sentiria superior ao homem branco. Se descascasse minha pele, teria por baixo uma outra camada de pele negra. Eu tinha que ser belo. Muito belo”, escreve o ator em sua obra Confissões de um ator, de 1986. / Crédito do texto: Thaís Lima e Sena – Foto: Ashismos
A campanha “Machado de Assis Real” foi criada pela Faculdade Zumbi dos Palmares e pede para que nova imagem seja inserida em cima da antiga nos livros ‘para que todas as gerações reconheçam a pessoa genial e negra que ele foi’. Harold Bloom: “Machado de Assis é uma espécie de milagre, mais uma demonstração da autonomia do gênio literário, quanto a fatores como tempo e lugar, política e religião, e todo o tipo de contextualização que supostamente produz a determinação dos talentos humanos” / Foto: G1 Globo Divulgação.

Romancista, cronista, crítico, dramaturgo, historiador, poeta e tradutor, Camilo Castelo Branco é um dos escritores mais geniais e prolíferos da literatura portuguesa em todos os tempos. Um dos imperadores da língua portuguesa, pois sim. A obra Amor de Perdição foi integralmente escrita durante um período de quinze dias, enquanto esperava, na Cadeia da Relação, o julgamento do seu adultério com Ana Plácido, mulher do “brasileiro” Manuel Pinheiro Alves. Lá também  redigiu O Romance de Um Homem Rico e parte de Doze Casamentos Felizes.

A primeira edição do livro foi publicada em 1862, ano em que também editou as obras Memórias do Cárcere, Coisas Espantosas e Coração, Cabeça e Estômago. Em 1864, Camilo Castelo Branco escreveu   Amor de Salvação, um contraponto ao  de Perdição. (Camilo é um escritor com velocidade de Fórmula 1: durante quase 40 anos, entre 1851 e 1890,  escreveu mais de 260  obras, com a média superior a seis por ano, com uma pala na testa, um tinteiro de ferro e uma pena com cabo de osso.)

 A trama de Amor de Perdição  tem um clima romeu&julieta: Simão Botelho ama Teresa de Albuquerque, mas seus pais são inimigos. Baltazar Coutinho ama Teresa e entra em campo para separá-los com a aprovação do pai dela. Simão, na tentativa de raptar Teresa, mata Baltazar. Teresa vai para um convento e Simão para a prisão. Mariana ama Simão como se fosse um cão fiel e assim é amada de volta: ela é a mensageira que leva e traz as cartas dos amantes prisioneiros.  Simão é condenado à forca, mas, graças o círculo de influências do pai e da mãe, tem a pena reduzida  para dez anos de degredo na Índia. Na hora do embarque, Simão vê Teresa, que morre tuberculosa. No barco, com ele, está Mariana, a fiel.

Camilo: “Ao quarto dia, quando a nau se movia ronceira defronte de Cascais, sobreveio tormenta súbita. O navio fez-se ao largo muitas milhas, e, perdido o rumo de Lisboa, navegou desnorteado. Ao sexto dia de navegação incerta, por entre espessas brumas, partiu-se o leme defronte de Gibraltar. E, em seguida ao desastre, aplacaram as refregas, desencapelaram-se as ondas, e nasceu, com a aurora do dia seguinte, um formoso dia de primavera. Era o dia 27 de março, o nono da enfermidade de Simão Botelho”.

“Ao romper da manhã apagara-se a lâmpada. Mariana saíra a pedir luz, e ouvira um gemido estertoroso. Voltando às escuras, com os braços estendidos para tatear a face do agonizante, encontrou a mão convulsa, que lhe apertou uma das suas, e relaxou de súbito a pressão dos dedos. Entrou o comandante com uma lâmpada, e aproximou-lha da respiração, que não

embaciou levemente o vidro.

– Está morto! – disse ele.

Mariana curvou-se sobre o cadáver, e beijou-lhe a face. Era o primeiro beijo. Ajoelhou depois ao pé do beliche com as mãos erguidas, e não orava nem chorava.”

