TRÊS MULHERES DOIDIVINAS

Pandora, Gaia e Medeia são três mulheres míticas, corajosas,   intrépidas,  doidivinas.  Vieram ao mundo para causar, lacrar, cancelar. São terra, céu, inferno.  São vida, sonho, morte. São passado e futuro. São três presentes de grego.

A caixa, presente de casamento de Zeus, não devia ser aberta. “Não aceite presentes dos deuses”, avisou Prometeu, mas Epimeteu não ouviu: aceitou Pandora com caixa e tudo / Imagem: Pinterest
James Lovelock, criador da Teoria de Gaia: “É tarde demais. Talvez se tivéssemos tomado uma rota diferente em 1967, teria ajudado. Mas, não temos tempo. Estas coisas verdes, como o desenvolvimento sustentável, eu acredito que são apenas palavras que não significam nada.” / Imagem: Pinterest
Peter Ward, criador da Hipótese Medeia: “A natureza se comporta como Medeia, a mãe impiedosa que, na mitologia grega, mata os próprios filhos” / Imagem: Delacroix, “A Fúria de Medeia” – Crédito: Vírus da Arte & Cia.

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Pois bem. Prometeu roubou o fogo do deuses  e assim, um engraçadinho diria, criou o Corpo de Bombeiros.  Claro que ele fez mais que isso.

Resumindo: Prometeu e seu irmão Epimeteu eram titãs, lutaram outros titãs ao lado de  Zeus e dos deuses olímpicos. Como recompensa por sua lealdade, Zeus deixou que Prometeu e Epimeteu criassem as primeiras criaturas para viver na Terra.

Epimeteu foi rápido e menos prudente: criou os animais e deu a cada um uma habilidade especial e uma forma de proteção.

Prometeu demorou mais tempo, moldou o homem do barro e da água, e quando  terminou já não havia sobrado nenhuma proteção para dar ao homem, seu irmão havia usado todas.

Ele, Prometeu,  sabia que o homem precisava de algo para se proteger, então pediu o fogo e Zeus disse que não, o fogo era privilégio dos deus.  Então Prometeu roubou o fogo dos deuses.

Na peça Prometeu Acorrentado, Ésquilo (que anda passeando muito por este site) faz o herói dizer (tradução de Mário da Gama Kury) que, antes de seu caloroso presente, os humanos eram  miseráveis, precários, toscos:

 

“Eles desconheciam as casas bem-feitas

com tijolos endurecidos pelo sol,

e não tinham noção do uso da madeira;

como formigas ágeis levavam a vida

no fundo de cavernas onde a luz do sol

jamais chegava, e não faziam distinção

entre o inverno e a florida primavera

e o verão fértil; não usavam a razão

em circunstância alguma até há pouco tempo,

quando lhes ensinei a básica ciência

da elevação e do crepúsculo dos astros.

Depois chegou a vez da ciência dos números,

de todas a mais importante, que criei

para seu benefício, e continuando,

a da reunião das letras, a memória

de todos os conhecimentos nesta vida,

labor do qual decorrem as diversas artes.”

 

Etc. Etc. É claro que até hoje tem gente se lixando para as artes de Prometeu, mas Zeus não perdoou o ladrão do fogo.  Mandou o deus    Hefesto modelar uma mulher fascinante: Pandora (em grego antigo: Πανδώρα, “a que tudo dá”, “a que possui tudo”, “a que tudo tira”).

Prendada, sedutora, esperta, oblíquas, dissimulada, ela foi dada a de presente a Epimeteu, irmão menos previdente do vidente Prometeu. A vingança de Zeus estava dentro de uma jarra. [ Essa jarra já foi chamada de “boceta de Pandora”, e depois aliviada para “caixa de Pandora”.  Mas parece que desde sempre foi um vaso.]

A caixa, presente de casamento de Zeus, não devia ser aberta. “Não aceite presentes dos deuses”, avisou Prometeu, mas Epimeteu não ouviu: aceitou  Pandora com caixa e tudo.

