A GUERRA DOS MUNDOS

Estão no nosso sistema digestivo e em nossas bocas, preenchem os espaços entre os nossos dentes, cobrem nossa pele e forram nossa garganta. Somos habitados por até 10 mil espécies de bactérias, e essas células excedem as que consideramos nossas numa proporção de dez para um, pesando, no total, em torno de 1,5 quilo – o mesmo que o nosso cérebro. Ser humano é ser igual a qualquer micróbio, fungo, vírus. O genoma humano – o conjunto completo de instruções genéticas para um ser humano – é composto de 20 mil instruções denominadas genes. Mas se você juntar todos os genes de nosso microbioma chegará a um número de entre 2 milhões a 20 milhões de genes microbianos. Somos mundos e imundos, caos e cosmos, corpo e anticorpo, uma pequena paz entre guerras sem fim contra gripes, mosquitos e nós mesmos. Talvez nem sejamos humanos. 

Herdamos cada um dos nossos genes, mas deixamos o ventre materno sem um único micróbio. Quando atravessamos o canal vaginal de nossas mães, a caminho do nascimento, começamos a atrair colônias inteiras de bactérias / Imagem: Diário de Biologia
O genoma humano – o conjunto completo de instruções genéticas para um ser humano – é composto de 20 mil instruções denominadas genes. Mas se você juntar todos os genes de nosso microbioma chegará a um número de entre 2 milhões a 20 milhões de genes microbianos. Sarkis Mazmanian, microbiologista do Instituto de Tecnologia da Califórnia, argumenta: “O que nos torna humanos é, na minha opinião, a combinação do nosso próprio DNA com o DNA dos nossos micróbios intestinais.” / Imagem: BBC
O fim do Império Asteca deveu-se, em grande parte, à superioridade militar de seus inimigos. Os espanhóis possuíam arcabuzes, espadas e um animal desconhecido na América: o cavalo. Além dos micróbios europeus. Os ameríndios sofreram de doenças desde o primeiro contato com Colombo. A varíola foi a mais letal de todas / Créditos: Emanuel Leutze / Coleção Museu Wadsworth Atheneum.
Ilustração de vítima sofrendo com varíola durante a epidemia que assolou os ameríndios à época da conquista dos astecas pelos espanhóis. “Eu trago a destruição. Por mais bela que seja uma mulher, basta me ver para tornar-se medonha como a morte. E aos homens eu trago não apenas a morte, mas a destruição de seus filhos e o empestamento de suas esposas”, diz a varíola. / . Créditos: Bernardino de Sahagún.
A charge da revista O Malho, de 29 de outubro de 1904, parecia prever a revolta que se instalaria na cidade poucos dias depois: nem com um exército, o “Napoleão da Seringa e Lanceta”, como muitos se referiam a Oswaldo Cruz na época, conseguia conter a fúria da população contra a vacinação compulsória / Crédito: Leonidas/Acervo Fiocruz
O Aedes aegypti é o transmissor da febre amarela, dengue, zika e chikungunya no Brasil. Ele é um mosquito exótico, ou seja, não é originário daqui e chegou ao Brasil junto com o tráfico de escravos no século XVI. É um mosquito negreiro / Foto: Pixabay/Divulgação
H. G. Wells, no fim de A Guerra dos Mundos: “De qualquer modo, esperemos ou não outra invasão, os nossos pontos de vista acerca do futuro da Humanidade devem sofrer uma grande modificação em consequência destes acontecimentos. Sabemos agora que não podemos olhar este planeta como uma fortaleza e um lugar onde o Homem poderá residir em segurança”. / Imagem: TV Series Finale

Somos pó e ao pó voltaremos, dizem uns. Somos todos feitos de poeira de estrelas, dizem outros.

