DIÁRIO DA PESTE NA ILHA

Nenhum homem é uma ilha. Nesses dias contagiosos e pandemônicos, quando fica cada vez mais difícil ver quem está ou não está atrás da máscara, parece que todo mundo é uma ilha. Vivemos tempos de naufrágios.  E já que o futuro sempre foi incerto, nada melhor que fazer uma viagem ao passado. É um mergulho logo ali. Parece que foi ontem. Para muita gente é pior do que ontem: é hoje.

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Robinson Crusoé caminha pela praia, ergue as mãos para o céu, pensa nos seus companheiros, mas só consegue ver três chapéus, um gorro e dois sapatos desemparelhados. Agora está sozinho, entregue à própria sorte, isolado em sua ilha / Crédito: medium.com

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Parece que Alexander Selkirk, um náufrago escocês que viveu durante quatro anos em uma ilha do Pacífico, foi o verdadeiro inspirador do desolado Crusoé. Isso sem falar de um romance do século XII, escrito por um árabe chamado Ibn Tufail e que narra as aventuras de um homem numa ilha deserta. A ilha da foto é a Robinson Crusoe Island, que oferece “um serviço impecável e todas as amenidades essenciais para ajudar os viajantes cansados a recuperarem as suas energias” / Crédito: Agoda

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Diário do Ano da Peste: “Continuamos com esperanças por alguns dias, mas só alguns, pois o povo não podia mais ser enganado desta maneira. Inspecionaram as casas e descobriram que a peste realmente se espalhara por toda parte e que muitos morriam com ela todos os dias”. Fiquem em casa. Stay home / Crédito: Estadão

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Sentindo-se ocioso durante a quarentena? Que tal descobrir a próxima teoria que mudará os rumos da ciência? Foi o que fez Isaac Newton quando a Universidade de Cambridge liberou seus alunos para voltarem para suas casas e se resguardarem da Grande Peste de Londres, uma epidemia de peste bubônica que afetou a Inglaterra entre 1665 e 1666 / Texto e imagem: Revista Galileu

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Em 1903, para combater a peste, Oswaldo Cruz instituiu um prêmio por cada rato morto que fosse entregue ao governo, o que acabou gerando um estranho mercado. A charge intitulada ‘Novo Commercio Oswaldico’ foi publicada na revista Tagarela em 4 de agosto de 1904./ Crédito: HCSM

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Daniel Foe — o apelido só seria alterado pelo autor em 1695 para Defoe — (1660-1731), é considerado por muitos o primeiro romancista de língua inglesa. Foi comerciante, economista, jornalista e espião antes de escrever o seu primeiro romance, As Aventuras de Robinson Crusoé, aos sessenta anos. Escritor prolífico e versátil, produziu inúmeros livros sobre uma ampla variedade temática, incluindo a esfera política, religião, economia, matrimônio, psicologia e superstição. / Imagem: Interesting Facts

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Nenhum homem é uma ilha. Nesses dias contagiosos e pandemônicos, quando fica cada vez mais difícil ver quem está ou não está atrás da máscara, parece que todo mundo é uma ilha. E Robinson Crusoé é o mais ilhado e pilhado de todos os homens.

Ele nasceu na velha York, na Inglaterra, há uns 200 anos atrás, foi senhor de engenho no Brasil, partiu para a África a serviço de comerciantes de Salvador, mas uma tempestade arrastou seu barco para o Caribe, para a Venezuela, para as pedras. Robinson foi o único que sobreviveu ao naufrágio, conseguiu chegar a uma ilha e nela ficou por 27 anos, dois meses e dezenove dias.

Qualquer um naufraga, por fora ou por dentro, tudo é naufrágio. Tudo é frágil.  Em As Aventuras de Robinson Crusoé (Porto Alegre, L&PM Pocket, 1997, tradução de Albino Poli Jr.), Daniel Defoe narra o sufoco e o desespero do jovem marinheiro:

“Nosso navio tinha aproximadamente 120 toneladas e transportava seis canhões e quatorze homens, além do Capitão, seu assistente e eu. Levávamos a bordo uma carga que não era grande, exceto pelas bugigangas necessárias para o intercâmbio com os negros, como contas, pedaços de vidros, conchas e outras quinquilharias, especialmente pequenos espelhos, facas, tesouras e machadinhas.

