SEMANA SANTA, PANDEMÔNIO E CALOTERIA – SAPERJ

SEMANA SANTA, PANDEMÔNIO E CALOTERIA

A pandemia esvaziou as cidades do planeta e vem revelando, enquanto os corpos sofrem, os lados positivos e negativos da alma humana. Muitos de nossos barcos estão no mar: não é heroísmo, é hábito, rotina, sempre fizemos isso, é a nossa vida. É nas peixarias, nos supermercados, nos restaurantes, na mesa das famílias, é na beira do cais que podemos avaliar o valor do nosso trabalho: para uns, não tem preço; para outros, tem calote.

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“Durante este período temos recebido inúmeros comunicados de cheques, títulos e compromissos assumidos há 30, 60 e 90 dias atrás, que estão sendo sustados, devolvidos e não liquidados, sob a alegação da Pandemia. Pedidos já em viagem, faturados, alguns consolidados em cargas repartidas têm sido cancelados, prejudicando o fornecedor, o transportador e terceiros”, declara o Conepe em editorial. / Imagem: Serasa

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Peixe na Ceasa. Em tempos de coronavírus, comerciantes, vendedores e carregadores que mantêm o maior entreposto da América Latina em funcionamento também figuram na galeria dos heróis do cotidiano / Crédito: Ceasa

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Papa Francisco fala na Praça São Pedro, vazia, para o mundo em pandemia: “É tempo de separar aquilo que é necessário daquilo que não é. Ninguém se salva sozinho. Estamos todos no mesmo barco, todos”, afirmou o grande pescador de almas. / Crédito: Reprodução/Youtube

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O Conepe (Coletivo Nacional da Pesca e Aquicultura), que tem como presidente o armador Alexandre Guerra Espogeiro, lançou um alerta contra os oportunistas em tempos pandemônicos: “Estamos  percebendo um grande oportunismo e irresponsabilidade  do mercado em relação a compromissos financeiros e comerciais assumidos previamente.  Durante este período temos recebido inúmeros comunicados de cheques, títulos e compromissos assumidos há 30, 60 e 90 dias atrás, que estão sendo sustados, devolvidos e não liquidados, sob a alegação da Pandemia.  Pedidos já em viagem, faturados, alguns consolidados em cargas repartidas têm sido cancelados, prejudicando o fornecedor, o transportador e terceiros”, declara o Conepe em editorial.

E prossegue: “Tal atitude irresponsável por parte de alguns, tem o poder de amplificar exponencialmente a grande confusão que vamos enfrentar como macroeconomia.  É neste sentido que chamamos o nosso setor representado a repensar suas práticas comerciais. Não dá para correr este risco sem garantia de liquidez, o que somos afinal? Um setor econômico real ou um blefe? Se precisamos estar todo o tempo alavancados e alavancando, que tenhamos no mínimo a hombridade e decência de assumir nossos compromissos. Se alguém tem que pagar juros por ter errado nas previsões ou expectativas, este alguém é quem errou, e não simplesmente ligar para banco e sustar o cheque, ou deixá-lo voltar,  não pagar o título,  negar o recebimento do pedido, muitas vezes ainda na fronteira do estado, dependendo de pagamento de tributos antecipados e  prejudicando outros.  Não podemos deixar que proliferem os irresponsáveis e que a postura comercial compromissada e assumida seja vulgarizada pelo caos e oportunidade.”

Feito o alerta, é preciso notar que esse vírus desonesto não é assim tão novo em sua falta de compromisso, inadimplência e cancelamento. Muitos de nossos barcos estão no mar: não é heroísmo, é hábito, rotina, sempre fizemos isso, é a nossa vida. É nas peixarias, nos supermercados, nos restaurantes, na mesa das famílias, é na beira do cais que podemos avaliar o valor do nosso trabalho: para uns, não tem  preço; para outros, tem calote.

 

CEASA –   Francisco Tomaso,  o Franco,  está sempre a postos na Central de Abastecimento do Estado do Rio (Ceasa), em Irajá, na Zona Norte.  Ele é o  responsável pelos pregões diários na parte de pesca. Ele é nosso peixe.      A Ceasa movimenta quase 150 mil toneladas de alimentos por mês, recebe diariamente cerca de 50 mil pessoas e gera quase quatro mil empregos diretos e indiretos. Diz o jornal “Extra”: “No fim da tarde, boa parte do que não é comercializado também ajuda a matar a fome de pessoas que vão em número cada vez maior ao local em busca, muitas vezes, da única refeição do dia. Em tempos de coronavírus, comerciantes, vendedores e carregadores que mantêm o maior entreposto da América Latina em funcionamento também figuram na galeria dos heróis do cotidiano, ao lado de profissionais da saúde, do transporte e da segurança pública, entre outras categorias essenciais.” Franco está nessa frente de batalha.

O movimento anda fraco.  “Com o fechamento dos restaurantes caiu muito o consumo. A Semana Santa sempre foi o nosso momento de respiro, de  aumento de vendas, mas neste ano não sei como vai ficar. Mas, de qualquer jeito, estamos a postos, inclusive ajudando no combate ao vírus”, garante Franco, um combatente da pesca.

NA PRAÇA VAZIA – Na Praça São Pedro vazia, diante da Basílica Vaticana, o Papa Francisco afirmou que é “diante do sofrimento que se mede o verdadeiro desenvolvimento dos povos”.          Francisco falou ainda da ilusão de pensar “que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente”.

O Pontífice citou o exemplo de pessoas que doaram a sua vida e estão escrevendo hoje os momentos decisivos da nossa história. Não são pessoas famosas, mas são “médicos, enfermeiros, funcionários de supermercados, pessoal da limpeza, transportadores, forças policiais, voluntários, sacerdotes, religiosas e muitos – mas muitos – outros que compreenderam que ninguém se salva sozinho”.

“É diante do sofrimento que se mede o verdadeiro desenvolvimento dos nossos povos”, afirmou o Papa, que recordou que a oração e o serviço silencioso são as nossas “armas vencedoras”. A tempestade nos mostra que não somos autossuficientes, que sozinhos afundamos.

Assim falou o Pescador de Almas em tempos pandemônicos.

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