E Pandora abriu a caixa e (surpresa!) soltou a ganância, a inveja, o ódio, a dor,  a fome, a pobreza, a guerra, a morte, o covid-19.  Por isso, para Hesíodo, o poeta da Teogonia, Pandora (e todas as da laia dela)  não era flor que se cheirasse:

 

“Dela vem a raça das mulheres e do gênero feminino

dela vem a corrida mortal das mulheres

que trazem problemas aos homens mortais entre os quais vivem,

nunca companheiras na pobreza odiosa, mas apenas na riqueza.”

        

No fundo da caixa só ficou a Esperança. Sim, a Esperança, a última que morre com o que morre por último. (Para Nietzsche, o pai de Zaratustra, a tal esperança era mais uma maldição dos deuses, levando os humanos a se acomodar com a tortura de viver na espera da vida melhorar. Ou de uma morte melhor, saudável, confortável.)

*

Gaia.

Hesíodo, no já citado Teogonia, garante que no princípio era o Caos.  E entre os primeiros  filhos do Caos estavam  Gaia, terra; o Tártaro, local mais profundo que Hades (o inferno dos gregos); e o Eros, amor, desejo, “deus que supera todas as forças atraindo os opostos”.   Naquele tempo, não se tinha a concepção de que a Terra flutuasse no espaço.  Ou que fosse plana. A Terra era uma bolha imersa dentro do Caos.

Hoje Gaia é uma Hipótese, uma Teoria. James Ephraim Lovelock nasceu há 100 anos, no dia 26 de Julho de 1919,  no Reino Unido. Ficou famoso por afirmar que o Planeta Terra  está vivo e que é um organismo complexo em si mesmo. Formulou a Hipótese Gaia, depois  Teoria de Gaia, em 1969, quando trabalhava como consultor da Agência Espacial dos Estados Unidos, a NASA.

 Na Teoria de Gaia, Lovelock estabelece que a Terra é um superorganismo, composto por uma rede vivente que, através de sua interação configura o delicado equilíbrio da biosfera. O Planeta é um ser vivo possivelmente inteligente (sua inteligência é a evolução mesma).

O centenário Lovelock não acredita nas ações estilo “salvar o planeta deixando de usar sacolas de plástico”, ou coisas desse estilo. Fantasia  ou Ilusão: não fazem diferença.

“É tarde demais. Talvez se tivéssemos tomado uma rota diferente em 1967, teria ajudado. Mas, não temos tempo. Estas coisas verdes, como o desenvolvimento sustentável, eu acredito que são apenas palavras que não significam nada. Muitas pessoas vêm até mim e me dizem que não posso dizer isso, porque faz que não tenham nada a fazer. Eu digo que, pelo contrário, nos dá uma imensa quantidade de coisas a fazer. Só que não do tipo de coisas que querem fazer”, disse respondendo a perguntas numa entrevista do The Guardian.

Ele considera que, ao ter ultrapassado um ponto crítico, o aquecimento global fará com que boa parte do mundo seja inabitável e que desaparecerão até 80% dos seres humanos. O que fazer perante isso tudo?    “Desfrutar da vida enquanto se pode. Porque se se tem sorte ainda ficam 20 anos antes que tudo se desmorone”, diz ele, 100%.

Não poupa os ecologistas: “não só desconhecem a ciência, mas, além disso, a odeiam”.

Seu apoio à energia nuclear causou escândalo, furor e ranger de dentes verdes. Numa entrevista virtual realizada pelo jornal espanhol El País foi perguntado ao cientista se levava em consideração as emissões de dióxido de carbono (CO2 ) produzidas pela mineração e processamento do urânio, e na construção/demolição das centrais nucleares e seus cemitérios.

Lovelock: “A energia produzida por um quilo de material nuclear equivale à energia produzida por um milhão de quilos de carvão. Portanto, as emissões de CO2 produzidas na extração do urânio é um milhão de vezes menor do que aquela necessária para extrair carvão”.

James Lovelock defende que a energia nuclear é uma das formas com as quais pode se ajudar a frear o aquecimento global, posto que possa aliviar o enorme consumo de energia da atualidade sem prejudicar a atmosfera e, além disso, é muito rentável.

[Prometeu acha que já conseguiram apagar o incêndio em Chernobyl.]

*        Medeia.

Medeia mata os filhos para se vingar da traição de Jasão, pai deles.  Transtornada, tornada louca pelo desespero, ela não recua, vai cortar na própria carne, derramar o sangue do seu sangue.