O cadáver de Simão, envolto num lençol, é levado ao convés.  “Do porão da nau foi trazida uma pedra, que um marujo lhe atou às pernas com um pedaço de cabo. O comandante contemplava a cena triste com os olhos úmidos, e os soldados que guarneciam a nau, tão funeral respeito os impressionara, que insensivelmente se descobriram. Mariana estava, no entanto, encostada ao flanco da nau, e parecia estupidamente encarar aqueles empuxões que o marujo dava ao cadáver, para segurar a pedra na cintura. Dois homens ergueram o morto ao alto sobre a amurada. Deram-lhe o balanço para o arremessarem longe. E, antes que o baque do cadáver se fizesse ouvir na água, todos viram, e ninguém já pôde segurar Mariana, que se atirara ao mar. À voz do comandante desamarraram rapidamente o bote, e saltaram homens para salvar Mariana. Salvá-la!… Viram-na, um momento, bracejar, não para resistir à morte mas para abraçar-se ao cadáver de Simão, que uma onda lhe atirou aos braços.”

Mariana segue Simão até o amargo fim. ” O comandante olhou para o sítio donde Mariana se atirara, e viu, enleado no cordame, o avental, e à flor da água, um rolo de papéis, que os marujos recolheram na lancha. Eram, como sabem, a correspondência de Teresa e Simão”.

Camilo termina com um toque autobiográfico:  “Da família de Simão Botelho vive ainda, em Vila-Real-de-Trás-os-Montes, a senhora D. Rita Emília da Veiga Castelo Branco, a irmã predileta dele. A última pessoa falecida há vinte e seis anos, foi Manoel Botelho, pai do autor deste livro.” Autor atormentado, sua vida deu muitos livros.

Brás Cubas a Bordo de Marcela  – No preâmbulo de Coração, Cabeça e Estômago, Camilo Castelo Branco escreve:

“— O meu amigo Faustino Xavier de Novais conheceu perfeitamente aquele nosso amigo Silvestre da Silva…

— Ora, se conheci!… Como está ele?

— Está bem: está enterrado há seis meses.

 —  Morreu?!

 — Não morreu, meu caro Novais. Um filósofo não deve aceitar no seu vocabulário a palavra morte, senão convencionalmente. Não há morte. O que há é metamorfose, transformação, mudança de feito.”

Esse Novais (às vezes também Novaes) citado pelo narrador (um narrador que tem os dons e os tons do próprio Camilo), pois esse Novais é o irmão de  Carolina Augusta Xavier de Novais e grande amigo de Machado de Assis. Ela veio do Porto para o Rio de Janeiro em 1866 a fim de cuidar de seu irmão, que estava mal e faleceu em 16 de agosto 1869. Carolina e Machado casaram-se em 12 de novembro de 1869 e viveram 35 anos em paz, sem notícias de guerras.

Se em Camilo o amor é romeu&julieta, em Machado de Assis o mar do  amor é mais otelo&hamlet.  Em Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), ele é quase hilário: é o mar de Marcela.

Já no primeiro capítulo, o defunto Brás Cubas narra seu óbito:  “Agora, quero morrer tranquilamente, metodicamente, ouvindo os soluços das damas, as falas baixas dos homens, a chuva que tamborila nas folhas de tinhorão da chácara, e o som estrídulo de uma navalha que um amolador está afiando lá fora, à porta de um correeiro. Juro-lhes que essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer. De certo ponto em

Diante chegou a ser deliciosa. A vida estrebuchava-me no peito, com uns ímpetos de vaga marinha, esvaía-se-me a consciência, eu descia à imobilidade física e moral, e o corpo fazia-se-me planta, e pedra, e lodo, e coisa nenhuma.” (Grifos sempre nossos.)

Para Brás Cubas também “não há morte”, mas ainda assim ele morreu de pneumonia enquanto buscava o “emplasto Brás Cubas”, a ideia fixa que lhe daria o Nobel de Medicina e os aplausos da Humanidade, se Nobel houvesse no seu tempo, ou Humanidade.