Zarpamos no mesmo dia em que embarquei, subindo a costa rumo ao norte, com o objetivo de cruzar o oceano em direção à África, quando chegássemos a 10 ou 12 graus de latitude norte, o que suponho fosse a rota habitual naquela época. O tempo estava ótimo, apenas excessivamente quente durante todo o percurso ao longo do litoral, até que chegamos à altura do cabo Santo Agostinho, onde, rumando mais para o largo, perdemos a terra de vista e seguimos na direção da ilha de Fernando de

Noronha, mantendo o curso norte-nordeste e deixando as ilhas a leste do navio.

Assim, atravessamos o Equador dentro de uns doze dias e estávamos, conforme a última observação, a 7 graus e 22 minutos de latitude norte, quando um violento tornado ou furacão nos desorientou completamente. Começou a soprar de sudeste, logo virou para noroeste, até firmar-se no nordeste, de onde nos açoitou com tal fúria que, durante doze dias, nada pudemos fazer a não ser derivar e nos deixar levar para onde o destino e o furor dos ventos quisessem. Seria desnecessário dizer que, ao longo desses doze dias, eu temia a cada hora ser tragado pelas águas, e ninguém a bordo tinha a menor esperança de escapar com vida.

Em meio a todo esse desespero, castigados pela fúria da tempestade, um marujo morreu de calentura, outro homem e o grumete foram varridos pelas ondas. Por volta do décimo segundo dia, o tempo melhorou um pouco e o Capitão pôde fazer uma precária observação, segundo a qual estávamos a cerca de 11 graus de latitude norte, mas afastados 22 graus de longitude a oeste do cabo de Santo Agostinho. Concluiu, então, ter chegado à costa da Guiné ou ao norte do Brasil, além do rio Amazonas, na direção do rio Orenoco, também chamado rio Grande. Consultou-me sobre o rumo que deveríamos tomar, pois o navio fazia água e estava muito avariado. Por ele, regressaríamos diretamente à costa do Brasil.”

Não teve regresso. O barco bate num banco de areia, o mar quebra por cima do barco, e em pouco tempo é cada um por si. Robinson vai fundo:

“Não poderia descrever o que senti ao afundar nas águas. Embora nadasse muito bem, não conseguia me libertar das ondas para tomar fôlego, até que, depois de ser levado, ou antes, arrastado um longo trecho em direção à praia, a onda esmoreceu e, ao refluir, deixou-me quase em terra firme, porém semimorto de tanta água que engolira. Restava-me no entanto, bastante presença de espírito e também fôlego para, vendo-me mais perto da terra do que esperava, me pôr de pé e esforçar-me para prosseguir em direção a ela o mais rápido possível, antes que outra onda avançasse e me carregasse de novo. Mas logo percebi que era impossível evitar que isso acontecesse; pois vi o mar atrás de mim tão alto como uma montanha e tão furioso quanto um inimigo contra o qual não dispunha nem de meios nem de forças para enfrentar. O que tinha a fazer era prender a respiração e, se possível, manter-me à tona; depois, garantir a respiração nadando – e, se houvesse chance, em direção à praia. Minha maior preocupação era que o mar, depois de carregar-me para terra, também não me arrastasse de volta quando a vaga refluísse.”

Uma pausa para respirar. Um, dois, três. Vamos.

“A onda que caiu sobre mim subitamente envolveu-me em sua própria massa, a uns sete ou oito metros de profundidade, e outra vez senti-me arrastado com uma força e uma velocidade espantosas por um longo trecho em direção à praia; mas prendi a respiração e esforcei-me para continuar nadando para a frente com todas as minhas forças. Estava prestes a estourar de tanto prender a respiração, quando, sentindo-me subir, notei com alívio imediato que minha cabeça e mãos rompiam a superfície da água; embora não conseguisse me manter assim sequer por dois segundos, isso me aliviou enormemente, dando-me fôlego e coragem. Novamente o mar me recobriu por um bom tempo, mas não tanto que não pudesse aguentar; e sentindo que a força da água morria e começava a refluir, nadei contra o repuxo das ondas e tornei a tocar o fundo com os pés. Durante alguns momentos fiquei parado para recuperar o fôlego, enquanto a água baixava; firmei-me então nos calcanhares e disparei em direção à praia com toda a força que ainda me restava. Mas nem isso me livrou da fúria do mar, que tornou a desabar sobre mim, e por mais duas vezes fui erguido pelas ondas e carregado para a frente como antes, pois a praia era muito plana.

