CARANGUEJO SARTRE

 “Os caranguejos apareceram num dia em q ue estávamos passeando, eu e Simone. Nós concluímos que eu estava passando por uma depressão, com base no meu medo de que eu estivesse condenado pelo resto da minha vida a ser professor. Não que eu odiasse ensinar”. Acompanhe um breve momendo da história de Jean-Paul Sartre de Beauvoir, um caranguejo de garras afiadas.

Caranguejos imaginários perseguiram o jovem Sartre, quando sua adolescência terminou: eram a manifestação do medo de ser condenando a ser professor pelo resto da vida / Foto: Christmas Island Tourism Association/BBC
A Náusea: “Não era o ar miserável do tipo que nos metia medo, nem o tumor que tinha no pescoço, e que constantemente esfregava na beira do colarinho: é que sentíamos que ele gerava na cabeça pensamentos de caranguejo ou de lagosta” / Imagem: Redbubble
“Mas você sabia que eles eram caranguejos imaginários?” – “Ah, sim. Mas, depois que terminei a aula, comecei a pensar que estava ficando louco, então fui ver um psiquiatra, um rapaz jovem de quem sou amigo até hoje, Jacques Lacan” / Imagem: Paul Rand/Pinterest
“E então os caranguejos apareciam em qualquer lugar por onde eu andasse. Não quando eu estava escrevendo, só quando eu estava indo para algum lugar” / Imagem: Alexander Calder
“Odeio as vítimas que respeitam os seus carrascos” / Imagem: Goodreads
“Então, é isso que é o inferno! Nunca imaginei… Não se lembramO enxofre, a fogueira, a grelha… Que brincadeira! Nada de grelha. O inferno… O inferno são os outros!” / Imagem: LivrAdante
Ninguém nasce Sartre: torna-se Simone de Beauvoir. O casal mais cabeça do século XX, na Praia de Copacabana, 1960 / Crédito: BBC

Jean-Paul Sartre (1905-1980) foi o Existencialista.  Seu pai,  Jean-Baptiste, oficial da marinha francesa, morreu quando o futuro filósofo tinha menos de dois anos. “A morte de Jean-Baptiste foi o grande acontecimento de minha vida: devolveu minha mãe aos seus grilhões e me deu liberdade. Não há bom pai, é a regra; que não se faça disso agravo aos homens e sim ao laço de paternidade que apodreceu. Fazer filhos, não há coisa melhor; tê-los, que iniquidade! Houvesse vivido, meu pai ter-se-ia deitado sobre mim com todo o seu comprimento e ter-me esmagado”, escreve em o autor em 1964, ano do lançamento de sua autobiografia, As Palavras (Editora Nova Fronteira, 3ª ed., 2018).  Ele, o filho, também dizia:  “A família é como a varíola: a gente tem quando criança e fica marcado para o resto da vida.”

Um tremendo e temível frasista, o Sartre. Aí vão alguns tirambaços de sua metralhadora giratória:

” O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo: é esse o primeiro princípio do existencialismo.”

“É preciso ter a coragem de fazer como todo mundo para não ser como ninguém.”

“Viver é isso: ficar se equilibrando o tempo todo entre escolhas e consequências.”

“O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.”

“É melhor vencermos a nós mesmos do que ao mundo.”

“É preferível morrer pelo fogo, em combate, que em casa, pela fome.”

“No amor, um mais um é igual a um.” – “Um amor, uma carreira, uma revolução: outras tantas coisas que se começam sem saber como acabarão.”

“O homem não é, de modo nenhum, a soma do que tem, mas a totalidade do que não tem ainda, do que poderia ter.”

“Se você sente tédio quando está sozinho, é porque está em péssima  companhia.”

“Eu sempre posso escolher, mas devo saber que, se não escolher, ainda estou escolhendo.”

“Quando os ricos fazem a guerra, são sempre os pobres que morrem.”

“Liberdade não é fazer o que se quer, mas querer o que se faz.” – ” Um homem não pode ser mais homem do que os outros, porque a liberdade é semelhantemente infinita em cada um.”

“Tu és metade vítima, metade cúmplice, como todos os outros.” –  “O inferno são os outros.”

Não é aconselhável buscar em Sartre qualquer tipo de autoajuda. Ele pode ser meio indigesto, como um baiacu. Uma prova? Aí vai:

“A consciência não é um modo particular de conhecimento, chamado sentido interno ou conhecimento de si: é a dimensão de ser transfenomenal do sujeito. Tentemos compreender melhor esta dimensão de ser. Dizíamos que a consciência é o ser cognoscente enquanto é e não enquanto é conhecido. Significa que convém abandonar a primazia do conhecimento, se quisermos fundamentá-lo. E, sem dúvida, a consciência pode conhecer e conhecer-se. Mas, em si mesma, ela é mais do que só conhecimento voltado para si.