No artigo “Vírus e bactérias: os verdadeiros donos do mundo”, publicado na revista Superinteressante, Alexandre Versignassi e Barbara Axt dão a receita: “Você é um sundae polvilhado com Ovomaltine. Pelo menos do ponto de vista dos micróbios. Existem mais bactérias pastando pela sua pele do que gente vivendo no planeta. Para elas, seu corpo é o paraíso, um lugar cheio de oásis onde água e comida jorram o tempo todo, na forma de água, sais minerais e gordura e proteínas. Cada um dos seus poros é como um restaurante onde tudo isso sai de graça. Em troca, elas deixam seu corpo fedendo. As axilas são mais problemáticas porque são as praças de alimentação mais concorridas, com glândulas que produzem mais óleos e proteínas de que elas gostam.”

E continuam: “E isso porque a pele nem tem tantas bactérias assim, comparado com a parte de dentro. A realidade assusta. Nosso corpo é feito de 10 trilhões de células. E abriga 100 trilhões de bactérias. Da próxima vez que se olhar no espelho, lembre-se: 90% do que está ali não é você, mas uma megacivilização de micro-organismos”.

Completando:  “Se elas dominam por dentro, não é diferente do lado de fora. Nas palavras de Nathan Wolfe, um dos infectologistas mais renomados de hoje, se existisse uma enciclopédia de 30 volumes listando tudo o que vive nesse planeta, 27 seriam para descrever vírus e bactérias. Eles formam literalmente uma população de peso. Caso desse para colocar na balança todas as coisas vivas do mundo, incluindo bichos, plantas e tudo o mais, 80% do peso total viria dos micróbios.”

Somos um detalhe.

 

Nascemos mundos.

De acordo com o Dicionário Online de Português,  Mundo,  substantivo masculino, que veio do latim mundus, é o “conjunto de tudo que existe, os astros e planetas; universo.”  E também: “Conjunto de indivíduos que formam um agrupamento humano determinado; designação da espécie humana.”

Como adjetivo, mundo vem a significar ” excessivamente limpo; asseado.” Imundo é o contrário de mundo. Sujo.

Nascemos mundos.  Michael Specter (“Os micróbios somos nós – As bactérias causam doenças. Será que também podem defender a vida?”, artigo publicado  na revista Piauí, Edição 80, Maio 2013) esclarece:   “Herdamos cada um dos nossos genes, mas deixamos o ventre materno sem um único micróbio. Quando atravessamos o canal vaginal de nossas mães, a caminho do nascimento, começamos a atrair colônias inteiras de bactérias. Quando chega ao momento em que aprende a engatinhar, toda criança já vive rodeada por uma enorme nuvem invisível – 100 trilhões, ou mais, de micro-organismos. Em sua maioria são bactérias, mas também há vírus e fungos (entre eles uma grande variedade de leveduras, responsáveis pela fermentação) que nos chegam de todo lado: por outras pessoas, pelos alimentos, móveis, roupas, carros, prédios, árvores, animais de estimação, até mesmo pelo ar que respiramos”.

Eles acampam em nosso corpo. Moram e demoram. São nosso corpo. “Congregam-se no nosso sistema digestivo e em nossas bocas, preenchem os espaços entre os nossos dentes, cobrem nossa pele e forram nossa garganta. Somos habitados por até 10 mil espécies de bactérias, e essas células excedem as que consideramos nossas numa proporção de dez para um, pesando, no total, em torno de 1,5 quilo – o mesmo que o nosso cérebro. Juntas, são referidas como o nosso microbioma – e desempenham um papel tão crucial em nossas vidas que cientistas como Blaser começaram a reformular sua definição do que constitui um ser humano”, explica Michael Specter. [Martin J. Blaser, chefe do departamento de medicina e professor de microbiologia da Escola de Medicina da Universidade de Nova York (NYU).]

A palavra vírus vem do latim e significa venenos. Atualmente é utilizada para descrever os vírus biológicos, além de designar, metaforicamente, qualquer coisa que se reproduza de forma parasitária, tipo  “vírus de computador”.