A última dessas vezes quase me foi fatal, pois tendo o mar me carregado como antes, lançou-me por terra, quer dizer, atirou-me contra uma rocha, e com tal violência que me tirou os sentidos, deixando-me indefeso e sem esperança de salvação. O golpe atingira-me o flanco e o peito, privando-me por completo da respiração, e, se o mar tivesse voltado imediatamente, sem dúvida teria me afogado.”

Outra respirada. Força. Fé.

” Mas recuperei-me antes que as ondas retornassem e, vendo que ia ser outra vez coberto pela água, resolvi agarrar-me firmemente a uma ponta da rocha, prendendo o fôlego, se possível, até que a vaga refluísse. As ondas já não eram tão altas como antes, por causa da proximidade da costa, e pude, portanto, resistir até que diminuíram. Então corri de novo, chegando tão perto da praia que a onda seguinte, embora ainda passasse por cima de mim, já não pôde arrancar-me do local em que estava e numa segunda corrida cheguei à terra firme, onde, para meu grande alívio, subi por entre os rochedos e sentei-me na relva, livre do perigo e fora do alcance do mar.”

Nada melhor que ter o pé no chão.

Robinson Crusoé caminha pela praia, ergue as mãos para o céu, pensa nos seus companheiros, mas  só consegue ver três chapéus, um gorro e dois sapatos desemparelhados. Era tudo o que tinha sobrado deles. Mal podia ver o barco encalhado, coberto pela espuma da rebentação.

Ele está numa ilha. A sua ilha. Vai viver quase 30 anos nela, sozinho, sem ninguém. Até Sexta-Feira.

A peste.

Parece que Alexander Selkirk, um náufrago escocês que viveu durante quatro anos em uma ilha do Pacífico, foi o verdadeiro inspirador do desolado Crusoé. Isso sem falar de um romance do século XII, escrito por um árabe chamado Ibn Tufail e que narra as aventuras de um homem numa ilha deserta.

O verdadeiro herói desta conversa é Daniel Defoe (1660-1731). Jornalista e panfletário, se meteu em intrigas políticas, foi preso várias vezes por dívidas e ideias tortas, até que publicou em 1719 o livro que o transformou em celebridade reverenciada:  um escritor profissional resgatado por um náufrago inventado, o Crusoé.

Em 1722, Defoe publica Um diário do ano da peste (Porto Alegre: L&PM, 1987, tradução de Eduardo Serrano San Martin).  Trata-se de uma narrativa ficcional sobre a peste bubônica que se abateu sobre Londres no verão  de 1665, trazida por ratos de porões de navios estrangeiros, matando 17.440 dos seus 93 mil habitantes.  O autor tinha quatro anos na época, o que não impediu o jornalista imaginativo de contar o calamitoso evento em detalhes, inclusive a execução de 40 mil cães e 20 mil gatos para conter a transmissão da doença. Em vão.

[É preciso registrar aqui o senso comercial de Defoe: Um diário do ano da peste foi escrito em 1721-22, contando com o interesse do público londrino que vinha acompanhando as notícias de um surto de peste em Marselha, na França. Se fosse hoje, ele já estaria registrando o covid-19 num blog, checando fake news, dando conselhos médicos no youtube, fazendo a revisando final de um e-book a ser lançado pela Amazon.]