 Mas existia Marcela: “Gastei trinta dias para ir do Rossio Grande ao coração de Marcela, não já cavalgando o corcel do cego desejo, mas o asno da paciência, a um tempo manhoso e teimoso”, o diz o defunto no Capítulo 15.

No 16, vem o balanço do seu crédito, débito e descrédito amoroso: “…Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos réis; nada menos”.

O pai, feliz e orgulhoso, manda o  filho esbanjador e don juan amador para longe da ressaca da tentação e da falência, “vais para a Europa; vais cursar uma Universidade, provavelmente Coimbra; quero-te para homem sério e não para arruador [vadio] e gatuno.”

No 18, o arruador pensa besteira: “Três dias depois segui barra fora, abatido e mudo. Não chorava sequer, tinha uma ideia fixa… Malditas ideias fixas! A dessa ocasião era dar um mergulho no oceano, repetindo o nome de Marcela.”

“Éramos onze passageiros, um homem doido, acompanhado pela mulher, dois rapazes que iam a passeio, quatro comerciantes e dois criados. Meu pai recomendou-me a todos, começando pelo capitão do navio, que aliás tinha muito que cuidar de si, porque, além do mais, levava a mulher tísica em último grau. Não sei se o capitão suspeitou alguma coisa do meu fúnebre projeto, ou se meu pai opôs de sobreaviso; sei que não me tirava os olhos de cima; chamava-me para toda a parte. Quando não podia estar comigo, levava-me para a mulher. A mulher ia quase sempre numa camilha rasa, a tossir muito, e a afiançar que me havia de mostrar os arredores de Lisboa.  Não estava magra, estava transparente; era impossível que não morresse de uma hora para outra. O capitão fingia não crer na morte próxima, talvez por enganar-se a si mesmo. Eu não sabia nem pensava nada. Que me importava a mim o destino de uma mulher tísica, no meio do oceano? O mundo para mim era Marcela“, conta no cap. 19 o  defunto pouco suicida.

Morre a mulher do capitão no mesmo capítulo. “Efetivamente, poucas horas depois, era o cadáver lançado ao mar, com as cerimônias do costume. (…) A vaga abriu o ventre, acolheu o despojo, fechou-se, – uma leve ruga, – e a galera foi andando.” O capitão não se jogou no mar para abraçar o amado cadáver: preferiu fazer versos. “Versos de marujo”. “De marujo poeta”.

Brás Cubas não se deixa seduzir pelo mar, e muito menos por  Coimbra:  “A Universidade esperava-me com as suas matérias árduas, e não sei se profundas; estudei-as muito mediocremente, e nem por isso perdi o grau de bacharel; deram-mo com a solenidade do estilo, após os anos da lei; uma bela festa que me encheu de orgulho e de saudades, – principalmente de saudades. Tinha eu conquistado em Coimbra uma grande nomeada de folião; era um acadêmico estroina, superficial, tumultuário e petulante, dado às aventuras, fazendo romantismo prático e liberalismo teórico, vivendo na pura fé dos olhos pretos e das constituições escritas.”

Aluno relapso e folgazão, recebe o diploma com uma carta de alforria.  “Não digo que a Universidade me não tivesse ensinado alguma; mas eu decorei-lhe só as fórmulas, o vocabulário, o esqueleto. Tratei-a como tratei o latim: embolsei três versos de Virgílio, dois de Horácio, uma dúzia de locuções morais e políticas, para as despesas da conversação. Tratei-os como tratei a História e a Jurisprudência. Colhi de todas as coisas a fraseologia, a casca, a ornamentação, que eram para o meu espírito, vaidoso e nu, o mesmo que, para o peito do selvagem, são as conchas do mar e os dentes de pessoa morta.” (Cap. 24)

Eis bacharelado em medalhão, em boa vida, o defunto bon vivant.