A palavra Vir, em latim, significa homem, ser humano.  De viris illustribus (Sobre os cidadãos ilustres) é  uma coleção de cento e trinta e cinco pequenas biografias compiladas pelo pai da Igreja latina do século IV, Jerônimo de Estridão. Cidadãos ilustres. É quase um sonho.

Estamos todos na mesma rede, virando e revirando.  Mas parece que alguns se reviram mais que outros. “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”, disse  Oscar Wilde, talvez entrando em um teatro.

Não foi na fila de um hospital. Mas podia ser. Ou deixar de ser.

 Imperialismo ecológico.

“Onde quer que o europeu tenha andado, a morte parece ter perseguido o aborígine. Podemos olhar para a larga extensão das Américas, da Polinésia, do cabo da Boa Esperança e da Austrália, e encontraremos o mesmo resultado”, escreveu Charles Darwin em 1839, no seu A viagem do Beagle. Essa constatação está provada e historiada por Alfred W. Crosby em Imperialismo ecológico: a expansão biológica da Europa 900-1900 (São Paulo: Companhia das Letras, 2011).

Na conquista do Novo Mundo, os europeus trouxeram a peste. Eles foram a peste. Escreve Crosby: “Os patógenos incluem-se entre os organismos mais ‘daninhos’ existentes. Devemos examinar a história colonial dos patógenos do Velho Mundo, pois o seu sucesso constitui um dos exemplos mais espetaculares do poder das realidades biogeográficas subjacentes ao êxito dos imperialistas europeus no além-mar. Foram os seus germes – e não os imperialistas em si, a despeito de toda a sua ferocidade e desumanidade – os principais responsáveis pela devastação dos indígenas e pela abertura das Neoeuropas [terras dos Novos Mundos “europeizadas” através de plantas e animais introduzidos pelos conquistadores] à dominação demográfica”.

A África se defendeu melhor dos virulentos europeus do que a América. Crosby: “A mais eficaz defesa da África ocidental contra os europeus era a doença: malária, febre amarela, dengue, corrimentos sanguíneos e todo um zoológico de parasitos helmínticos. (…) A África era um prêmio ao alcance da Europa, mas secava a mão que tentava agarrá-la. João de Barros [1496-1570, geralmente considerado o primeiro grande historiador português e pioneiro da gramática da língua portuguesa], que estava na Costa da Guiné no século XVI, expressou de forma eloquente a frustração de todos os imperialistas que contemplavam a África, opulenta, torturante, impossível: ‘Mas parece que por nossos pecados, ou por algum inescrutável julgamento de Deus, em todas as entradas desta grande  Etiópia que naveguemos, Ele colocou um anjo com uma espada flamejante de febres mortais, que nos impede de penetrar nas primaveras de seu jardim de onde procedem esses rios de ouro que correm para o mar em tantas partes de nossa conquista’.”

O anjo epidemiológico lutou com bravura, inclusive com as asas sonolentas da mosca tsé-tsé, mas não impediu o saque das terras africanas nem o deslocamento de cerca de 10 milhões de escravos para as Américas.

Quanto aos ameríndios, de acordo com Crosby, “a sífilis venérea talvez tenha sido a única exportação importante de doença do Novo Mundo” para o Velho Mundo; além do bicho-do-pé.

Pois é. Eles, os ameríndios, sofreram de doenças desde o primeiro contato com Colombo. A varíola foi a mais letal de todas, desempenhando, ainda na palavra de Crosby,  “um papel tão essencial quanto a pólvora no avanço do imperialismo branco do ultramar – um papel talvez até mais importante, pois os indígenas acabaram voltando o mosquete, e depois o rifle, contra os invasores, mas a varíola pouquíssimas vezes lutou do lado dos primeiros habitantes”.