Toda consciência, mostrou Husserl, é consciência de alguma coisa. Significa que não há consciência que não seja posicionamento* de um objeto transcendente, ou, se preferirmos, que a consciência não tem “conteúdo”. É preciso renunciar a esses “dados” neutros que, conforme o sistema de referências escolhido, poderiam constituir-se em “mundo” ou em “psíquico”. Uma mesa não está na consciência, sequer a título de representação. Uma mesa está no espaço, junto à janela, etc. A existência da mesa, de fato, é um centro de opacidade para a consciência; seria necessário um processo infinito para inventariar o conteúdo total de uma coisa. Introduzir essa opacidade na consciência seria levar ao infinito o inventário que a consciência pode fazer de si, convertê-la em coisa e recusar o cogito. O primeiro passo de uma filosofia deve ser, portanto, expulsar as coisas da consciência e restabelecer a verdadeira relação entre esta e o mundo, a saber, a consciência como consciência posicional do mundo.”  (Essa argumentação cerrada está nas primeiras 20 páginas e vai sem perder pé, sem perder fôlego, pelas quase 800 outras de O Ser e o Nada – Ensaio  de Ontologia Fenomenológica, Editora Vozes, 2011, 3ª ed., tradução e notas de Paulo Perdigão. O original francês, L’Être et le Néant, foi lançado em 1943, durante a ocupação alemã e escrito,  em grande parte,  numa sala localizada do primeiro andar do Café de Flore, no bairro de Saint-Germain-des-Prés, na margem esquerda do Sena.)

A consciência não é dada de graça: vem com a angústia. “Para Sartre, a angústia é a consciência reflexiva da liberdade, uma maneira de estar consciente, na qual se descobre a minha liberdade. Em certo sentido, eu sou a angústia, porque tenho de escolher. A angústia é a de estar condenado a optar livremente. ‘É na angústia que o homem toma consciência de sua liberdade total ou, se se prefere, a angústia é o modo de ser da liberdade como consciência de ser, é na angústia que a liberdade, em seu ser, se problematiza para ela mesma’, diz Sartre. (…) Escolhemos tudo, em primeiro lugar a nós próprios a partir dessa liberdade, de maneira que, como diz Sartre, todos os meus atos são ‘modos de ser meu próprio nada’.” (Luiz Carlos Maciel, As Quatro Estações, Editora Record, 2001.)

“O homem é um ser pelo qual o nada vem ao mundo”. “O homem está condenado a ser livre”. “Viver é isso: ficar se equilibrando o tempo todo entre escolhas e consequências.” Etc. Sendo e nadando, nadando e sendo.

E, afinal de contas, onde estão os caranguejos?

Aí vão eles, traduzidos de  Talking with Sartre: Conversations and Debates, de John Gerassi. A data é o começo da década de 1970.

Jean-Paul Sartre: Claro, houve alguns desastres individuais também. Bem, não desastres, estou exagerando, mas quando decidimos experimentar drogas, acabei tendo um colapso nervoso.

John Gerassi: Você quer dizer os caranguejos?

Sartre: Sim, depois que tomei mescalina, comecei a ver caranguejos ao meu redor o tempo todo. Eles me seguiram pelas ruas, para a aula. Eu me acostumei com eles. Eu acordava de manhã e dizia: “Bom dia, meus pequenos, dormiram bem?” Eu conversava com eles o tempo todo. Eu dizia: “Ok, pessoal, estamos indo para a aula agora, então temos que ficar quietos, de bico calado, e eles ficavam lá, ao redor da minha mesa, paradinhos, até  o sinal tocar.

Gerassi: Muitos deles?

Sartre: Na verdade, não, uns três ou quatro.

Gerassi: Mas você sabia que eles eram imaginários?

Sartre: Ah, sim. Mas depois que terminei a aula, comecei a pensar que estava ficando louco, então fui ver um psiquiatra, um rapaz jovem de quem sou amigo até hoje,  Jacques Lacan. Concluímos que era o medo de ficar sozinho, o medo de perder a camaradagem do grupo. Você sabe, minha vida mudou radicalmente quando comecei a fazer parte de um grupo, que incluía camponeses e operários, bem como intelectuais burgueses, não era mais só eu e Castor [Simone de Beauvoir]. Os caranguejos realmente começaram quando minha adolescência terminou. No começo, eu os evitava escrevendo sobre eles – tipo definindo a vida como náusea – mas depois que consegui objetivar isso, os caranguejos apareceram. E então eles apareciam em qualquer lugar por onde eu andasse. Não quando eu estava escrevendo, só  quando eu estava indo para algum lugar. A primeira vez que discuti isso com Castor, quando eles apareceram num dia enquanto estávamos passeando no Midi [sul da França], concluímos que eu estava passando por uma depressão, com base no meu medo de que eu estivesse condenado pelo resto da minha vida a ser professor. Não que eu odiasse ensinar. Mas ser definido. Classificado. Sério. Essa era a pior parte: ter que levar a vida a sério, em série. Os caranguejos ficaram comigo até o dia em que simplesmente decidi que me entediavam e não prestei mais atenção neles.

O Ser e o Nada tem uma dedicatória: Ao Castor. Ninguém nasce Sartre: torna-se Simone de Beauvoir. Essa é outra história. (Francisco Maciel)

Jean-Paul Sartre and Simone de Beauvoir Screener

 

Les Fabuleuses destinées sur RTL : Simone de Beauvoir et Jean-Paul Sartre – RTL – RTL

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