Noite de Almirante – O mar de Deolindo em “Noite de Almirante” (1884) é cheio de promessas. Machado de Assis abre o conto em grande estilo: “Deolindo Venta-Grande (era uma alcunha de bordo) saiu do arsenal de marinha e enfiou pela rua de Bragança. Batiam três horas da tarde. Era a fina flor dos marujos e, de mais, levava um grande ar de felicidade nos olhos. A corveta dele voltou de uma longa viagem de instrução, e Deolindo veio à terra tão depressa alcançou licença. Os companheiros disseram-lhe, rindo:

– Ah! Venta-Grande! Que noite de almirante vai você passar! ceia, viola e os braços de Genoveva. Colozinho de Genoveva…”

         O autor explica:

“Chamava-se Genoveva, caboclinha de vinte anos, esperta, olho negro e atrevido. Encontraram-se em casa de terceiro e ficaram morrendo um pelo outro, a tal ponto que estiveram prestes a dar uma cabeçada, ele deixaria o serviço e ela o acompanharia para a vila mais recôndita do interior.

A velha Inácia, que morava com ela, dissuadiu-os disso; Deolindo não teve remédio senão seguir em viagem de instrução. Eram oito ou dez meses de ausência. Como fiança recíproca, entenderam dever fazer um juramento de fidelidade.

– Juro por Deus que está no céu. E você?

– Eu também.

– Diz direito.

– Juro por Deus que está no céu; a luz me falte na hora da morte. Estava celebrado o contrato.”

Deolindo cumpre a promessa. Genoveva acredita que marinheiro tem uma mulher em cada porto e troca o marujo por um mascate. Deolindo pensa em matar e se matar, esse esporte amoroso que virou carnificina. Mas como o capitão de Brás Cubas, não se lançou no mar do desespero. “No dia seguinte, alguns dos companheiros bateram-lhe no ombro, cumprimentando-o pela noite de almirante, e pediram-lhe notícias de Genoveva, se estava mais bonita, se chorara muito na ausência, etc. Ele respondia a tudo com um sorriso satisfeito e discreto, um sorriso de pessoa que viveu uma grande noite. Parece que teve vergonha da realidade e preferiu mentir.”

O marinheiro Venta-Grande sobrevive a seu primeiro naufrágio no mar do amor através do auto-engano. E quem não?

Olhos de ressaca – Estamos em Veneza. O tempo é ontem e sempre. O senador  Brabâncio acredita que Otelo, o general mouro,  seduziu sua filha Desdêmona por meio de bruxarias e pede a cabeça dele. Mas está vindo uma esquadra turca para atacar Chipre e Veneza precisa do general.  Diante do pai e dos senadores, Desdêmona confirma seu puro amor por Otelo. Brabâncio aceita o fato consumado e adverte o indesejado genro: se ela me traiu, vai te trair também.

O casal segue para a defesa de Chipre em barcos separados.  O general Otelo entrega Desdêmona aos cuidados de Iago, seu alferes.  Durante a viagem uma tempestade atinge as embarcações. Desdêmona chega primeiro à ilha. Algum tempo depois, Otelo desembarca com a novidade que a guerra tinha acabado porque a esquadra turca fora destruída pela fúria do mar. Mal sabem, o mouro e a bela,  que serão massacrados pelo furacão Iago. “Oh! Cuidado com o ciúme, meu senhor! Ele é um monstro de olhos verdes, que produz o alimento do qual se nutre! Esse chifrudo vive na alegre embriaguez de quem, tendo certeza de sua adversidade, não ama aquela que o trai; mas oh! que malditos minutos ele conta, esse que ama, mas duvida, mas ama perdidamente!”, insinua  Iago para Otelo no  3º ato.

Temos aqui todo o clima de Dom Casmurro (1899). O romance é narrado por  Bento de Albuquerque Santiago, ou Bento Santiago, ou Bentinho, ou Dom Casmurro em pessoa.   Machado de Assis, o bruxo do Cosme Velho, faz de Bentinho Santiago o Iago (e o Otelo) de si mesmo.

