O MACHADO DE KAFKA

“Penso que devemos ler apenas os livros que nos ferem, que nos apunhalam. Se o livro não nos acorda com um golpe na cabeça, por que o estamos lendo, então? Um livro deve ser o machado que quebra o mar congelado em nós.”

O machado de Kafka corta tão bem quanto o do Machado de Assis.

Franz Kafka estudou Direito na Universidade de Praga, trabalhou numa empresa de seguros e, no seu tempo livre, escreveu livros que quebram a cabeça de seus leitores / Imagem: Narod.hr
Os jovens Max Brod (de bigode) e Franz Kafka (kafkiano como sempre). Kafka pediu a Brod que queimasse suas obras. Brod congelou o pedido do amigo. / Fotos: “El País”- TNOnline-Uol – Fotomontagem: Fábio de Assis

Desenhos de Franz Kafka / Crédito: Pinterest
Reforçando a ideia: o machado de Kafka é tão machado quanto o Machado de Assis

Numa carta  datada de 27 de janeiro de 1904, enviada a  Oskar Pollak, amigo da época da escola, Franz Kafka fala sobre um livro de 1.800 páginas que  tinha acabado de ler:

“Penso que devemos ler apenas os livros que nos ferem, que nos apunhalam. Se o livro não nos acorda com um golpe na cabeça, por que o estamos lendo, então? Porque isso nos deixa felizes, como você escreve? Meu Deus! Seríamos mais felizes se não tivéssemos livro nenhum. E o tipo de livro que nos deixa felizes é aquele que nós mesmos facilmente escreveríamos se precisássemos. Mas nós precisamos dos livros que nos afetam como um desastre, que nos tormenta profundamente, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, como ser jogado em uma floresta isolada de todos, como um suicídio. Um livro deve ser o machado que quebra o mar congelado em nós.”

Franz Kafka nasceu em Praga em 1883 e faleceu em 1924, vítima de tuberculose.  Antes de morrer, pediu a seu amigo Max Brod que queimasse sua obra. Brod não queimou e se defendeu:    “Franz deveria ter nomeado outro executor se ele tivesse absoluta certeza de que suas instruções seriam  cumpridas”.   Brod achava seu amigo incendiário   “o maior poeta do nosso tempo”, ao lado de Goethe ou Tolstoi. Quando saiu de Praga, em 1939, fugindo dos invasores nazistas, levou consigo uma mala de documentos de Kafka, muitos deles notas inéditas, diários, rascunhos, romances. O mundo até hoje agradece ao bombeiro Brod.

Assim começa “O `Processo” de Kafka: “Alguém certamente andava espalhando mentiras sobre Joseph K., pois, sem que ele fizesse nada de errado, foi detido em certa manhã.” “O Processo” é uma das obras-primas  de Kafka, também autor de “A Colônia Penal”, narrativas que revelam o mundo como um campo concentracionário em que a justiça é cega, surda, absurda, e a lei é indiferente, abstrata, implacável.

[Numa reportagem publicada pela “G1 Rio” (18/09/2019), Cristina Boeckel escreve que esteve na Penitenciária Industrial Esmeraldino Bandeira, em Bangu, na Zona Oeste do Rio,  onde conversou com um preso condenado a 18 anos de prisão por homicídio e participante de um programa de leitura.  O detento lê um livro por mês e entrega uma resenha crítica ao coordenador do projeto, no caso o professor da escola de Letras da Unirio Marcelo dos Santos.  Com 12 livros lidos, ele reduziu a pena em 48 dias.

“O processo”, de Franz Kafka, se destaca entre os livros mais procurados.  “É um livro que, aparentemente, é difícil. É um livro bastante inacessível se você pensar na forma como ele é escrito e no tempo que é escrito. Mas é um livro de grande identificação. Inclusive, as resenhas que a gente corrige sobre ele são muito ricas, por uma identificação imediata, já que falam de toda questão de um processo judicial”, diz o professor Santos.]

“Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. Esta é abertura de “A Metamorfose”, onde a prisão vai bem além da alma e do corpo: o sonho vira realidade e você está reencarnado na forma mais baixa de vida. Ou em outra forma de vida. Mas que vida? E em que mundo?

Para Modesto Carone (“A Lição de Kafka”, Companhia das Letras, 2009), “a metamorfose de Gregor Samsa, que é o acontecimento determinante da história, não admite, do modo peculiar como ela se impõe à leitura, ser captada linearmente, seja como alegoria acessível a todos, seja como alegoria particular de Kafka, seja como símbolo veiculado pela tradição. Sendo assim, resta ao leitor o desconforto de se deparar com uma narração translúcida, mas cujo ponto de partida permanece opaco.”

E mais: “as causas da metamorfose em inseto são um enigma não só para quem lê como também para o próprio herói.”.

Para George Steiner (“Nenhuma Paixão Desperdiçada”, Record, 2018, p. 313), “não somos nós que lemos as palavras de Kafka e sim elas que nos leem. Nos leem e nos encontram vazios”.

Enigma. Impasse. Abismo. Névoa. Esperar sem esperança. Memórias póstumas. O machado de Kafka – como o de Machado de Assis – é capaz de nos fazer acordar prisioneiros e insetos, mortos e loucos, zumbis, ali na fronteira entre o sonho e o terror, de olhos arregalados entre este mundo irreal e o pesadelo de um universo paralelo, entre esta vida ou outra ou nenhuma outra. (Francisco Maciel)

Diante da Lei – Franz Kafka (O Processo, 1962)

The Trial (1962) Trailer

Kafka: Metamorphosis (Royal Opera House)

Resident Evil: Revelations 2 – Desenhos de Kafka (Episódio 1)

Leia na edição 183 da revista Pesca & Mar: “O Timoneiro” 

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