Uma “doença com botas de sete léguas”, entre 1520 e 1540 ela pode ter se espalhado dos Grandes Lagos norte-americanos até os pampas sul-americanos. Crosby: “Eu trago a morte. Meu hálito faz com que as crianças murchem como broto de plantas na neve da primavera. Eu trago a destruição. Por mais bela que seja uma mulher, basta me ver para tornar-se medonha como a morte. E aos homens eu trago não apenas a morte, mas a destruição de seus filhos e o empestamento de suas esposas. Os mais valentes guerreiros tombam diante de mim. Ninguém que tenha me visto volta a ser o mesmo”, diz a varíola para um herói mítico da tribo dos kiowas do sul das Grandes Planícies da América do Norte.

[Desconhece-se a origem da varíola. As primeiras evidências da doença encontram-se em múmias egípcias datadas do século III. Estima-se que ao longo do século XX a varíola tenha causado entre 300 e 500 milhões de mortes. O último caso natural da doença foi diagnosticado em outubro de 1977, o que levou a Organização Mundial de Saúde a certificar sua erradicação em 1980.]

        

A Revolta da Vacina.

Em frente. A Revolta da Vacina foi uma batalha entre as supostas luzes da Europa e as supostas trevas da América. Recapitulando: para erradicar a varíola, o sanitarista Oswaldo Cruz convenceu o Congresso a aprovar a Lei da Vacina Obrigatória (31 de outubro de 1904), que permitia que brigadas sanitárias, acompanhadas por policiais, entrassem nas casas para aplicar a vacina à força.

A campanha de vacinação obrigatória, aplicada de forma autoritária e violenta, é colocada em prática em novembro de 1904: em alguns casos, os agentes sanitários invadiam as casas e vacinavam as pessoas à força, provocando revolta. A resistência popular começou no dia 10 de novembro de 1904, com uma manifestação estudantil, cresceu consideravelmente no dia 12, quando a passeata de manifestantes se dirigia ao Palácio do Catete, sede do Governo Federal.

A população estava alarmada. No domingo, dia 13, o centro do Rio de Janeiro transformou-se em campo de batalha.  A cidade parecia em ruínas, muitos perdiam suas casas e outros tantos tiveram seus lares invadidos pelos mata-mosquitos, que agiam acompanhados por policiais. Jornais da oposição criticavam a ação do governo e falavam de supostos perigos causados pela vacina. Além disso, o boato de que a vacina teria de ser aplicada nas “partes íntimas” do corpo (as mulheres teriam que se despir diante dos vacinadores) agravou a ira da população.

Nicolau Sevcenko, em A Revolta da Vacina (São Paulo: Cosac Naify, 2010) escreve: “Nunca se contaram os mortos da Revolta da Vacina. Nem seria possível, pois muitos, como veremos, foram morrer bem longe do palco dos acontecimentos. Seriam inúmeros, centenas, milhares, mas é impossível avaliar quantos. Os massacres em geral não manifestam rigor pela precisão. Sabe-se quantos morreram em Canudos, no Contestado ou na Revolução Federalista – para só ficarmos nas grandes chacinas da Primeira República? A matança coletiva dirige-se, via de regra, contra um objeto unificado por algum padrão abstrato, que retira a humanidade das vítimas: uma seita, uma comunidade peculiar, uma facção política, uma cultura, uma etnia.”

Para Sevcenko,  a Revolta da Vacina ocorreu num momento decisivo de transformação da sociedade brasileira, fornecendo uma visão particularmente esclarecedora de alguns elementos estruturais que preponderaram em nosso passado recente e repercute inclusive nos dias atuais: “O argumento do governo era de que a vacinação era de inegável e imprescindível interesse para a saúde pública. E não havia como duvidar dessa afirmação, visto existirem inúmeros focos endêmicos da varíola no Brasil, o maior deles justamente a cidade do Rio de Janeiro. Esse mesmo ano de 1904 atestou um amplo surto epidêmico: até o mês de junho haviam sido contabilizados oficialmente mais de 1800 casos de internações no Hospital de São Sebastião, no Distrito Federal, e o total anual de óbitos devidos à varíola seria de 4201. A medida, além do mais, insistiam as fontes do governo, fora adotada com pleno sucesso na Alemanha em 1875, na Itália em 1888 e na França, em 1902; por que não o seria então no Brasil, onde sua incidência era muito mais grave? Por isso, e chamando-a de ‘humana lei’, o governo assume a responsabilidade da sua implantação em caráter obrigatório também no Brasil, pretendendo assim conciliar ‘os altos e importantes interesses da saúde pública, que é a saúde do povo, com as garantias que as leis e a Constituição liberalizam a quantos habitam a nossa pátria’, nas palavras do ministro da Justiça e do Interior, José Joaquim Seabra.”