Aqui o mar se revela em todo o seu poder: profundo, insondável, indizível, misterioso. O mar é um abismo inexplicável. Ele é do tamanho do amor, tão oblíquo e tão dissimulado quanto o amor, e qualquer naufrágio, no mar e no amor, é infinito.

Vamos por capítulos. No XXXII (Olhos de Ressaca), Bentinho lembra que o agregado José Dias afirmava que Capitu (“criatura de 14 anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio desbotado. Os cabelos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma à outra, à moda do tempo,… morena, olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, tinha a boca fina e o queixo largo… calçava sapatos de duraque, rasos e velhos, a que ela mesma dera alguns pontos”) tinha “olhos de cigana oblíqua e dissimulada.”

Bentinho pede a Capitu para olhar bem dentro dos olhos dela, e a bela permite. Bentinho Santiago: “Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra ideia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que… Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem  quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve.”

No CXXI (A Catástrofe), Bento Santiago escuta passos, a campainha, palmas, golpes na cancela, vozes, e um escravo da casa de Sancha, esposa de seu amado amigo de fé irmão camarada Escobar, pedindo “para ir lá…    sinhô nadando, sinhô morrendo.”

“Vesti-me, deixei recado a Capitu e corri ao Flamengo. Em caminho, fui adivinhando a verdade. Escobar meteu-se a nadar, como usava fazer, arriscou-se um pouco mais fora que de costume, apesar do mar bravio, foi enrolado e morreu. As canoas que acudiram mal puderam trazer-lhe o cadáver.”

No CXXII (O Enterro), Bento Santiago conta: “Quis que o enterro fosse pomposo, e a afluência dos amigos foi numerosa. Praia, ruas, Praça da Glória, tudo eram carros, muitos deles particulares. A casa não sendo grande, não podiam lá caber todos, muitos estavam na praia, falando do desastre, apontando o lugar em que Escobar falecera, ouvindo referir a chegada do morto. José Dias ouviu também falar dos negócios do finado, divergindo alguns na avaliação dos bens, mas havendo acordo em que o passivo devia ser pequeno. Elogiavam as qualidades de Escobar, um ou outro discutia o recente gabinete Rio Branco – estávamos em março de 1871. Nunca me esqueceu o mês nem o ano.”

No CXXIII (Olhos de Ressaca – como o XXXII), Bento Santiago mergulha fundo no seu ciúme e se afoga. O capítulo é curto:

“Enfim, chegou a hora da encomendação e da partida. Sancha quis despedir-se do marido, e o desespero daquele lance consternou a todos. Muitos homens choravam também, as mulheres todas. Só Capitu, amparando a viúva, parecia vencer-se a si mesma. Consolava a outra, queria arrancá-la dali. A confusão era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas…

As minhas cessaram logo. Fiquei a ver as dela; Capitu enxugou-as depressa, olhando a furto para a gente que estava na sala. Redobrou de carícias para a amiga, e quis levá-la; mas o cadáver parece que a retinha também. Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar  também o nadador da manhã.”

No CXLVII (E bem, e o resto?), Bento Santiago, depois de enviar Capitu e o filho Ezequiel para a Europa (como o pai de Brás Cubas manda o filho para milhas e milhas de Marcela), Bento Santiago, Iago de si mesmo, Otelo de si mesmo, depois de sobreviver à mãe de seu filho e ao próprio filho, se despede do leitor: “E bem, qualquer que seja a solução, uma cousa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me… A terra lhes seja leve!”

Que terra? É mar. Não dá. Não cabe. Não basta. O mar do amor é grande. E a ressaca é muito maior. (Francisco Maciel)

Resumo Amor de Perdição – cenas do filme original

 

Resumo de Memórias Póstumas de Brás Cubas

Laurence Olivier 1965 Othello

Othello 1995 Dual 720p

Capitu – Olhos de Ressaca

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