Um trecho do Diário do Ano da Peste. Atenção: o relato é macabro, e vai sem cortes:

“Isto foi no começo de maio, o clima ainda temperado, instável e bastante frio, e o povo ainda tinha algumas esperanças. O que os encorajava era que a city [bairro central] estava saudável: todas as noventa e sete paróquias enterraram apenas cinquenta e quatro mortos e começamos a acreditar que a peste ficaria só naquele canto da cidade, sem avançar mais, pois na semana seguinte, de 9 a 16 de maio, morreram três, mas nenhum dentro de toda city ou liberties [povoados próximos]. St James enterrou apenas quinze, o que era muito pouco. E verdade que St Giles enterrou trinta e dois, mas, mesmo assim, apenas um morrera com a peste e o povo voltou a se tranquilizar. O registro geral de óbitos também estava bastante baixo, pois, na semana anterior, registraram-se 347 mortos e, na semana mencionada acima, apenas 343.

Continuamos com esperanças por alguns dias, mas só alguns, pois o povo não podia mais ser enganado desta maneira. Inspecionaram as casas e descobriram que a peste realmente se espalhara por toda parte e que muitos morriam com ela todos os dias. Então, todo nosso entusiasmo diminuiu e não dava mais para esconder. Mais que isso, rapidamente transpareceu que a epidemia tinha se espalhado mais do que qualquer esperança de seu declínio. Na paróquia de St Giles, atingira várias ruas e varias famílias estavam de cama, com todos muito doentes e, consequentemente, no boletim de óbitos da semana seguinte, a coisa começou a se mostrar. E verdade que havia apenas quatorze registrados com peste, mas tudo não passava de fraude e enganação, porque na paróquia de St Giles enterraram

quarenta no total e certamente a maioria morreu de peste, embora estivesse registrada com outras doenças. Mesmo o número de todos os enterros não aumentando para além de trinta e dois e sendo só 385 o total de mortos, havia quatorze com febre tifoide e quatorze com peste. Considerávamos óbvio que, no total, cinquenta morreram de peste naquela semana.

O boletim seguinte ia de 23 a 30 de maio, com dezessete casos de peste. Mas os enterros em St Giles chegaram a cinquenta e três – um número assustador –, dos quais só nove registrados com peste. Numa inspeção mais rigorosa, porém, feita pelos juízes de paz a pedido do Lorde Prefeito, foi descoberto que mais vinte morreram realmente de peste naquela paróquia, mas foram registrados com febre tifoide ou outras doenças, além de outros escondidos.”

Nada muito novo. E nem mesmo original. Basta ler a revista História, Ciências, Saúde-Manguinhos, que informa que em 21 de maio de 1900, há 120 anos, foi declarada uma epidemia de peste bubônica no Rio de Janeiro. “Os primeiros casos foram observados em janeiro, principalmente entre moradores da zona portuária e trabalhadores de armazéns, ou seja, a população mais pobre da cidade. De acordo com Matheus Alves Duarte da Silva, mestrando em História Social na USP que desenvolve pesquisa sobre as epidemias de peste bubônica no Brasil, ocorreram diversas epidemias de peste bubônica no Rio. Elas geralmente começavam em maio e terminavam em março do ano seguinte. Na epidemia de 1900, foram contabilizados 295 mortos. Na de 1901, 199; em 1902, 215; em 1903, 360; e em 1904, 275.”

A doença, que viera da China para a América do Sul pelo Paraguai e a Argentina, chegou em Santos em outubro de 1899. O governo federal designou Oswaldo Cruz para verificar a etiologia da epidemia de Santos junto com Adolpho Lutz e Vital Brazil. Com a confirmação oficial de que tratava-se da peste bubônica, as autoridades sanitárias decidiram instituir laboratórios para produção de vacina e soro contra a peste: o Instituto Butantan, em São Paulo, e o Instituto Soroterápico Municipal no Rio de Janeiro, que mais tarde viria a se tornar a Fiocruz.

O já citado pesquisador   Duarte da Silva conta que, em 1903, para combater a peste, Oswaldo Cruz instituiu um prêmio por cada rato morto que fosse entregue ao governo. A abertura desse mercado marcou época.

[Um fato gravíssimo.