Eis a Medeia de Eurípides (tradução de Mário da Gama Kury):

Não volto atrás em minhas decisões, amigas;

sem perder tempo matarei minhas crianças

e fugirei daqui. Não quero, demorando,

 oferecer meus filhos aos golpes mortíferos

de mãos ainda mais hostis. De qualquer modo

eles devem morrer e, se é inevitável,

eu mesma, que os dei à luz, os matarei.

Avante, coração! Sê insensível! Vamos!

Por que tardamos tanto a consumar o crime

fatal, terrível? Vai, minha mão detestável!

Empunha a espada! Empunha-a! Vai pela porta

que te encaminha a uma existência deplorável,

e não fraquejes! Não lembres de todo o amor

que lhes dedicas e de que lhes deste a vida!

Esquece por momentos de que são teus filhos,

e depois chora, pois lhes queres tanto bem

mas vais matá-los! Ah! Como sou infeliz!”

 

*

 

JASÃO

Deixa-me ao menos, em nome dos deuses,

tocar os corpos frágeis de meus filhos!

MEDEIA

(Desaparecendo lentamente com o carro.)

Não é possível; são palavras vãs.

 

*

 

A Hipótese Medeia, criada pelo paleontólogo americano Peter Ward, não tem nada a ver com Gaia.

Numa entrevista a Carlos Graieb (“A mãe natureza é cruel” – Revista Veja, edição 2149, 27 de janeiro de 2010),   Ward afirma que “há   muita coisa louvável no ambientalismo, da ênfase na economia de combustíveis e outros recursos à ideia de que é necessário preservar certas regiões do planeta. Mas a utopia do retorno a um mundo mais simples, mais primitivo, mais natural, aponta na direção errada, tanto por motivos práticos quanto por motivos teóricos. Se a população da Terra fosse de 1 bilhão de pessoas, vá lá. Mas, num mundo com 6 bilhões de habitantes, não poderemos abrir mão das conquistas de nossa civilização tecnológica se quisermos cuidar de doenças e produzir alimentos em larga escala, para ficar nas necessidades mais básicas.”

E existe outra forte razão  para abandonar a tese do retorno ao primitivismo: “A vida está sempre conspirando contra si própria, está sempre no caminho da autodestruição. Cabe a nós, humanos, refrear essa tendência, mais uma vez, por meio de nossa inteligência e da tecnologia. Estou falando na busca de soluções sem precedentes de ‘engenharia planetária’, com efeito atenuador sobre a temperatura da Terra e regulador dos ciclos básicos da biosfera.”

Medeia bate de frente com Gaia. Peter Ward: A hipótese [Gaia] tem duas versões. Uma diz que os seres vivos colaboram entre si para manter as condições ambientais dentro de parâmetros compatíveis com a manutenção da vida. A outra, mais radical, afirma que os organismos não apenas estão programados para manter os padrões de ‘habitabilidade’ da Terra, como ainda conseguiriam melhorar a química da atmosfera e dos oceanos. Essas duas versões da hipótese Gaia estão totalmente erradas.”

Medeia não tem nenhuma gaiatice. Ward: “Meu exemplo preferido é o da grande extinção no fim do período permiano, cerca de 250 milhões de anos atrás, quando pereceram 90% das espécies marinhas e 70% do total da biota. Por algum tempo acreditou-se que essa extinção também estava relacionada à queda de um asteroide. Essa tese hoje está quase abandonada. Outra teoria que emergiu com força aponta bactérias como as assassinas responsáveis por essa hecatombe. “

E Ward jogo a pá de cal: “Gaia é uma referência à deusa Terra na mitologia grega, cujo nome também pode ser traduzido como “boa mãe”.  Tomados em conjunto, os organismos existentes na Terra interagem com o ambiente de tal maneira que, a longo prazo, a vida tende a desaparecer. A natureza se comporta como Medeia, a mãe impiedosa que, na mitologia grega, mata os próprios filhos. “

*

Pandora, Gaia, Medeia. O que seria de nós sem essas deusas, sem essas míticas, místicas, insaciáveis mulheres doidivinas? (Francisco Maciel)

[OFFICIAL VIDEO] Hallelujah – Pentatonix

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