Ainda Sevcenko: “Os interlocutores da oposição, enraivecidos, respondiam ao governo que, no caso da lei brasileira, os métodos de aplicação do decreto de vacinação eram truculentos, os soros e sobretudo os aplicadores pouco confiáveis e os funcionários, enfermeiros, fiscais e policiais encarregados da campanha manifestavam instintos brutais e moralidade discutível. Os maus exemplos vinham da campanha anterior, pela extinção da febre amarela, e toda a população já os conhecia. Os opositores diziam ainda mais, que se o governo acreditava plenamente nas qualidades e na necessidade da vacina, então que deixasse a cada consciência a liberdade de decidir pela sua aplicação ou não, podendo, inclusive, escolher as condições que melhor lhe conviessem para recebê-la. Obstavam, enfim, não contra a vacina, cuja utilidade reconheciam, mas contra as condições da sua aplicação e acima de tudo contra o caráter compulsório da lei.”

Rui Barbosa estava no meio da querela. Sevcenko: “E o que é notável, mesmo um elemento conservador, culto e bem informado como Rui Barbosa, político de grande envergadura, respeitado pelo público e por seus pares, denotava uma enorme insegurança quanto às características, à qualidade e à aplicação da vacina antivariólica prevista pela lei: ‘Não tem nome, na categoria dos crimes do poder, a temeridade, a violência, a tirania a que ele se aventura, expondo-se, voluntariamente, obstinadamente, a me envenenar, com a introdução no meu sangue, de um vírus sobre cuja influência existem os mais bem fundados receios de que seja condutor da moléstia ou da morte’. E se Rui, um representante da mais elevada e mais ilustre elite do país, se mostrava temeroso de submeter-se a uma vacina, sobre a qual demonstrava saber somente que possuía em si o próprio vírus da varíola, o que não se pode imaginar sobre os terrores equivalentes e ampliados pela menor informação, que se disseminaram dentre as classes populares?”

[Não é por nada não, mas nessa o Águia de Haia voou rasteiro.]

Enfim, resume Sevcenko, a população exaltada depredou lojas, virou e incendiou bondes, fez barricadas, arrancou trilhos, quebrou postes e atacou as forças da polícia com pedras, paus e pedaços de ferro. No dia 14, os alunos da Escola Militar da Praia Vermelha também se sublevaram contra as medidas baixadas pelo Governo Federal. A reação popular levou o governo a suspender a obrigatoriedade da vacina e a declarar estado de sítio (16 de novembro). A rebelião foi contida, deixando 30 mortos e 110 feridos. Centenas de pessoas foram presas e, muitas delas, enviadas para o Acre.

Hoje temos redes antivacina e carreatas antiquarentena.  E segue o mundo com suas voltas e viradas, revoltas e reviravoltas, sempre levantado poeira.

O mosquito negreiro.

Sim, e os insetos? De acordo com a  Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz)   [Texto: Ivana Silva; Revisão: Cássia Nunes],  “Entomologia é uma palavra que vem do idioma grego antigo. Éntomon significa ‘inseto’ e é derivado do radical ‘éntomos’, que significa  ‘cortado, dividido’; a maioria dos insetos apresenta o corpo dividido em numerosos anéis ou segmentos. ‘Logos’ significa fala, discurso, pensamento, estudo de algo. Sendo assim, Entomologia vem a ser o estudo dos insetos .”