A Universidade de Cambridge liberou seus alunos para voltarem para suas casas e se resguardarem da Grande Peste de Londres.  O aluno Isaac Newton voltou para a mansão Woolsthorpe, a 96 quilômetros de Cambridge e de seus professores. Ele fez do Ano da Peste um annus mirabilis, latim para “ano miraculoso” ou “ano de maravilhas.”  Newton pôs em dia seus problemas de matemática, que mais tarde deram origem ao Cálculo moderno, e fez alguns experimentos com prismas, iniciando seus estudos sobre óptica. Nesse mesmo período, observou uma maçã cair de uma árvore e mordeu a Teoria da Gravitação Universal, aquela que diz “dois corpos atraem-se com força proporcional às suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância que separa seus centros de gravidade”. Obrigado, revista Galileu. ]

O dono da ilha.

O surto da peste londrina foi controlado de uma forma violentíssima:  com um grande incêndio, o Great Fire, que começou na city, e, em quatro dias, destruiu meia cidade.

Quanto ao náufrago Robinson Crusoé, ele se deu bem. Tirou ferramentas, cordas, tábuas e outros utensílios do barco encalhado e foi se aconchegando em sua ilha. Nos últimos anos de exílio, salvou um selvagem que ia ser sacrificado por um grupo de canibais e ganhou um companheiro a quem deu o nome de Sexta-Feira. Foi resgatado, voltou para    Inglaterra, casou-se, ficou rico, ficou viúvo, e aproveitou para fazer uma viagem até a sua ilha. Ele era dono da ilha. Ele era um homem de negócios.

“Nessa viagem visitei minha nova colônia na ilha, vi meus sucessores, os espanhóis, soube a história completa de suas vidas, assim como a dos vilões que lá deixara; como a princípio maltrataram os pobres espanhóis, para mais tarde concordarem, discordarem, unirem-se e separarem-se, e como finalmente os espanhóis foram obrigados a usar de violência com eles, como foram submetidos e com quanta justiça os trataram. Um relato, em suma, que, se entrasse em detalhes, seria tão maravilhoso e cheio de surpresas como o meu, principalmente no que se

refere a suas batalhas com os caribes, que desembarcaram diversas vezes na ilha, aos progressos e benfeitorias que fizeram nessas terras, e também à forma como cinco deles tentaram chegar ao continente e voltaram trazendo onze homens e cinco mulheres como prisioneiros, razão pela qual encontrei à minha chegada cerca de vinte crianças na ilha.

Permaneci ali uns vinte dias, deixando-lhes todo tipo de suprimentos necessários, especialmente armas, pólvora, metralha, roupas e ferramentas, bem como dois trabalhadores que trouxera comigo da Inglaterra, um carpinteiro e um ferreiro. Além disso, dividi a ilha em lotes, que entreguei a eles de comum acordo, reservando a mim a propriedade do conjunto. E após deixar todas essas coisas em ordem e comprometê-los a não abandonarem a ilha, embarquei novamente. “

E prossegue o próspero Crusoé:

“Dali fui ao Brasil, de onde enviei um barco comprado por mim com mais habitantes para a ilha. Entre eles, além de diversas outras coisas necessárias, havia sete mulheres que achei aptas para o trabalho e com as quais poderiam casar-se os que assim o quisessem. Quanto aos ingleses, prometi enviar-lhes algumas mulheres da Inglaterra junto com um carregamento de provisões, caso se esforçassem na tarefa de plantadores, o que de fato fizeram mais tarde; tornaram-se, então, homens honestos e trabalhadores, conservando cada um a sua propriedade. Enviei-lhes também cinco vacas, três delas com terneiros, algumas ovelhas e porcos, que se multiplicaram todos consideravelmente quando voltei à ilha. A tudo isso haveria que acrescentar a história de como trezentos caribes invadiram a ilha arruinando as plantações e como os colonos tiveram de enfrentar um número tão grande em duas ocasiões, sendo a princípio derrotados e sofrendo três baixas, até que uma tempestade destruiu as canoas inimigas, e a fome e as lutas acabaram com a maior parte dos selvagens, permitindo por fim a reconquista das plantações e a sua recuperação, junto às quais ainda vivem os colonos. Tudo isso, repito, com os surpreendentes episódios de minhas novas aventuras durante outros dez anos, poderá talvez mais adiante constituir uma outra narrativa.”

Quem disse que ninguém é uma ilha? Quem garante que não vale a pena naufragar? (Francisco Maciel)

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