Em frente: “‘Inseto’ é outra palavra com um significado interessante, derivada do latim. Animale insectum significa ‘animal segmentado’; insectum é o particípio passado do verbo insecare, que quer dizer ‘cortar em’ (partes). Portanto, a própria palavra inseto se refere ao fato desses animais possuem o corpo dividido segmentos.  Os insetos formam a  maior classe do Reino Animal, são mais de 800.000 espécies conhecidas. Os insetos vivem espalhados por todo o mundo. Desde as regiões polares até as zonas tropicais, passando por rios, mares e oceanos.'”

[A maioria dos insetos alcança a maturidade através da metamorfose. Quer dizer: são kafkianos.]

Os mosquitos, ainda segundo a Fiocruz,  surgiram provavelmente no Jurássico, período em que os dinossauros dominavam a Terra e as florestas tropicais eram mais quentes. Eles são dípteros, ou seja, insetos que possuem um par de asas, como as moscas, mas sua característica principal é que as fêmeas têm as peças bucais alongadas, adaptadas para picar e sugar o sangue de animais vertebrados. O primeiro fóssil de mosquito  era uma fêmea e foi descoberto em Myanmar (antiga Birmânia) em 1999,  encontrado  dentro de um âmbar, tendo de 90 a 100 milhões de anos de idade.

Entre os mosquitos, zumbe terror o Aedes aegypti [aēdēs do grego “odioso”, e ægypti do latim “do Egipto”]. Fiocruz: “De acordo com estudos recentes sobre evolução, o Aedes (Stegomya) aegypti teria surgido na África e de lá se espalhado por todo o globo. No Brasil diversos estudos apontam para a existência de dois grupos diferentes de Ae. aegypti, um deles relacionado aos mosquitos do oeste da África e outro aos mosquitos encontrados hoje no Quênia, leste da África, introduzidos no país em diversas levas, antes e depois dos programas de erradicação que aconteceram nas Américas. Isso nos mostra, mais uma vez, que o Aedes é um mosquito exótico, ou seja, ele não é originário daqui e chegou ao Brasil junto com o tráfico de escravos no século XVI, que trazia pessoas do Benin, da Costa do Marfim, de Angola e outros países daquele continente.”

Pois é. O odioso e cosmopolita Aedes aegypti, responsável por surtos de Dengue, Febre Amarela, Zika e Chikungunya, chegou até aqui dentro de navios negreiros. Seria essa uma vingança  dos humilhados e ofendidos, dos redundantes e excluídos? Um vingança em forma de um mosquito negreiro?

Final feliz.

Fechando essa conversa meio sombria. H. G. Wells, em A guerra dos mundos (São Paulo: Alfaguara 2007; existem outras edições; o original é de 1898) conta como os marcianos invadiram a Terra e destroem os humanos que se aproximam com o raio da morte, até que são derrotados pelas bactérias terráqueas, contra as quais não tinham imunidade.

Eis as palavras quase finais do narrador: “De qualquer modo, esperemos ou não outra invasão, os nossos pontos de vista acerca do futuro da Humanidade devem sofrer uma grande modificação em consequência destes acontecimentos. Sabemos agora que não podemos olhar este planeta como uma fortaleza e um lugar onde o Homem poderá residir em segurança; nunca podemos prever o bem ou o mal que pode chegar de súbito até nós, vindo do espaço; é possível que nos mais latos desígnios do universo esta invasão dos marcianos se venha a mostrar benéfica para os homens: roubou-nos aquela serena confiança no futuro que é a mais fértil fonte de decadência; os dons que ofertou à ciência humana são enormes e contribuiu grandemente para promover a concepção da comunidade humana.”

Amém.  Os inimigos (marcianos, vírus, insetos, externos, internos) são os melhores mestres.

Marte está ao nosso alcance. Já foi colonizado pela nossa imaginação. E a sede de conquistar novos mundos prossegue.  Infectar novos mundos, dirão os pessimistas. Sobreviver a qualquer preço, dirão os otimistas. Sangue bom, dirá o velho e eterno mosquito. (Francisco Maciel)

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